Autor: juliocelestino

  • Sobrevivendo no Inferno – Uma Reflexão Cristã


    “Deus fez o mar, as árvores, as crianças, o amor. O homem me deu a favela, o crack, a trairagem, as armas, as bebidas, as prostitutas. Eu? Eu tenho uma bíblia velha, uma pistola automática e um sentimento de revolta. Eu estou tentando sobreviver no inferno.” – Brown 


    APRESENTAÇÃO

         O texto a seguir é uma breve reflexão da primeira faixa do disco Sobrevivendo no Inferno dos Racionais Mc’s através de uma cosmovisão cristã. Sua estrutura está dividida em cinco pontos: 1) Daquilo que Deus deu; 2) Daquilo que o homem deu; 3) Daquilo que eu tenho; 4) Da condição e 5) Considerações finais e verdades fundamentais. Os texto bíblicos utilizados são da tradução bíblica Almeida Corrigida Fiel. Boa leitura! Que Deus te abençoe!


    DAQUILO QUE DEUS DEU

    Essa introdução é a uma transcrição da faixa “Gênesis” contida no álbum “Sobrevivendo no Inferno” do grupo de rap nacional Racionais Mc’s, lançado em 1997. Boa parte das músicas do Racionais Mc’s me fazem refletir sobre o conhecimento epistemológico incrível que é adquirido através da experiência de vida. Com a frase “fale o que quiser, o que é, é!” [1], Pedro Paulo Soares Pereira (Brown) acerta em cheio na questão de falar do que se conhece na prática.

    No início de um dos álbuns mais relevantes do grupo, Brown inseriu uma verdade que para muitos se tornou relativa, a saber: “no princípio criou Deus os céus e a terra”. Aqui ele confessa sua fé em um único Criador, que através da sua Palavra criou tudo aquilo que existe na natureza. Brown enumera quatro coisas de forma resumida para transmitir a mensagem de que tudo o que Deus criou é perfeito, justo e bom. O belo e imenso mar com toda sua variedade de vida; as árvores que geram o ar que respiramos. E o que dizer das crianças? É oportuno reproduzir o que Deus diz sobre elas: “… da boca dos pequeninos e das criancinhas de peito tiraste perfeito louvor” (Mt 21.16); “em verdade vos digo que, se não vos fizerdes como meninos, de modo algum entrarão no reino dos céus” (Mt 18.3). No primeiro versículo, Jesus declarou que dos pequeninos e das crianças de peito se pode tirar o perfeito louvor. Este é um texto frequentemente lembrado ao ouvir o som de uma criança cantando louvores à Deus, porém, como podemos assimilar uma criança de peito ao perfeito louvor? As respostas dos teólogos podem ser variadas, porém, quero expor minha própria percepção sobre tal louvor. O salmo 19.1-6 nos ensina que a natureza louva ao Senhor. Assim como o culto da natureza, nada poderia ser mais natural que a união de um homem e uma mulher para gerar uma vida!

    O homem moderno está dotado de capacidade para criar coisas incríveis como computadores, smartphones, aeronaves, carros e mais uma infinidade de aparatos tecnológicos, ele, porém, com todo seu conhecimento e tecnologia é incapaz de criar uma vida humana, a não ser que esta seja gerada pelas normas preestabelecidas por Deus: a união entre homem e mulher. Em suma, a criança de peito é uma dádiva milagrosa de Deus para o homem; seu respirar despreocupado e dependente dos pais constitui-se naturalmente um perfeito louvor ao criador dos céus e da terra, pois somente Ele é capaz de conceder-nos este dom. De alguma forma, tão importante quanto o mar e as árvores, Brown cita as crianças como obra-prima de Deus. Por fim, ele cita o amor que Deus nos deu, afinal, “quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor” (1Jo 4.8). Paulo afirma em sua carta: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria” (1Co 13.1,2).

    O amor é tudo! Feliz é quem ama! Disse o cantor Ozéias de Paula [2]. É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, cantou Renato Russo [3].  Seja norte ou sul, céu ou  terra, o amor permanece perfeito, belo, humilde e necessário. O amor de Deus é altruísta, capaz de entregar o bem mais precioso pela vida de outrem, e foi exatamente isso que ele fez há aproximadamente 2.000 anos atrás; “Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu filho unigênito para que todo aquele que nele crer não pereça, mas tenha vida eterna” (Jo 3.16). Este mesmo Deus deixou um mandamento de amor para a coroa da sua criação, a saber: “amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo” (Lc 10.27). Com isto, concluo que pelo amor, Deus criou tudo perfeito para sua glória e nosso deleite, mas, nas palavras de Brown, o homem nos deu “outras” coisas.


    DAQUILO QUE O HOMEM DEU

    O homem me deu a favela. De 2015 a 2021, eu tive o privilégio de trabalhar na segurança patrimonial do aeroporto de Vitória/ES. Do pátio de manobras de aeronaves eu admirava uma paisagem que me trazia profunda reflexão. No lado esquerdo da paisagem havia um conglomerado de prédios que agregam bairros como Jardim Camburi, Praia do Canto, Jardim da Penha e praia Camburi; todos equipados com infraestrutura impecável. Do lado direito da paisagem, havia um outro conglomerado, porém, de morros que abrigam bairros de periféricos como São Benedito, Bairro da Penha, Bonfim, Consolação, Floresta e etc. Todos de infraestrutura precária. Era impressionante ver com os meus próprios olhos, todos os dias, durante seis anos, que numa mesma cidade que carrega “vitória” em seu nome  existem dois povos distintos, dois grupos com contextos completamente diferentes. A criança da favela, como eu fui, vive num modo específico de vida que as pequeninas de bairro nobre desconhecem. Ver políciais prendendo seus conhecidos de tempos em tempos é algo absolutamente normal para a criança periférica; ela também aprende que deve sair de casa com o documento no bolso para que facilite o trabalho da polícia caso seja abordada numa “batida” a caminho da padaria. Ouvir tiros, fogos dia e noite tornou-se algo comum; assim como era corriqueiro assistir a cena de uma concentração de pessoas do bairro em volta de um corpo ensanguentado no chão da rua. Isso acontecia porque periodicamente recebíamos a notícia: “mataram alguém ali na rua de baixo!”. Os moradores geralmente iam conferir se era um parente ou conhecido. Hoje a fatalidade permanece a mesma, porém, sabemos quem é “a bola da vez” através  das redes sociais. Tais características periféricas são amplamente desconhecidas da civilizada e refinada parte esquerda da paisagem. As crianças dessa parte da cidade estão sendo bem preparadas em seus sofisticados colégios particulares, cursos de inglês com intercâmbio, Ifood, Mclanche Feliz, passeios e viagens; rotina totalmente desconhecida dos pequenos periféricos. Toda essa comparação é para acentuar as características do ambiente chamado de favela, moradia que o homem nos deu, símbolo da desigualdade social urbana, “terra onde os meninos viram homem mais cedo”, disse um MC [4].

    O Crack. Atinge os ricos, mas, principalmente a periferia. Milhares de famílias sofrem com a presença de um parente viciado nesta droga. O dependente faz de tudo para saciar seu desejo de usá-la, neste caso, cabe a afirmativa de Edi Rock: “do que o ser humano é capaz, você não acredita” [5].

    A trairagem. O inimigo oculto é mais perigoso do que o anunciado. A trairagem sempre vem de uma pessoa que você não espera, alguém que você conta como um dos teus; caso contrário, seria apenas um ataque inimigo. Numa guerra podemos ser atingidos de pelo menos três formas diferentes: pelo inimigo (diretamente), ser atingido por um ataque a esmo ou ser atacado por um aliado. De todos os ataques possíveis, sem dúvida, o mais dolorido para o corpo e  alma é o fogo amigo; essa espécie de ataque atinge profundamente as duas dimensões de nosso ser. Há muito tempo atrás, Davi, rei de Israel, experimentou essa dor quando registrou o Salmo 55.12-14 declarando: “Não é meu inimigo que me insulta; se fosse eu poderia suportar. Não são meus adversários que se levantam contra mim; deles eu poderia me esconder. Antes, é você, meu igual, meu companheiro e amigo chegado. Como era agradável a comunhão que desfrutávamos quando acompanhávamos a multidão à casa de Deus”. Até o homem mais importante que já pisou nesta terra desde sua fundação, também sofreu com o que a faixa chama vulgarmente de trairagem. Jesus Cristo aos trinta anos de idade iniciou seu ministério evangelístico, selecionando doze discípulos que após sua morte se tornaram apóstolos. O sucesso de Jesus fez com que os líderes religiosos de Israel tornassem teus vitais inimigos, tais homens procuraram matá-lo por diversas vezes, até que num dia fatídico, seu discípulo e tesoureiro, Judas Iscariotes, o vendeu para seus algozes por apenas 30 moedas de prata. Ao ter sua oração no Getsêmani interrompida abruptamente pelos soldados e sacerdotes que vieram prendê-lo, Jesus avista seu amigo entre seus inimigos: “E o que o traía tinha-lhes dado um sinal, dizendo: O que eu beijar é esse; prendei-o. E logo, aproximando-se de Jesus, disse: Eu te saúdo, Rabi; e beijou-o. Jesus, porém, lhe disse: Amigo, a que vieste? Então, aproximando-se eles, lançaram mão de Jesus, e o prenderam.” (Mt 26.48-50). Após isto, você certamente conhece a história. Podemos concluir que nem Jesus, Davi, Brown, eu e você estamos livres e seguros da trairagem que, como diz a introdução, “o mundo nos deu”, não Deus.

    As armas. Yin e Yang, segundo a filosofia chinesa, é o símbolo de duas energias opostas e complementares. De acordo com a introdução, as armas também nos são oferecidas pelo homem, e semelhante ao Yin e Yang, nelas há uma dualidade entre bem e mal. Trocando em miúdos, elas podem servir tanto para o bem (defender-se de uma injusta agressão) quanto para o mal, porém, em ambos os lados, seus usuários precisam recorrer à violência para atingir o fim desejado. Até nos tempos mais remotos do Brasil, quando essa terra fértil era chamada de Abia Yala, o mesmo arco e flecha que era usado para caçar o alimento da família também era utilizado para assassinar índios de tribos rivais em eventuais guerras. Continuo acreditando que elas podem ser usadas tanto para o bem quanto para o mal, porém, num mundo pós-iluminismo onde tudo (ou quase tudo) é relativo, resta-nos definir em particular interpretação aquilo que é bom e o que é mau, por exemplo, no inferno de Brown (periferia), muitos favelados portam suas armas seguindo avante em aventuras de um verdadeiro Grand Theft Auto Brazil, assaltando e cometendo latrocínio procurando saciar o desejo incontrolável da vaidade hedonista pensando estarem fazendo o bem; e isso não é apenas na visão própria dos sujeitos, mas também no conceito de alguns psicopatas de palanque canhoto-político com diploma acadêmico. A verdade é que não há verdade absoluta num mundo prostrado aos pés do relativismo moral, mesmo sabendo os honestos que tal sentença já se constitui naturalmente uma verdade quando proferida por seus defensores. Seja qual fors sua opinião, fato é que o bem e o mal existem e as armas também; como reza a introdução,  “o homem nos deu”, não Deus.

    As bebidas. De acordo com o Instituto Nacional do Câncer, a ingestão de bebidas alcoólicas é um fator de risco gravíssimo para o surgimento de vários tipos de doenças. Quanto maior é o tempo de consumo, mais chances o indivíduo tem de sofrer com câncer de boca, laringe, estômago, dentre outros. A bebida gera lesões no fígado e afeta o cérebro, além da mudança de comportamento [6]. Grande parte da população brasileira já sofreu ou tem conhecimento de pessoas que têm ou tiveram alguma experiência frustrante com o álcool agindo no seio da família. Brigas, abusos, separações, mágoas, assassinato, acidentes e etc. Mesmo diante desse cenário, vemos que é difícil resistir ao apelo midiático pró-álcool. Isso porque depois dos famosos e banidos comerciais de cigarros, os comerciais de cerveja são os mais populares e divertidos nos meios de mídia existentes. Um estudo realizado pela pediatria do Hospital Universitário da USP apontou que 60% dos adolescentes, na faixa dos 17 anos, já faz uso de bebidas alcoólicas. De acordo com a pesquisa, o consumo começa por volta dos 10 anos [7]. Outra informação importante foi divulgada pela Organização Mundial da Saúde: mais de 320 mil pessoas entre 15 e 29 anos morrem ao redor do mundo, anualmente, de causas relacionadas ao consumo de álcool [8].  A Palavra de Deus nos adverte que “o vinho é zombador e a bebida fermentada provoca brigas; não é sábio deixar-se dominar por eles” (Pv 20.1). Em outra passagem, o apóstolo Paulo adverte: “e não vos embriagueis com vinho em que há dissolução, mas, enchei-vos do Espírito.” (Ef 5.18). Se embriagar-se com vinho causa tanta destruição para humanidade anualmente, imagine como seria se ao invés disso todos fossem cheios do Espírito Santo? É o desejo de Deus!

    Mas, voltando à realidade, conforme disse Brown, o homem nos deu a bebida, produto da metáfora da vinha de Noé. Segundo a lenda contida no Midrash dos judeus, Noé plantou uma vinha e o diabo teria se aproveitado da situação matando quatro animais, um cordeiro, um leão, um porco e um macaco, derramando o sangue deles nas raízes da vinha. O efeito do álcool no nosso cérebro seria, segundo o Midrash, resultado disso. Um pouco de vinho nos deixa como um cordeiro: mais inocentes, mais dóceis, mais amistosos. Ao bebermos um pouco mais, nos sentimos fortes como um leão, mais audaciosos e orgulhosos. Se formos um pouco mais além da conta, agimos como porcos, rolando no chão. O exagero, em compensação, faz com que nos comportemos como macacos fazendo todo tipo macaquices sem nenhum juízo.

    As prostitutas. Nas palavras de Edi Rock: “qual é a fita, a treta, a cena? A gente reza, foge e continua sempre com os mesmos problemas. Mulher e dinheiro tá sempre envolvido, vaidade ambição, munição pra criar inimigo” [9]. “Mulher e dinheiro, dinheiro e mulher, quanto mais você tem, muito mais você quer”, diz Ice Blue em Estilo Cachorro.  

    Se Jesus Cristo considerou o dinheiro um deus (Mamom), com certeza as prostitutas são suas sacerdotisas sacras. Homens notáveis, ricos e poderosos caíram em desgraça por entregarem-se de corpo e alma no altar da idolatria sexual. No livro de Números encontramos a história de que certa vez, numa campanha pela terra prometida (Canaã), o exército israelita encontrava-se acampado nas campinas de Moabe, além do Jordão, na altura de Jericó. Um homem chamado Balaque, rei dos Moabitas, com medo de ser destruído pelos israelitas, contratou um profeta chamado Balaão para amaldiçoar o povo de Israel a fim de que eles perdessem a benção de Deus sobre suas vidas e consequentemente as batalhas. Por três vezes Balaão tentou amaldiçoar Israel, porém de sua boca apenas saiam palavras de benção.  Vendo que era impossível amaldiçoar aquele povo, Balaão aconselhou Balaque a seduzir aqueles homens com mulheres sensuais e promíscuas; tiro certeiro que fez com que 24 mil soldados israelitas morressem de praga por terem se entregado no altar da idolatria sexual virando as costas para Deus (Nm 22-24). Mais de três mil anos se passaram e o cenário concernente a isto continua o mesmo, quem não conhece algum homem ou mulher que perdeu sua vida pelo mesmo motivos sexuais? É importante salientar que o termo original usado na faixa dos Racionais é “puta”, não significando essencialmente a profissional do sexo, mas, um modo antiquado e machista de rotular as mulheres que resolvem se comportar sexualmente como os homens de maneira geral sempre se comportaram: se eu quero, faço, para meu prazer. A palavra “puta” foi substituída por “prostituta” para não escandalizar os leitores de ouvidos sensíveis.


    DAQUILO QUE EU TENHO

    Uma bíblia velha. Dentre tudo aquilo que Deus e o homem o deu, Brown afirma ter em sua posse uma bíblia velha. O que é a bíblia? Segundo o missionário  Eurico Berguistén (1913-1999), Deus ordenou a Moisés: “Escreve isto isto para memória num livro” (Êx 17.14). Essa mesma ordem foi repetida ao longo de 1.600 anos para cerca de 45 homens escolhidos por Deus, e assim surgiu “o livro do Senhor” (Is 34.16), a “Palavra de Deus” (Ef 6.17; Mc 7.13), as “Santas Escrituras” (Rm 1.2), que nós chamamos de bíblia [10]. Brown chama sua bíblia de velha pelo estado ou talvez, pelo tempo de aquisição, sobre isso, acertadamente Billy Graham afirma que a bíblia é mais atual do que o jornal de amanhã; D. L. Moody complementa dizendo que as Escrituras não foram dadas para aumentar nosso conhecimento, mas para mudar nossa vida; e Charles Spurgeon finaliza dizendo que a bíblia que cai em pedaços é de alguém que está inteiro. Nem tudo o que é novo é bom, há coisas que são como o vinho, quanto mais antigo, melhor. Sobre isto, a bíblia mostra sua utilidade em trazer paz e esperança para nossas vidas, ainda que seus escritos sejam milenares. A vida é efêmera diante da Palavra de Deus, seja o  livro velho ou não; o apóstolo Pedro registrou em sua carta: “Porque Toda a carne é como a erva, E toda a glória do homem como a flor da erva. Secou-se a erva, e caiu a sua flor; Mas a palavra do Senhor permanece para sempre. E esta é a palavra que entre vós foi evangelizada.” (1Pe 1.25,26).  Jesus Cristo também deixou bem claro que até mesmo os céus e a terra são perecíveis diante da eterna Palavra de Deus: “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar.” (Mt 24.35). Uma bíblia velha em mãos dispostas e humildes pode revolucionar o mundo inteiro com a chama da sua verdade eterna.

    Uma pistola automática. De modo figurado, a Palavra de Deus é chamada de espada e escudo na bíblia, pois ela serve tanto para atacar quanto para se defender. Fato é que as armas e armaduras vindas de Deus são espirituais, “porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais” (Ef 6.12). Uma pistola automática assim como qualquer outra arma de fogo também pode ser usada tanto para atacar quanto para se defender, porém, ela jamais terá utilidade para salvar a alma de um pecador. Ela também é inútil na batalha contra os principados, potestades e contra o príncipe das trevas nos lugares celestiais. Contudo, Brown não estava vivendo especificamente nos lugares celestiais, na verdade, ele e seus pares estavam tentando “sobreviver no inferno”, sejam seus métodos de sobrevivência moralmente corretos ou não.

    Um sentimento de revolta. A terceira faixa do álbum Sobrevivendo no Inferno (1997) nos faz entender um pouco sobre a origem deste sentimento de revolta quando afirma que 60% do jovens de periferia sem antecedentes criminais já sofreram violência policial; a cada quatro pessoas mortas pela polícia três são negras; nas universidades brasileiras apenas 2% dos alunos são negros; a cada quatro horas um jovem negro morre violentamente em São Paulo; aqui quem fala é Primo Preto mais um sobrevivente (trecho da faixa Capítulo 4, Versículo 3 de Sobrevivendo no Inferno).

    No livro Sobrevivendo no Inferno editado pela Companhia das Letras (2018) encontramos um fragmento do contexto no qual este sentimento de revolta se nutria: “Em 2 de outubro de 1992, São Paulo foi palco daquela que é considerada a mais violenta e brutal ação da história do sistema prisional brasileiro: o massacre do Carandiru, intervenção assassina da Polícia Militar do Estado de São Paulo que resultou na morte de pelo menos 111 detentos, a maioria composta de réus primarios, sem nenhuma chance de defesa. Exterminio puro e simples que até hoje não foi reconhecido pelo Estado quanto tal – documentos oficiais tratam o episódio como “rebelião” ou “motim” do pavilhão 9. Num intervalo de poucos meses, o país foi palco de outros dois massacres que chocaram o mundo. Em 23 de julho de 1993, quatro policiais militares dispararam contra cerca de cinquenta crianças e adolescentes em situação de rua que dormiam nas escadarias da igreja da Candelária, no Rio de Janeiro , deixando oito mortos e dezenas de feridos, num episódio que ficou conhecido como chacina da Candelária (…)”. A violência, o preconceito, a desigualdade social, o racismo dentre outras coisas injustas que a população periférica dos Brasil sofrem foi pivô deste sentimento de revolta.


    DA CONDIÇÃO

    Eu estou tentando sobreviver no inferno. Sem muitas apresentações do inferno de Brown, o primeiro trecho da música “Minha Oração” do cantor de rap gospel, Pregador Luo, descreve de modo sucinto e condensado o inferno que milhares de brasileiros vivem até hoje:

    “Uma boca em cada esquina, homens bêbados no bar

    Periferia é assim em qualquer quebrada que se vá

    Cenas, ruídos, sons bem conhecidos

    Por todos que as habitam podem ser ouvidos

    A noite é sinônimo de sigilo

    Guarde segredo de tudo que você vê ou pode levar um tiro

    Carros sendo desmanchados ou por pó trocados

    Corpo baleado, de bruço no asfalto gelado

    Sangue espalhado pra tudo que é lado

    Noiado, caloteiro, traficante, dedo mole não perdoa

    O gueto é assim, quem não é cabelo avoa

    Morte à toa, o grito ecoa, errou na escolha

    Partiu mais cedo, podia tá na boa

    Tem muito pai morrendo sem ver seu filho crescer

    Pra muitos por aqui não haverá amanhecer

    Mas eu continuo orando pela salvação dos meus manos”

    O cenário de Sobrevivendo no inferno é da década de 90, mas a triste realidade permanece, milhares de sobreviventes continuam na batalha pela vida.


    CONSIDERAÇÕES FINAIS E VERDADES FUNDAMENTAIS

    O álbum Sobrevivendo no Inferno certamente foi um marco na história do rap nacional, milhares de homens e mulheres de todas idades se identificaram com a realidade narrada pelos quatro jovens de São Paulo. Todos procuravam um lugar ao sol, assim como tentavam encontrar a fórmula mágica da paz. Com seu conhecimento empírico na maioria dos casos, os quatro jovens narraram aquilo que viam e viviam no inferno periférico. Em suas entrevistas, confessam ter errado em sentenças, letras e em muitas atitudes pessoais assim como todo ser humano. Entre erros e acertos, fato é que são um sucesso até hoje.

    Por diversos motivos, a cosmovisão e o estilo de vida dos Racionais Mc’s não é um modelo cristão a ser seguido, por isso, ao invés de finalizar com possíveis verdades desses quatro jovens sensacionais, concluo apresentando sete verdades bíblicas fundamentais:

    1. Tudo que Deus faz é justo, santo e bom. (Dt 32.4; Sl 33.5)

    2. Tudo que o homem faz, bem ou mal, está manchado pelo pecado. (Gn 8.21; Rm 3.10-18)

    3. A maldade que existe em nosso mundo é por causa do pecado. (Rm 6.23)

    4. Não existe “fórmula mágica da paz”, apenas Jesus Cristo pode proporcionar ao homem a verdadeira paz e seu sangue vertido é o único meio de salvação do pecador. (Rm 4.8)

    5. Apesar de vivermos em um mundo cheio de violência, injustiças e desigualdade, aqui não é o inferno. Tal lugar existe e sua condição é eterna, ele foi inicialmente preparado para Satanás e seus anjos. (Lc 16.19-31; Mt 25.41)

    6. Nenhuma ideologia política pode trazer plena paz para a humanidade, isso acontecerá quando Jesus Cristo retornar em sua segunda vinda para estabelecer seu reino eterno. (Is 65.19-25)

    7. A verdade existe, é divina e absoluta. (Jo 14.6)

    Que Deus abençoe a todos os sobreviventes do nosso Brasil.




    REFERÊNCIAS

    [1] Estilo Cachorro, álbum: Nada como um dia após o outro dia, Racionais MC’s.

    [2] O Amor é Tudo, álbum: O amor é tudo, Ozéias de Paula

    [3] Pais e Filhos, álbum: As Quatro Estações, Legião Urbana.

    [4] Triunfo, álbum: Para quem já mordeu um cachorro por comida, até que eu cheguei longe, Emicida.

    [5] Expresso da Meia-Noite, álbum: Nada como um Dia após o Outro Dia, Racionais MC’s

    [6] https://www.inca.gov.br/causas-e-prevencao/prevencao-e-fatores-de-risco/bebidas-alcoolicas < Acesso em 07/06/2022 >

    [7] https://newslab.com.br/alcoolismo-estudo-mostra-que-60-dos-adolescentes-na-faixa-dos-17-anos-ja-consomem-alcool/#:~:text=Um%20estudo%20realizado%20pela%20Pediatria,uso%20ultrapassa%20uma%20dose%20di%C3%A1ria. < Acesso em 07/06/2022 >

    [8] https://www.alcoolparamenoreseproibido.sp.gov.br/males-do-alcool/#:~:text=O%20uso%20abusivo%20do%20%C3%A1lcool,relacionadas%20ao%20consumo%20do%20%C3%A1lcool. < Acesso em 07/06/2022 >

    [9] A vida é um desafio, álbum: Nada como um Dia após o Outro Dia, Racionais Mc’s.

    [10] Bergstén; Eurico, Teologia Sistemática, editora CPAD,  RJ. 1999: p.10.

  • OS PROFETAS DA VAIDADE


    Um culto pentecostal está acontecendo, louvores são entoados, a mensagem é pregada, e um “profeta” se dirige a uma mulher que está chorando copiosamente e entrega a seguinte profecia: “Deus está mandando eu te dizer que seu casamento não tem mais jeito! Ele está preparando algo melhor para você”. Ainda chorosa, a mulher recebe a mensagem, volta para casa, e só Deus sabe o desfecho desta história.

    O relato acima não é uma história inventada. Trata-se de um relato real contado pelo próprio “profeta”, destacando como o culto de domingo foi abençoado em sua congregação. Perplexo, perguntei-lhe se conhecia aquela mulher, qual era o tipo de relacionamento abusivo que ela estava sofrendo com o marido, se ele a agredia fisicamente ou se a traía com outras mulheres. O “profeta”, presbítero, afirmou que a conhecia, e que o marido não batia nela, também afirmou que não havia conhecimento de adultério, mas que o problema residia no fato de que os dois eram incompatíveis, estavam cansados do casamento, não se entendiam e etc.

    Eu não sei que deus falou pela boca deste presbítero, mas posso afirmar que não foi o Deus de Israel! O Deus da Bíblia nos ensina que o casamento é para sempre (Mt 19.6), sendo permitido o divórcio apenas em três ocasiões: morte (Rm 7.2), adultério (Mt 19.9) e abandono da parte descrente (1Co 7.15). Alguns irmãos discordam das duas últimas permissões bíblicas para o divórcio, mas o fato é que de um jeito ou de outro a posição divina é clara: Deus odeia o divórcio! (Ml 2.16)

    O teste da Palavra de Deus reprovou a profecia deste presbítero, deixando claro que ele é um profeta da vaidade. É uma pena constatar que homens e mulheres de Deus têm se deixado levar pelo desejo de estar em evidência numa congregação. O desejo de se mostrarem “cheios de poder” os faz se comportar de forma vergonhosa, como no exemplo acima. Seja pelo sucesso ou pelo status de “super-crentes”, tais pessoas acabam saindo do centro da vontade de Deus e se colocam numa posição de inimigos do Senhor. A internet também está cheia de profetas da vaidade. A cada dia surge uma nova “profecia” na internet que deixa os menos íntimos da Palavra desesperados, ansiosos e até depressivos.

    Há um autointitulado “profeta” famoso no Brasil que, em um de seus cultos transmitidos pela TV, profetizou para uma mãe que estava com seu filho acometido de câncer que ele estava sendo curado ali e que Deus estava mandando dizer que aquele jovem teria um futuro brilhante como jogador de futebol. Meses depois, aquele jovem morreu e a profecia não foi cumprida, deixando claro que o tempo é um dos maiores inimigos de um falso profeta (Dt 18.20-22). Esses tipos de profecias são fruto de uma mente fértil ou simplesmente maldosa, que não passam na peneira da Bíblia Sagrada. O livro de Ezequiel nos mostra como é a indignação de Deus com relação a tais profetas que não veem nem ouvem nada, e mesmo assim saem distribuindo profecias e revelações sem pé nem cabeça entre as congregações e pela internet:

    “Assim diz o Senhor DEUS: Ai dos profetas loucos, que seguem o seu próprio espírito e que nada viram!” – Ezequiel 13.3 

    “Viram vaidade e adivinhação mentirosa os que dizem: O SENHOR disse; quando o SENHOR não os enviou; e fazem que se espere o cumprimento da palavra. Porventura não tivestes visão de vaidade, e não falastes adivinhação mentirosa, quando dissestes: O SENHOR diz, sendo que eu tal não falei? Portanto assim diz o Senhor DEUS: Como tendes falado vaidade, e visto a mentira, portanto eis que eu sou contra vós, diz o Senhor DEUS.” – Ezequiel 13.6-8

    Não deixe que a tentação do status de evidência faça você se tornar uma pessoa mentirosa que transmite profecias, revelações e sonhos inventados em nome do Senhor. Deus não se agrada de tal soberba e presunção! Além disso, entregar uma profecia falsa para alguém gera uma expectativa de cumprimento em quem a recebe, e todos nós sabemos que tais coisas não irão se cumprir, certo? Ao esperar aquilo que não virá, a pessoa passa do estado de uma alma esperançosa e cheia de fé para o estado de uma alma frustrada com Deus. Tudo isso por causa de um ou uma profeta que, por pura soberba e vaidade, inventou revelações e profecias de sua própria mente para se exibir como uma pessoa cheia do poder de Deus diante da congregação. Será que o gostinho de ser admirado por alguém vale uma alma frustrada com Deus? É claro que não!

    Os tempos são trabalhosos! Há muitos amantes de si mesmos com aparência de piedade em busca de prestígio e status vãos, capazes até de inventar profecias e revelações. Sobre isso, registra o apóstolo Paulo:

    “E até importa que haja entre vós heresias, para que os que são sinceros se manifestem entre vós.” – 1ª Coríntios 11.19

    Que Deus tenha misericórdia desses falsos profetas, e que eles encontrem o caminho da verdade para que suas almas sejam salvas no último dia. Amém.

    Este texto foi publicado originalmente em juliocelestino.com em 10 de abril de 2020

  • BELAS MALDIÇÕES

    A série “Good Omens” (Belas Maldições) é uma produção original da Amazon, concorrente da Netflix, baseada no livro homônimo de Terry Pratchett e Neil Gaiman, publicado em 1990 no Reino Unido. A história é apocalíptica: um anjo chamado Aziraphale e um demônio chamado Crowley decidem unir forças para impedir o Armagedom e o fim do mundo.

    O que torna a narrativa fascinante é que esses dois seres se conhecem desde o Éden, tendo presenciado a queda da humanidade com Adão e Eva. Eles também estiveram presentes em momentos históricos, como as guerras medievais e a Revolução Francesa. Aziraphale trabalha para o céu e Crowley para o inferno, mas ambos se apegam aos prazeres da vida: Aziraphale ama sua livraria e a boa comida; Crowley aprecia música, seu carro e o conforto terrestre. Mesmo pertencendo a lados opostos, a atração pelo mundo os une em um objetivo comum: evitar que o Anticristo e os Quatro Cavaleiros do Apocalipse iniciem a batalha final.

    Essa história, ao mesmo tempo engraçada e confusa, leva a uma reflexão prática: até mesmo seres espirituais, cientes da transitoriedade da vida na Terra, se acostumaram e se apegaram a este mundo. Assim como Aziraphale e Crowley, muitos cristãos têm receio do arrebatamento e da consumação dos séculos, mantendo o coração ligado aos prazeres terrenos.

    O saudoso Dave Hunt relatou uma história emblemática: um pastor perguntou à congregação quem desejava ir para o céu. Todos levantaram as mãos, exceto um jovem. Ao ser questionado, ele respondeu:

    “Claro que quero ir para o céu!”

    O pastor então perguntou:

    “Então por que não levantou a mão?”

    E o jovem disse:

    “Pensei que a pergunta fosse sobre quem queria ir para o céu agora.”

    Isso revela o quanto nos apegamos às coisas temporais, muitas vezes temendo a consumação dos séculos.

    A Bíblia, porém, nos ensina a amar a vinda de Cristo e a esperar pelo arrebatamento com alegria. Em Romanos 8.19-26, aprendemos que toda a criação anseia pela manifestação do Filho de Deus, e nós, filhos da luz, devemos aguardar com esperança a transformação de nosso corpo corruptível em incorruptibilidade (1Co 15.53).

    No céu, estaremos livres de dor e morte. Não haverá mais lágrimas, nem pranto, nem clamor (Ap 21.4). Encontraremos os amigos que, em Cristo, se tornaram irmãos e viveremos na luz eterna, sem necessidade de sol ou lua, pois a glória de Deus iluminará a Santa Cidade (Ap 22.5). Jesus nos lembra:

    “Bem-aventurado aquele que guarda as palavras da profecia deste livro” (Ap 22.7).

    A segunda vinda de Cristo e o arrebatamento não são motivos para medo, mas para consolo e esperança. Paulo, em 1Ts 4.13-18, descreve que seremos transformados num piscar de olhos e levados pelo Espírito Santo para encontrar nosso Salvador. O versículo 18 nos exorta:

    “Portanto, consolai-vos uns aos outros com estas palavras.”

    O mundo oferece muitas coisas, até lícitas, mas nem todas são convenientes. Não podemos trocar uma eternidade de alegria pelos prazeres passageiros do mundo. Devemos viver com temor de sermos deixados para trás e afirmar com fé:

    “Maranata! Ora vem, Senhor Jesus!” (1Co 16.22)



    Este texto foi publicado originalmente em juliocelestino.com em 31 de março de 2020

  • CONFISSÕES DE UM CRISTÃO QUE NÃO LÊ A BÍBLIA


    Às vezes sou confrontado ao ouvir pregações que exaltam a Palavra de Deus, justamente por exortar o cristão a ser um leitor assíduo da Bíblia. Meu professor da Escola Bíblica Dominical, por exemplo, me pergunta frequentemente por que não leio a Bíblia. Vários irmãos me fazem a mesma pergunta, uma vez que canto todos os domingos, com lágrimas nos olhos, que amo Deus e Sua Palavra. E sempre respondo a mesma coisa: não tenho tempo! Acredite, é sério.

    Não tenho tempo para ler a Palavra de Deus, mas já assisti a todos os melhores filmes e seriados da Netflix. Aliás, que demora para sair episódios novos, hein?

    Não tenho tempo para ler a Bíblia, mas posso atualizar qualquer um sobre o que está acontecendo na novela das nove, pois não perco um capítulo sequer. Afinal, quem matou o mocinho? Estou ansioso para descobrir!

    Não tenho tempo para ler a Palavra de Deus, mas se você entrar no meu jogo online favorito, verá que meu personagem é o melhor da guilda. Consegui os melhores equipamentos e passei horas para isso.

    Não tenho tempo para a Bíblia, mas não perco um jogo do meu time de futebol. Sei os nomes de todos os jogadores e suas posições. Depois do jogo, nada me diverte mais do que compartilhar memes engraçados com os torcedores do time perdedor. Sim, isso toma horas da minha vida, mas, ao ver a reação deles, sinto que valeu a pena (risos).

    Não tenho tempo para a Palavra de Deus, mas a pelada de quarta-feira é sagrada.

    Não tenho tempo para meditar na Bíblia, mas sigo aquela youtuber famosa que ensina dicas de maquiagem e looks para todas as estações do ano. Ela é engraçada e elegante, e ainda publica vídeos novos diariamente. Opa! Acabou de sair mais um!

    Não tenho tempo para ler a Bíblia, mas passo horas nas redes sociais: Facebook, Instagram, Twitter e WhatsApp. Alguns dizem que é por curiosidade sobre a vida alheia, mas, na verdade, quero saber das novidades da rede e conferir os trending topics da semana. E, claro, adoro vídeos engraçados — já viu o gato tocando piano? É hilário!

    Refletindo com sinceridade, percebi que meu problema não é falta de tempo, mas de prioridade. Prioritizo todas essas coisas acima, menos a Palavra de Deus. Você pode se perguntar: “Então por que não diz logo a verdade?” A resposta é óbvia: sou cristão e preciso manter uma reputação piedosa. É mais fácil dizer que não tenho tempo do que admitir que não tenho interesse na Bíblia.

    Em resumo, eu teria mais coisas a declarar, mas… o segundo tempo do jogo já vai começar.


    Este texto foi publicado originalmente em juliocelestino.com em 16 de outubro de 2019

  • CUIDADO! VOCÊ NÃO PODE ERRAR

    UM FACHO DE LUZ NA MÚSICA SECULAR


    Você já parou para pensar que até mesmo a música secular pode conter um facho de luz? Ainda que o objetivo principal da letra não seja glorificar a Deus, algumas canções podem trazer pequenas lições que fazem o ouvinte refletir sobre dificuldades da vida.

    “Examinai tudo. Retende o bem.” – Apóstolo Paulo

    Certo homem de periferia vivia com prudência e conquistara o respeito daqueles ao seu redor. Jogava bola com os amigos, tinha uma namorada e se vestia com cuidado dentro do possível. Certo dia, começou a se misturar com rapazes de maior poder aquisitivo e, a partir daí, sua vida mudou completamente. Mergulhou em festas, bebidas e relacionamentos superficiais. No fim, tornou-se um mendigo, perdendo até sua dignidade.

    A música Capítulo 4, Versículo 3, do grupo Racionais MC’s, narra essa história, mostrando a realidade de milhares de brasileiros. Ela alerta para o fato de que jovens das periferias não podem errar demasiadamente nas decisões da vida, sob risco de se perderem. A mensagem é clara: é preciso cuidado com atitudes e escolhas, especialmente quando se parte de uma condição de vulnerabilidade social.

    Quando ouvimos o trecho em que o personagem vivia com prudência, percebemos que ele tinha tudo para uma vida digna. Mas, ao se aproximar dos chamados “branquinhos do shopping” — jovens de maior poder aquisitivo — sua vida desmoronou. Perdeu tudo, chegando ao fundo do poço.

    O que deu errado?

    É preciso refletir sobre a vida dentro e fora da favela, sobre a escassez e a abundância. Jovens sem uma vida cristã tendem a se entregar aos desejos da carne, mas os resultados diferem conforme o contexto social. Quando um “playboy” perde tudo, muitas vezes há suporte familiar: clínicas de reabilitação, cursos, faculdade, casa, comida, roupa lavada, orientação para entrar no mercado de trabalho. Já um jovem carente, ao errar, não encontra ninguém para ampará-lo. Para ele, o caminho para a ostentação muitas vezes passa pelo crime.

    O caminho da prosperidade é possível, mas exige trabalho, dedicação, renúncia e paciência. Esta é a porta estreita da vida, enquanto o crime é uma porta larga e confortável que conduz à perdição.

    A desigualdade social é dura e não podemos mudá-la individualmente. Jesus mesmo disse que, nesta era, os pobres sempre existiriam (Jo 12.8). Contudo, decisões sábias podem amenizar os riscos da vida. O mundo oferece muitas tentações, mas não vale trocar a eternidade de alegria pela efêmera prosperidade que ele proporciona. A verdadeira prosperidade e paz plena acontecerão quando Cristo descer do céu com sua igreja glorificada para estabelecer seu Reino milenar (Ap 20.4-6). Até lá, é preciso vigilância e prudência.

    Talvez você pense que tudo está perdido e considere se entregar a este mundo de ilusões. Quero lhe dizer que existe um Deus que te ama e deseja o teu bem. Mas é necessário esforço da sua parte: resista ao dia mal, trabalhe com honestidade, entregue seus caminhos ao Senhor e confie que Ele cuidará de você.

    Não podemos abrir brechas para Satanás agir em nossas vidas por meio da mídia corrompida, outdoors ou mensagens enganosas. Ele age como um leão, procurando a quem devorar.

    A música citada, embora secular, se dirige à população periférica e ensina uma lição importante: a vida exige cuidado redobrado quando se parte da escassez. Se o único copo de água está em suas mãos, é preciso andar com prudência pelo deserto para não tropeçar.

    Nota: A canção comentada é um rap nacional e, como tal, tem suas peculiaridades. Caso você seja sensível a esse tipo de conteúdo, não é necessário ouvi-la. O que importa nesta reflexão é o princípio presente no que podemos chamar de “facho de luz” da mensagem, mesmo em um contexto improvável.



    Este texto foi publicado originalmente em juliocelestino.com em 17 de maio de 2019

  • A TRISTE ALEGRIA DE PECAR

    “Nada é errado se te faz feliz”

    Algumas páginas da internet atribuem a autoria dessa frase ao ilustre Bob Marley, que no passado protagonizou uma carreira artística de enorme sucesso. O fato é que a alegria proveniente do pecado realmente existe e é prazerosa para a carne; porém, seu resultado desastroso é tão certo quanto aquela ressaca que desperta com você pela manhã dizendo: “é hora de trabalhar.”

    Nas festas de réveillon do estado do Espírito Santo, por exemplo, é comum ver jovens e adultos reunidos com amigos, festejando e se embriagando pelas ruas ou em eventos particulares. Os momentos — eu sei — são alegres e prazerosos, porque as obras da carne seguem a todo vapor nesses ambientes.

    E o apóstolo Paulo descreve claramente algumas delas em Gálatas 5.19ss:

    Prostituição

    Ato ou efeito de prostituir-se; entregar-se à devassidão; desmoralizar; corromper. [1]

    A prostituição tornou-se uma cultura dominante não apenas no Espírito Santo, mas em todo o Brasil. O famoso “ficar” — relações sexuais sem qualquer compromisso conjugal — é incentivado por músicas de funk, axé, pagode, sertanejo e outros ritmos populares que tocam no rádio para crianças, jovens e adultos.

    Com a tecnologia, tudo isso avançou ainda mais: aplicativos de relacionamento funcionam como verdadeiros “menus” de homens e mulheres. Basta escolher, conversar, encontrar, relacionar-se… e repetir o ciclo no dia seguinte. O velho paradigma da pessoa sexualmente devassa tornou-se obsoleto. A liberdade sexual promovida pela mídia transformou o sexo sem compromisso em uma via de fácil acesso para todos.

    Impureza

    Qualidade do que é impuro; aquilo que perturba a pureza; corrupção sexual. [2]

    Hoje, dizer que o ato sexual é reservado para marido e mulher tornou-se motivo de piada em uma mesa de bar. E afirmar que o sexo foi criado para o prazer mútuo entre homem e mulher, exclusivamente dentro do casamento, pode até ser considerado um “crime” (homofobia), segundo a visão distorcida da pós-modernidade.

    Casas de swing expõem a impureza conjugal às claras, com casais trocando parceiros como quem troca figurinhas.

    Além disso, a crescente pluralidade de identidades sexuais — crossdresser, drag queen, drag king, pansexual, transexual e tantas outras — reforça, de forma meticulosa, o sentido bíblico de impureza: alterar aquilo que Deus estabeleceu. Na sociedade atual, tudo isso é chamado de normal. Tudo é relativo.

    Lascívia

    Conduta vergonhosa, sensualidade, libertinagem, luxúria (Mc 7.22; Gl 5.19). [3]

    Assim como as obras citadas acima, a lascívia governa a nossa sociedade. Basta sair às ruas: o apelo sensual é gritante. Milhões de mulheres — de todas as idades — usam shorts, saias e vestidos curtíssimos, decotes profundos e todo tipo de vestimenta que exalta a sensualidade.

    As justificativas são conhecidas:

    “Uso porque me sinto bem.”
    “Uso porque é confortável.”

    Mas sabemos que, na maioria das vezes, essa não é a real motivação.

    Nas redes sociais, a sensualidade ganhou palco e iluminação. Buscando elogios, prestígio e status, muitas mulheres expõem seus corpos para acumular curtidas e visualizações. Talvez isso fosse apenas um problema moral, se não fosse o fato de muitas dessas mulheres serem menores de idade. Pense nisso.

    O pecado não dói na hora

    A história de Davi, em 2 Samuel 11, exemplifica isso perfeitamente.

    Num dia em que deveria estar em guerra, Davi ficou em casa. Do alto do palácio, viu Bate-Seba tomando banho. Mesmo sabendo que ela era esposa de Urias — seu servo leal — Davi enviou mensageiros, trouxe a mulher e adulterou com ela. Ele a engravidou. E, para encobrir o adultério, planejou a morte de Urias.

    Enquanto estavam juntos na cama, a alegria temporária estava presente. O prazer carnal foi intenso. Mas as consequências foram devastadoras.

    1. Vergonha – Deus revela o pecado

    Não há nada pior para um pecador do que ter seu pecado oculto exposto à luz. A vergonha pública é dolorosa. Deus não permite que pecados escondidos permaneçam ocultos para sempre.

    Davi também experimentou vergonha quando soube que seu filho Absalão se deitava com suas mulheres diante de todo o povo (2Sm 16.21–22).

    2. Desordem familiar — um abismo chama outro abismo

    A família de Davi mergulhou em tribulações:

    • seu filho com Bate-Seba morreu (2Sm 12.15–23);
    • Amnom violentou sua irmã Tamar (2Sm 13.1–14);
    • Absalão matou Amnom para vingar Tamar (2Sm 13.23–29).

    Como bem disse o comentarista:

    “Quando não vivemos uma vida digna do Deus a quem servimos, a primeira atingida é a nossa família… Seremos para nossos filhos exemplos para o bem ou para o mal.” [4]


    As consequências do prazer pecaminoso

    Uma pessoa não guiada pelo Espírito Santo é facilmente arrastada pelas obras da carne. As características deste fruto são:

    1. Casamentos desfeitos
    2. Famílias destruídas
    3. Adultério
    4. Suicídio
    5. Depressão
    6. Gravidez indesejada
    7. Homicídios
    8. Doenças sexualmente transmissíveis
    9. Traumas emocionais
    10. Morte espiritual


    Toda alegria do pecado termina em dor, vergonha e destruição.

    Por isso, clamo a Deus por um avivamento pessoal no Espírito Santo — começando por mim. Se eu realmente tivesse o “livre-arbítrio” que muitos defendem, eu escolheria jamais pecar e encorajaria meus entes queridos a serem “espertos” como eu. Mas toda honra e toda glória pertencem ao Senhor.

    Que sejamos lavados no sangue de Jesus, perdoados de nossas iniquidades e preservados do dia da ira. Que busquemos ao Senhor enquanto se pode achar e o invoquemos enquanto está perto, pois na sepultura não há esperança para os condenados.

    Uma antiga canção reflete a atual realidade

    “Eu comparo a vida do homem sem Deus
    Como uma folha seca caída no chão.

    Que vai para onde o vento levar,
    Tudo é tristeza, tudo é solidão.

    Seu viver é triste, tão cheio de dor,
    Seus dias turbados, sem consolação.

    Assim é a vida do homem sem Deus,
    É uma folha seca caída no chão.”
    — Jair Pires


    A folha seca é levada pelo vento, sem direção nem destino. Mas o crente em Cristo tem um alvo. E é para Ele que devemos caminhar — só assim encontraremos a plena, verdadeira e desejada felicidade.

    “Prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.”
    (Filipenses 3.14)




    Referências Bibliográficas

    [1] AURÉLIO, Antônio. Novo Dicionário Eletrônico Aurélio. v. 5.0. Windows: editora Aurélio, s.d.

    [2] SILVA, Claudemir Pedroso da. Dicionário e Estudos Bíblico. Vitória: Editora PAE, s.d.

    [3] Ibid.

    [4] IBVIR. As consequências do pecado de Davi. Disponível em: http://www.ibvir.com.br/sermoes/davi_consequencias_do_pecado_de.htm. Acesso em: 22 dez. 2025.

    Este texto foi publicado originalmente em juliocelestino.com em 08 de julho de 2017

  • PALAVRAS TAMBÉM MATAM

    JESUS E O ASSASSÍNIO


    “Aquele que lhe disser: tolo, será réu do fogo do inferno”
    Mateus 5.22


    No dia 20/02/2017, estudávamos o livro de Provérbios em um curso de teologia em uma igreja do bairro Resistência em Vitória/ES, e o tema central da exposição foi Provérbios 1.7, que afirma:

    “O temor do SENHOR é o princípio do conhecimento; os loucos desprezam a sabedoria e a instrução”.


    À primeira vista, surge uma aparente contradição quando comparamos esse texto com a declaração de Jesus em Mateus 5.22:

    “…e aquele que lhe disser: Tolo, será réu do fogo do inferno”.


    Diante disso, surge a dúvida: se uma pessoa chamar alguém de tolo, insensato ou louco, ela perderá a salvação?

    Essa linguagem não aparece apenas em Mateus 5.22, mas em diversas outras passagens do Novo Testamento. A seguir, alguns exemplos — observando que foram utilizados apenas textos em que aparece a palavra grega usada em Mateus 5.22 para “tolo”, a saber, morós ou moré:

    • Mateus 7.26 – “E aquele que ouve estas minhas palavras e não as cumpre compará-lo-ei ao homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia.”
    • Mateus 23.17 – “Insensatos e cegos! Pois qual é maior: o ouro ou o templo que santifica o ouro?”
    • Mateus 25.2 – “Cinco delas eram prudentes, e cinco loucas.”
    • 1 Coríntios 1.27 – “Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias…”
    • 2 Timóteo 2.23 – “E rejeita as questões loucas e sem instrução, sabendo que produzem contendas.”
    • Tito 3.9 – “Mas evita questões loucas, genealogias, contendas e debates acerca da lei…”



    Assassínio – A mensagem de Mateus 5.21–22

    “Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; mas qualquer que matar será réu de juízo.”


    Nesta passagem, Jesus ensina uma lição profunda acerca do sexto mandamento. Ele inicia dizendo “ouviste” porque a maioria das pessoas presentes no Sermão do Monte não sabia ler. Mesmo entre os que sabiam, as Escrituras não eram acessíveis ao povo comum. Assim, o conhecimento bíblico vinha principalmente pela leitura pública nas sinagogas e pela exposição dos escribas.

    Jesus prossegue dizendo:

    “Eu, porém, vos digo que qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão será réu de juízo; e qualquer que disser a seu irmão: Raca, será réu do Sinédrio; e qualquer que lhe disser: Louco, será réu do fogo do inferno.”


    A palavra “Raca” é um termo de desprezo, originado no orgulho. Salomão chama esse tipo de pessoa de zombador:

    “Zombador é o seu nome, o soberbo e presumido” (Pv 21.24).


    Trata-se de alguém que desdenha do irmão, equiparando-o a algo vil, indigno — quase como um cão.

    Já a palavra “louco” (aqui, moré, do grego μωρέ) expressa rancor e ódio. Não descreve apenas alguém comum ou ignorante, mas alguém considerado moralmente reprovável, indigno de amor e de honra — “homem iníquo, réprobo”.

    Matthew Henry observa corretamente que Jesus ensina que o uso de linguagem ultrajante contra o irmão constitui um assassinato pela língua. Quando tais palavras são usadas com moderação e boa intenção — para corrigir, advertir ou expor a vaidade e a tolice — não são pecaminosas. Por isso, Tiago diz:

    “Ó homem vão” (Tg 2.20),
    Paulo afirma:
    “Insensato!” (1Co 15.36),
    e o próprio Cristo declara:
    “Ó néscios e tardos de coração” (Lc 24.25).


    Entretanto, quando essa linguagem nasce da ira interior e da maldade do coração, ela se torna a fumaça do fogo que arde no inferno, enquadrando-se na mesma gravidade moral.

    Em suma, para Jesus, a atitude de ira contra o irmão é um pecado gravíssimo — tão sério que merece o mesmo juízo associado ao assassínio. As palavras amargas são como flechas que ferem mortalmente (Sl 64.3).

    Quem se encoleriza corre o risco do juízo; quem chama o irmão de “Raca” se expõe ao conselho; mas quem o chama de “louco”, no sentido de pessoa profana e condenável, coloca-se em perigo do fogo do inferno — o mesmo destino que deseja ao outro.

    Por isso, diante da ira, o caminho cristão é a reconciliação. O amor e a caridade são o ápice da vida daquele que está em Cristo. Jesus conclui dizendo:

    “Portanto, se trouxeres a tua oferta ao altar, e ali te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão; e depois vem e apresenta a tua oferta.”
    (Mateus 5.23–24)




    Referências bibliográficas (ABNT)

    BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Tradução João Ferreira de Almeida Fiel.
    Disponível em edições impressas diversas.

    STRONG, James. Dicionário Bíblico Strong.
    Rio de Janeiro: CPAD, s.d.

    HENRY, Matthew. Comentário Bíblico Matthew Henry.
    Vol. 1. Rio de Janeiro: CPAD, s.d., p. 52–53.

    CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento Interpretado.
    Vol. 1. São Paulo: Hagnos, s.d., p. 310–311.



    Este texto foi publicado originalmente em juliocelestino.com em 23 de fevereiro de 2017

  • O QUE ACONTECE APÓS A MORTE?


    Decidi colocar este diagrama em pauta por causa de um problema que vem crescendo entre ouvintes pentecostais e reformados de Vitória/ES, que passaram a acompanhar a rádio Novo Tempo (suspeito que por falta de opção). A emissora, como se sabe, é um órgão da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Diariamente, nesse meio de comunicação, ensina-se que nós somos uma alma e que, quando alguém morre, simplesmente “dorme”, entrando em um estado de inconsciência semelhante ao que existia antes do próprio nascimento.

    Segundo essa doutrina, a pessoa que dorme só despertará quando Jesus voltar. Depois disso, os salvos viverão eternamente, enquanto os condenados sofrerão por um determinado período de tempo (?) e, em seguida, deixarão de existir — desta vez, de forma definitiva e eterna.

    Concordo com a avaliação de R. C. Sproul ao afirmar que a doutrina do sono da alma representa um afastamento do cristianismo histórico e ortodoxo. Embora essa posição ainda exista no meio cristão, ela sempre ocupou um lugar minoritário. A compreensão tradicional da Igreja, desde os primeiros séculos, é conhecida como estado intermediário. Segundo esse entendimento, no momento da morte a alma do crente é imediatamente conduzida à presença de Cristo, onde passa a experimentar uma existência pessoal, contínua e consciente, enquanto aguarda a ressurreição final do corpo.

    Esse ensino não é uma construção tardia, mas uma doutrina bíblica e histórica, sustentada pelos pais da Igreja e reafirmada pelos reformadores do século XVI.



    Este texto foi publicado originalmente em juliocelestino.com em 2 de fevereiro de 2017

  • O Diagnóstico e o Evangelho


    Introdução

    “Veio, porém, a lei para que a ofensa abundasse; mas, onde o pecado abundou, superabundou a graça.”
    Romanos 5.20

    O que pode ser pior do que ir ao médico, fazer alguns exames e receber um diagnóstico trágico?

    Imagine um consultório médico. Nele, há apenas você, o médico e o resultado dos seus exames nas mãos dele. Você está se sentindo bem, saudável, e ansioso para ouvir o médico dizer que está tudo bem, pegar seus exames e voltar tranquilamente aos seus afazeres do cotidiano.

    O médico abre o envelope com os resultados e demonstra espanto. Olha para você com os olhos arregalados e pergunta:

    — Você está vivo?!

    Você, estranhando a pergunta, responde que sim. Então ele explica:

    — Estou dizendo isso porque você está cheio de tumores espalhados pelo corpo! Você está me ouvindo? Há tumores nos seus ouvidos! Você está me enxergando mesmo?! Sua visão também está comprometida! Sua situação é gravíssima!

    Conseguiu imaginar? Quão grande seria o seu desespero?

    Mensagem

    A lei revela o caráter e a vontade de Deus, mas o homem, por si só, não pode cumpri-la, porque foi manchado pelo pecado. Todos nós nascemos filhos de Adão. Por isso, a lei serviu como um termômetro: ela diagnosticou e revelou a doença.

    A humanidade tornou-se doente por causa de Adão e, assim como o termômetro detecta a febre, mas não pode curá-la, a lei revelou o pecado. Ao comparar nossa vida com a lei de Deus, a doença é diagnosticada, mas a lei é incapaz de nos salvar. Por esse motivo, o versículo supracitado é enfático ao dizer que o pecado abundou no mundo.

    No capítulo um de Romanos, Paulo prova que, se os gentios dependerem de seus próprios méritos, receberão a condenação como salário. No capítulo dois, ele mostra que os religiosos legalistas, por suas obras, também merecem a condenação da parte de Deus. E, no capítulo três, Paulo demonstra que até mesmo os judeus, confiando em seus méritos e obras, também merecem seu lugar no lago de fogo, que atormenta dia e noite aqueles que nele são lançados.

    O capítulo três conclui que todos os homens — seja qual for sua religião ou cultura —, se dependerem de suas obras ou da lei para se salvarem, caminharão com os próprios pés rumo ao inferno. Isso faz parte do que chamamos de doutrina da depravação total. Este é o diagnóstico que o médico apresentou a você.

    Se eu lhe entregasse um estojo de lápis de cor para pintar a Bíblia, com que cor você pintaria os três primeiros capítulos de Romanos? Creio que seria uma cor sombria, triste, talvez um cinza.

    Voltando ao texto, agora chegamos à palavra mais bonita, mais alegre e mais esperançosa da passagem:

    “Veio, porém, a lei para que a ofensa abundasse; MAS…”


    Esse “mas” é lindo. Você pode pintá-lo com uma cor viva — quem sabe dourado ou verde. Esse “mas” representa as boas-novas do evangelho de Cristo.

    Para perceber sua importância, voltemos ao consultório médico.
    Imagine que, depois de ouvir tudo aquilo sobre sua saúde, você está desesperado, certo de que vai morrer, quando de repente o médico diz:

    — Seu quadro é gravíssimo, mas…

    Aquele “mas” traria esperança imediata. Você ficaria tão ansioso que, se o médico completasse:

    — Mas vou ali almoçar e depois volto para explicar,
    você certamente diria:

    — Pelo amor de Deus, não vá! O senhor disse “mas”! Existe uma cura para mim? Eu tenho uma chance de viver? Há uma saída?

    “…mas, onde o pecado abundou, superabundou a graça.”


    Existe cura. Existe chance de viver. Há uma saída.
    Jesus é essa graça maravilhosa, esse favor imerecido que desceu da glória para receber sobre si a sentença dos nossos pecados. Essa graça que superabundou é aquela que se fez maldição por nós, derramando seu precioso sangue na cruz do Gólgota para nos salvar do lago de fogo eterno, preparado para Satanás e seus anjos.

    O pecado abundou — isso é uma verdade incontestável, pois o coração do homem é inclinado para o mal desde a sua meninice. Mas o Espírito Santo de Deus tem poder para reverter o quadro do pecador, adotá-lo como filho e fazê-lo herdeiro, com Cristo, das maravilhas celestiais.

    “Deus enviou o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.”


    O texto deixa claro: o pecado foi grande, mas a glória da misericórdia de Deus é maior. E, para nossa alegria, essa graça está disponível a todos.

    Paulo disse que era o pior dos pecadores, mas recebeu a maravilhosa graça da salvação. Você também pode recebê-la. As portas da casa do Pai ainda estão abertas. O Médico dos médicos tem a solução para a doença da alma.

    Venha ser filho de Deus por meio de Jesus, se ainda és filho de Adão. Disse Jesus:

    “Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim, de maneira nenhuma o lançarei fora.”
    João 6.37



    Texto publicado originalmente no blog juliocelestino.com em 31 de maio de 2016

  • DOCES DE COSME E DAMIÃO

    CONVÉM CONSUMIR?


    Muitas pessoas têm dúvidas se é pecado consumir alimentos oferecidos aos ídolos. Alguns utilizam Romanos 14.14 como base para defender essa prática, texto que diz: “Eu sei e estou persuadido, no Senhor Jesus, de que nenhuma coisa é de si mesma impura, a não ser para aquele que a considera impura; para esse é impura”. No entanto, ao meu ver, existem problemas claros em consumir alimentos que foram oferecidos a ídolos.

    Entendo que não é saudável participar desse tipo de prática por pelo menos duas razões. Primeiramente, os doces e alimentos oferecidos funcionam como um atrativo, um verdadeiro “cartão de visita” da idolatria, especialmente para crianças. Em segundo lugar, ao adquirir, consumir e ainda ensinar a outros irmãos que não há problema nisso, acaba-se contribuindo, ainda que indiretamente, para a manutenção e divulgação da idolatria que está por trás da prática, funcionando quase como uma forma de marketing religioso.

    Além disso, o apóstolo Paulo deixa claro que existe uma diferença entre não saber a procedência do alimento e saber. Se não houver conhecimento de que aquele alimento foi oferecido a ídolos, não há problema algum. Contudo, se a origem for conhecida, o mais prudente é buscar outra opção. Isso fica evidente em 1 Coríntios 10.27-28, quando Paulo diz: “E, se algum dos infiéis vos convidar e quiserdes ir, comei de tudo o que se puser diante de vós, sem nada perguntar, por causa da consciência. Mas, se alguém vos disser: Isto foi sacrificado aos ídolos, não comais, por causa daquele que vos advertiu e por causa da consciência; porque do Senhor é a terra e a sua plenitude”.

    Ainda que o texto não trate especificamente de doces distribuídos em determinadas práticas religiosas, há um princípio claro ali. Se eu consumir algo sem saber que foi oferecido a ídolos, não há culpa. Porém, sendo cristão e tendo conhecimento de que aquele alimento foi consagrado em um contexto idólatra, devo me abster, justamente por causa da consciência. Isso inclui também orientar outros irmãos, pois a omissão, quando se conhece a verdade, também se torna pecado.

    Soa estranho imaginar pais da igreja tentando economizar dinheiro e anunciando aos familiares que determinado centro espírita está distribuindo doces para as crianças, incentivando todos a irem buscá-los. Se tenho condições de comprar alimento, por que recorrer a algo que está diretamente ligado a uma prática idólatra? Muito menos faria sentido ensinar meus filhos que podem participar disso sem qualquer problema.

    A Escritura é clara quando afirma em 1 Coríntios 10.14: “Portanto, meus amados, fugi da idolatria”. No mesmo capítulo, nos versículos 18 a 20, Paulo declara: “Considerai Israel segundo a carne: os que comem dos sacrifícios não são, porventura, participantes do altar? Que digo, pois? Que o ídolo é alguma coisa? Ou que o que se sacrifica ao ídolo é alguma coisa? Antes digo que as coisas que os gentios sacrificam, sacrificam-nas aos demônios e não a Deus; e não quero que sejais participantes com os demônios”.

    Em Apocalipse 2.14, o próprio Jesus aponta como pecado o ato de comer dos sacrifícios da idolatria. Evidentemente, se um crente estiver em situação de necessidade extrema e não tiver o que comer, o mal que estava na intenção de quem ofereceu o alimento não lhe trará condenação, pois Deus conhece todas as coisas e sabe da condição do faminto. Contudo, se posso me alimentar longe da idolatria, por que buscaria alimento justamente nela?


    Este texto foi publicado originalmente em juliocelestino.com em 8 de setembro de 2015