Autor: juliocelestino

  • Estudos em Deuteronômio

    Introdução ao Livro de Deuteronômio

    1) Definição

    O livro de Deuteronômio é o quinto livro escrito por Moisés, o último do Pentateuco (ou Torá para os judeus). Seu nome, na teologia judaica, recebe o título de Devarim (Palavras) ou Hadevarim (As Palavras), seguindo o início do livro no seu primeiro versículo: “Estas são as palavras que Moisés falou a todo Israel além do Jordão”. Na tradição cristã, o livro recebeu o título Deuteronômio pela Septuaginta, derivado da palavra grega Δευτερονόμιον (Deuteronómion), que significa literalmente Segunda Lei. Contudo, é importante salientar que Deus não entregou uma segunda lei. Na verdade, após quarenta anos da lei registrada em Êxodo e Levítico, grande parte daquela geração havia sucumbido no deserto. Agora, era necessário repetir a lei e exortar a nova geração ao caminho certo, para que não cometesse o erro de seus antecedentes. Por isso, o entendimento prático sobre o título Deuteronômio é Repetição ou Recapitulação da Lei.

    2) Autoria

    Sobre a autoria do livro, há uma discussão moderna sobre a possibilidade de Moisés não ser o autor do Pentateuco. De acordo com o pastor e teólogo Osiel Gomes, não havia questionamento quanto a Moisés ser o autor do Pentateuco até o século XVII. Atualmente, os que levantam tal hipótese são os teólogos liberais da alta crítica. Particularmente, desprezo boa parte do trabalho dos teólogos liberais por entender que boa parte de sua teologia se trata de uma teologia da destruição, isto é, uma teologia que não constrói nada, apenas busca destruir e desestruturar aquilo que a igreja construiu ao longo dos séculos, além de, na maioria de suas manifestações, não aproximar ninguém de Deus ou de sua Palavra com a honra que ambos merecem. Preciso registrar que o desprezo pela teologia liberal é um sentimento pessoal, deixando todo e qualquer leitor livre para analisar e chegar às próprias conclusões. Essa posição relacionada aos teólogos liberais pode não ser considerada elegante, acadêmica e politicamente aceitável, mas eu realmente não me importo.

    Mesmo tendo convicção da autoria de Moisés, deixarei registrado aquilo que o pastor e teólogo estadunidense Finnis Jennings Dake chamou de 16 provas de que Moisés escreveu o Pentateuco:

    1. Deus ordenou que Moisés escrevesse em um livro (Êx 17:14; 34:27)
    2. Moisés escreveu as palavras do SENHOR (Êx 24:4-7; Nm 33:2; Dt 31:9,24)
    3. Esse escrito é chamado de “livro da aliança” (Êx 24:7) e “livro da lei” (Dt 28:58,61; 29:21; 30:10; 31:24-26)
    4. O rei deveria fazer para si uma cópia dessa lei (Dt 17:18-20)
    5.A lei dada por Moisés deveria reger a conduta de Josué e do povo (Js 1:7-8; 8:31-35)
    6. Josué agiu conforme a lei de Moisés e também escreveu palavras no livro da lei de Deus (Dt 27:1-8; Js 8:30-35; 24:26)
    7. Josué ordenou a Israel que obedecesse ao livro da lei de Moisés (Js 23:6)
    8. No período dos reis, essa lei continuou sendo reconhecida (1Cr 16:40; 1Rs 2:3; 2Rs 22:8–23:25; 2Cr 17:7-9; 23:18; 25:4; 29:25; 31:3)
    9. Os profetas se referem à lei de Moisés (Dn 9:11,13; Ml 4:4)
    10. Esdras e Neemias também atribuem a lei a Moisés (Ed 3:2; 6:18; 7:6; Ne 8:1,14; 10:29; 13:1)
    11. Cristo atribuiu autoridade mosaica à Lei e citou tanto partes narrativas quanto legais do Pentateuco como pertencentes a Moisés ou à Lei de Moisés (Lc 24:27,44; Mc 7:10; 12:26; Jo 5:46-47)
    12. Os apóstolos e a igreja apostólica referem-se repetidamente à “lei de Moisés” e a “Moisés” como autoridade textual e normativa (At 13:39; 15:1,5,21; 26:22; 28:23)
    13. A tradição judaica majoritária, por muitos séculos, atribuiu a Torá a Moisés, embora houvesse discussões sobre detalhes, como os últimos versículos de Deuteronômio.
    14. Diversos autores não judeus da Antiguidade reconheciam Moisés como legislador e figura fundadora da tradição judaica.
    15. Outras tradições religiosas posteriores, como o Islã, também associam a Torá a Moisés.
    16. Evidências internas favorecem forte unidade e sustentam a participação de Moisés:

    a) O Pentateuco reflete um ponto de vista israelita/hebraico, compatível com tradição originada no próprio povo de Israel.
    b) O texto contém elementos que sugerem familiaridade com o Egito e com o ambiente do deserto, algo compatível com a tradição mosaica, embora não exclusivo dela.
    c) A interligação entre narrativas, leis e instituições sugere coerência interna e unidade de tradição.
    d)Apesar da diversidade de gêneros, muitos veem nos cinco livros padrões temáticos e literários que favorecem alguma forma de unidade composicional.
    e) O próprio texto atribui a Moisés a escrita de porções substanciais da lei e de registros importantes da história de Israel (Êx 24:4; Nm 33:2; Dt 31:9,22,24).

    Mesmo com toda simplicidade no trato, essa lista sugerida por Dake me basta com relação à autoria de Moisés em relação ao Pentateuco.


    3) Divisão do Livro

    O livro de Deuteronômio é dividido pela Bíblia de Estudo Pentecostal da (CPAD) em três grandes discursos de Moisés:

    1. Retrospectiva histórica – capítulos 1 ao 4.43
    2. Renovação da Lei – capítulos 4.4 ao 26.19
    3. Bençãos, advertências e despedida final – capítulos 27 ao 30

    Além dos três discursos, Deuteronômio também conta com os atos finais de Moisés, que estão registrados do capítulo 31 ao 34. A Torá publicada pela editora judaica Sêfer também segue uma divisão semelhante, repartindo o livro de Deuteronômio em quatro partes.

    4) Contexto Histórico

    Deuteronômio é um livro escrito no final da vida de Moisés, cerca de quarenta anos após a libertação dos hebreus da servidão no Egito. Grande parte da população que saiu do Egito rumo à terra prometida pereceu no deserto por causa da falta de fé e desobediência a Deus. Agora, diante do rio Jordão, próximo ao mar Morto, defronte de Jericó, a nova geração precisava ser instruída pelos princípios do Senhor, principalmente naquilo em que seus pais falharam. A aliança de Deus com Israel se assemelha a um modelo antigo de pacto entre suserano e vassalo.

    O pacto de suserano e vassalo era um tipo de tratado do mundo antigo em que um rei mais poderoso (suserano) estabelecia uma aliança com um rei ou povo subordinado (vassalo), oferecendo proteção, estabilidade e reconhecimento, enquanto o vassalo devia lealdade exclusiva, obediência, tributo e fidelidade aos termos do acordo; esse tipo de pacto normalmente incluía a identificação do grande rei, a lembrança do que ele já havia feito pelo vassalo, as obrigações exigidas e as bênçãos pela obediência e maldições pela quebra da aliança.

    A Bíblia de Estudo Pentecostal sugere que podemos entender o livro de Deuteronômio a partir de três verbos centrais que estabelecem os três grandes discursos do livro: recordar (caps. 1–4.43), obedecer (caps. 4.44–26.19) e vigiar (caps. 27–30). Recordar, porque o livro preserva a memória da Lei. Obedecer, porque exorta o povo a viver segundo os mandamentos ao entrar na Terra Prometida. Vigiar, porque apresenta bênçãos para a obediência e maldições para a desobediência.

    Há também um cuidado especial e um tom pastoral no livro de Deuteronômio. Mesmo sabendo que estava impedido de entrar em Canaã, Moisés foi servo fiel até o fim; aos aproximados 120 anos de idade, dedicou seus últimos atos a fim de preparar a nova geração para servir a Deus e possuir a Terra Prometida. Deuteronômio marca a transição de liderança de Moisés para Josué. Essa transição é compreensível até mesmo quando não levamos em consideração a soberania de Deus, pois, dali para frente, o povo precisaria de uma liderança forte, fiel e guerreira. A grosso modo, vemos o bastão ser passado do servo intelectualmente capacitado, Moisés, para o fiel homem de batalha, Josué.

    5) Geografia

    O livro de Deuteronômio se desenvolve principalmente nas campinas de Moabe, a leste do rio Jordão, onde Israel estava acampado antes de entrar na Terra Prometida. Conforme o relato bíblico, depois de passar pelos montes de Abarim, Israel chegou às campinas de Moabe, que ficavam junto ao Jordão, defronte de Jericó (Nm 33.47-49). Ao norte dessa região encontrava-se a área montanhosa de Abarim, dentro da qual estava o monte Nebo; no monte Nebo encontrava-se o cume de Pisga, mencionado como o lugar de onde Moisés contemplou a terra que Deus havia prometido a Israel (Dt 3.27; 32.49; 34.1). Assim, o mapa representa a relação geográfica de forma progressiva: Abarim → monte Nebo → cume de Pisga, sem tratar Nebo e Pisga como dois montes independentes. A oeste do Jordão estava Canaã, a Terra Prometida, tendo Jericó como uma das primeiras cidades importantes diante dos israelitas, enquanto a leste encontravam-se Moabe e suas campinas, região na qual Moisés proferiu seus discursos finais, relembrou a história de Israel, renovou a aliança e preparou o povo para a entrada em Canaã. Do alto do Nebo, especificamente do cume de Pisga, Moisés recebeu a oportunidade de contemplar a Terra Prometida antes de sua morte, encerrando assim a narrativa de sua liderança e preparando a transição para Josué (Dt 34.1-5).


    6) Resumo

    Em conclusão, Deuteronômio é o discurso final de Moisés à nova geração de Israel antes da entrada em Canaã. Mais do que repetir mandamentos, o livro relembra a fidelidade de Deus, corrige os erros do passado e exorta o povo à obediência e vigilância diante da aliança. Nas campinas de Moabe, às portas da Terra Prometida, Moisés encerra seu ministério preparando Israel para viver uma nova fase de sua história. Por isso, Deuteronômio é um livro de transição, instrução e advertência, mostrando que a permanência do povo na bênção de Deus dependia de sua fidelidade ao Senhor.

    Referências

    Revista Lições Bíblicas

    Memorial Viewpoint | Mt Nebo, Jordan | Attractions – Lonely Planet
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    Memorial Viewpoint | Mt Nebo, Jordan | Attractions - Lonely Planet
    Aerial view from Mount Nebo in Jordan on a bright day
    View of the " promised land", Mount Nebo, Jordan
    View from Mount Nebo on the Jordanian landscape and Dead Sea near the city of Madaba in Jordan
    Views from Mount Nebo to the Dead Sea, Jordan
    Scenic aerial view from biblical Mount Nebo in Jordan
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  • Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada

    Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada

    Hoje é dia 22 de março de 2026. Acabei de ler o livro da primeira autora negra do Brasil a vender mais de 1 milhão de cópias de sua obra mais famosa: Quarto de Despejo.
    O livro é um diário escrito por dona Carolina, no qual podemos conhecer um pouco do que era a favela do Canindé, em São Paulo, entre os anos de 1955 e 1960.

    Carolina Maria de Jesus era negra, mãe solteira de três filhos e catadora de recicláveis. No livro, ela expõe sua luta diária, catando papel, ferro e outros materiais nas ruas para conseguir alimentar seus filhos. Além de sua vida pessoal, ela também registra os mais diversos acontecimentos na favela do Canindé. Mesmo vivendo em extrema pobreza, em um contexto no qual tudo parecia desfavorável, ela sonhava em ser escritora e ter seu livro publicado. Graças a Deus, conseguiu realizar esse sonho com muita garra e perseverança.

    Infelizmente, sua vida não foi um mar de rosas após o sucesso de seu livro. Alguns anos depois, ela retornou à pobreza e morreu em um sítio em Parelheiros (SP), em decorrência de um problema de asma que sempre teve. Dona Carolina partiu em 13 de fevereiro de 1977, mas deixou seu legado como uma mulher verdadeiramente forte, empoderada e guerreira.

    Não pretendo me delongar em sua biografia, pois sua história e seu merecido reconhecimento permanecem vivos até hoje. Quero iniciar esta reflexão comentando as passagens, frases e sentimentos expressos neste livro que mais me chamaram a atenção.



    “… Ontem ganhei metade de uma cabeça de porco no frigorífico. Comemos a carne e guardei os ossos. E hoje pus os ossos para ferver. E, com o caldo, fiz as batatas. Meus filhos estão sempre com fome. Quando passam muita fome, não são exigentes no paladar.” (pág. 30)

    Este trecho me fez lembrar da dificuldade que é para os meus filhos comerem. É preciso dar remédio para que tenham apetite. Acredito que isso acontece porque temos tudo dentro de casa, mesmo não sendo ricos. É comum não darmos valor ao que sempre tivemos. Cresci acostumado com a despensa cheia. Apesar das dificuldades que minha mãe enfrentou para criar minha irmã e a mim sozinha, nunca deixou faltar nada em nossa mesa. Acho que é por esse motivo que ter a despensa cheia de arroz, feijão, farinha, macarrão e outros alimentos nunca me comoveu.

    Ao ler esse trecho, pensei comigo: enquanto meus filhos precisam de remédio para comer bem, os filhos dessa pobre escritora (e tantos outros por este Brasil afora) desejam comer carne de meia cabeça de porco e batatas cozidas no caldo de ossos. Temos tantos motivos para agradecer a Deus que me sinto constrangido por não fazê-lo como deveria.

    Lembrei-me de outro trecho em que Carolina escreveu, no dia 31 de maio de 1956: “Quando eu lavava o feijão, pensava: eu hoje estou parecendo gente bem — vou cozinhar feijão. Parece até um sonho!” (pág. 47). Quanta felicidade por um pouco de feijão.

    No dia 7 de junho de 1956, ela registra um pensamento empírico: “Só quem passa fome é que dá valor à comida” (pág. 53). Deve ser por isso que jogamos tanta comida fora.



    “… Quando um político diz em seus discursos que está do lado do povo, que visa incluir-se na política para melhorar as nossas condições de vida, pedindo o nosso voto e prometendo congelar os preços, já está ciente de que, abordando este grave problema, vencerá nas urnas. Depois, divorcia-se do povo. Olha-o com os olhos semicerrados, com um orgulho que fere a nossa sensibilidade.” (pág. 38)

    Ao ler este comentário da autora, logo me lembrei do que disse o pregador no livro de Eclesiastes: “não há nada novo debaixo do sol” (Ec 1.9). Esse trecho do diário de Carolina foi escrito em 20 de maio de 1956, mas parece que ela acabou de assistir ao jornal ou às propagandas do horário eleitoral e registrou seu parecer no caderno.

    Em toda época de propaganda eleitoral, o discurso é o mesmo: muitos homens e mulheres tentam ganhar a confiança do povo, principalmente dos mais pobres, que geralmente acreditam que aquela pessoa que está ali na televisão, fingindo comer um pastel de feira, tem alguma preocupação com eles. Eu, pessoalmente, acredito que algumas almas altruístas realmente tenham tal preocupação, mas é uma preocupação de segunda instância. Em primeiríssima instância, a maioria está preocupada em fazer o seu próprio pé de meia.



    “O senhor Manuel apareceu dizendo que quer casar-se comigo. Mas eu não quero, porque já estou na maturidade. E, depois, um homem não há de gostar de uma mulher que não pode passar sem ler, que levanta para escrever e que se deita com lápis e papel debaixo do travesseiro. Por isso é que eu prefiro viver só para o meu ideal.” (pág. 49)

    Aqui eu percebi o ideal de dona Carolina. Ainda que ela estivesse interessada em namorar e se casar, permanecia focada naquilo que realmente lhe importava: escrever. Fico pensando em quantas vezes já pensei: “escrever é algo muito difícil”, e também em quantas pessoas desistem sem sequer tentar. Logo nós, que, mesmo não sendo ricos, temos tudo! Imagine uma mãe de três filhos tendo que catar diariamente recicláveis e até comida no lixo para que seus filhos não morram de fome.

    Carolina não desistiu e, mesmo enfrentando as agruras de sua vida cinzenta na favela, tirava tempo para escrever. Havemos de concordar que essa mulher era um verdadeiro diamante bruto de seu tempo.



    “… O que eu acho interessante é quando alguém entra num bar ou empório, logo aparece alguém que oferece pinga. Por que não oferece um quilo de arroz, feijão, doce etc.?” (pág. 72)

    O que a autora comenta aqui é algo real, principalmente nas comunidades. De fato, é interessante perceber que, ao chegar a um bar, logo se oferecem pinga, cerveja e cigarros. Vivem, por assim dizer, em uma espécie de “comunhão” da boemia.

    Lendo este trecho de Quarto de Despejo, lembrei-me do que o apóstolo Paulo escreveu no final do primeiro capítulo da carta aos Romanos: “[…] não somente as fazem, mas também consentem com os que as praticam.” (Rm 1.32)



    15 de julho. Hoje é o aniversário de minha filha Vera Eunice. Eu não posso fazer uma festinha, porque isso é o mesmo que querer agarrar o sol com as mãos. Hoje não vai ter almoço, só jantar. (pág. 93)

    6 de agosto. Fiz café para o João e o José Carlos, que hoje completa 10 anos. E eu apenas posso dar-lhe os parabéns, porque hoje nem sei se vamos comer. (pág. 106)

    Confesso que essas passagens me emocionaram. Fiquei pensando o quanto deve ter sido triste assistir ao aniversário dos próprios filhos sem ter condições de providenciar nem mesmo o bolo mais simples. Na verdade, a necessidade era ainda mais básica, pois, no aniversário de Vera, não haveria almoço, apenas jantar. Já no de José Carlos, a dúvida era se conseguiria alguma comida ou não.

    Mais uma vez penso: como somos afortunados! Quantas vezes ficamos tristes por não termos condições de fazer uma grande festa para os nossos filhos, com cerimoniais elaborados, muita comida e recreação, e olhamos com desprezo para aquele bolo simples, salgados, doces e refrigerante em nossa casa. Refletindo sobre isso, lembrei-me de mais um texto bíblico que diz: “Bem está, bom e fiel servo. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei” (Mt 25.23). Provavelmente, essa murmuração silenciosa da tristeza seja o sinônimo da expressão popular “reclamar de barriga cheia”. Creio que este seja um dos motivos de muitas pessoas não prosperarem.

    O livro de Carolina tem muitas passagens marcantes que eu poderia continuar citando neste texto; porém, deixo para a curiosidade do leitor que ainda não leu a obra o desejo de conhecê-la. Finalizo com um dos textos mais bonitos de dona Carolina em Quarto de Despejo:

    “… Eu dormi. E tive um sonho maravilhoso. Sonhei que eu era um anjo. Meu vestido era amplo, de mangas longas, cor-de-rosa. Eu ia da Terra para o céu e pegava as estrelas nas mãos para contemplá-las, conversar com elas. Elas organizaram um espetáculo para homenagear-me. Dançavam ao meu redor e formavam um risco luminoso.
    Quando despertei, pensei: eu sou tão pobre. Não posso ir a um espetáculo, por isso Deus envia-me estes sonhos deslumbrantes para minha alma dolorida. Ao Deus que me protege, envio os meus agradecimentos.
    ” (pág. 120)



    Referência da edição utilizada:
    Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada — Editora Ática, 10ª edição, São Paulo, 2014.


    Conheça um pouco mais:

  • O que restará de nossas obras?

    Uma reflexão sobre 1 Coríntios 3.10–17

    Ao escrever aos coríntios, o apóstolo Paulo enfrenta um problema sério dentro da igreja: divisões, partidarismo e orgulho espiritual. Alguns diziam: “Eu sou de Paulo”; outros: “Eu, de Apolo” (1Co 1.12; 3.4). Diante disso, Paulo mostra que nem ele nem Apolo são o centro da obra, pois ambos são apenas servos por meio dos quais os coríntios creram, cada um conforme o Senhor concedeu (1Co 3.5–9). É nesse contexto que ele apresenta uma poderosa metáfora: a Igreja como um edifício em construção, fundamentado em Cristo, no qual cada servo participa da obra. A grande pergunta do texto é: o que, de fato, permanecerá de tudo aquilo que estamos construindo?

    Um trabalho em conjunto, com responsabilidade individual

    Paulo deixa claro que a obra de Deus não é marcada pelo individualismo. A lavoura é de Deus, o edifício é de Deus, e todos os que servem participam de algo maior do que si mesmos (1Co 3.9). Por isso, não há espaço para ego, vaidade ministerial ou espírito competitivo na igreja. Ao mesmo tempo, embora a obra seja coletiva, a responsabilidade é pessoal, pois Paulo afirma: “veja cada um como constrói” (1Co 3.10). Isso significa que Deus não observa apenas o resultado aparente, mas também a qualidade, a intenção e a fidelidade do que está sendo edificado.

    Cristo, o único fundamento

    Antes de falar dos materiais, Paulo estabelece algo inegociável: “porque ninguém pode lançar outro fundamento, além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo” (1Co 3.11). Toda construção espiritual verdadeira começa e termina em Cristo. Qualquer tentativa de edificar a vida, o ministério ou a igreja sobre riqueza, influência, ideologias, carisma humano, filosofias ou sistemas meramente terrenos está fadada ao fracasso. Na linguagem de Jesus, isso é construir sobre a areia (Mt 7.24–27). Pode até parecer firme por algum tempo, mas não resistirá quando vierem os ventos, as chuvas e as tempestades. Somente Cristo é a base sólida, eterna e imutável (Ef 2.20; 1Pe 2.6).

    Os materiais da construção espiritual

    Uma vez estabelecido o fundamento, Paulo apresenta os materiais que podem ser usados na construção: ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno e palha (1Co 3.12). Aqui encontramos um contraste profundo entre aquilo que é eterno e aquilo que é passageiro.

    O ouro simboliza pureza, valor e glória. Nas Escrituras, o fogo não destrói o ouro verdadeiro; antes, o purifica (Jó 23.10; Ml 3.3; 1Pe 1.6–7). Espiritualmente, ele pode representar obras feitas para a glória de Deus, com sinceridade de coração e fé provada, obras que permanecem mesmo quando são examinadas em meio à pressão.

    A prata aparece frequentemente associada à redenção (Êx 30.11–16; 1Pe 1.18–19). Ela aponta para aquilo que foi resgatado, separado e consagrado. Nesse sentido, pode representar obras alinhadas ao evangelho, centradas na obra redentora de Cristo e marcadas por consciência espiritual, refletindo a graça de Deus na vida daquele que serve.

    As pedras preciosas evocam beleza, raridade e formação profunda. Elas não surgem de modo superficial, mas através de processos longos e intensos. Assim também são as obras espirituais mais valiosas: fruto de maturidade, caráter moldado e intimidade com Deus. São realidades formadas no secreto, longe dos aplausos, mas preciosas aos olhos do Senhor (Ap 21.18–21; Tg 1.2–4).

    Em contraste, a madeira pode até ter utilidade, mas não suporta o fogo. Ela pode representar obras feitas na força humana, sustentadas mais por habilidade, aparência ou estrutura externa do que pela ação de Deus. O feno simboliza brevidade e superficialidade; cresce rápido, mas seca rapidamente (Is 40.6–8). Assim, lembra obras emocionais, instáveis e sem raiz profunda, que impressionam por um momento, mas não permanecem. A palha, por sua vez, é leve, vazia e facilmente levada pelo vento, sendo frequentemente associada ao que não tem consistência diante de Deus (Sl 1.4; Mt 3.12). Ela representa obras feitas para aparência, motivadas pelo ego e destituídas de substância espiritual.

    O Dia da revelação

    Paulo afirma que chegará um dia em que tudo será manifestado: “a obra de cada um se manifestará; pois o Dia a demonstrará” (1Co 3.13). Esse momento aponta para a avaliação das obras dos salvos diante de Cristo (Rm 14.10–12; 2Co 5.10). Não se trata de condenação para aqueles que estão em Cristo (Rm 8.1), mas de prova, exame e revelação. O fogo de Deus testará a qualidade da obra de cada um (1Co 3.13). Aquilo que for verdadeiro permanecerá; o que for superficial será consumido.

    Salvação pela graça, recompensas pelas obras

    É essencial compreender esta verdade: a salvação é um dom da graça de Deus, e ninguém é salvo por suas obras (Ef 2.8–9; Tt 3.5). No entanto, as recompensas são concedidas com base naquilo que cada um construiu sobre o fundamento que é Cristo. Paulo afirma que, se a obra permanecer, o obreiro receberá galardão; se a obra se queimar, sofrerá dano, mas ainda assim será salvo, “todavia, como que através do fogo” (1Co 3.14–15). Isso mostra que salvação e recompensa não são a mesma coisa. No reino de Deus não haverá inveja nem competição pecaminosa, mas haverá uma real diferença entre aquilo que cada um ofereceu ao Senhor em fidelidade (Mt 16.27; Ap 22.12).

    O templo de Deus e a seriedade da obra

    Nos versículos finais, Paulo amplia ainda mais a solenidade do texto ao lembrar que a igreja é o santuário de Deus e que o Espírito habita nela (1Co 3.16). Isso significa que lidar com a igreja não é lidar com uma instituição qualquer, mas com algo santo, pertencente ao próprio Deus. Por isso, destruir, corromper ou ferir deliberadamente a igreja é algo gravíssimo: “Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá” (1Co 3.17). A obra cristã não é terreno para vaidade pessoal, manipulação ou exibição; ela exige temor, reverência e fidelidade.

    Conclusão

    A grande questão, portanto, não é apenas se estamos trabalhando para Deus, mas como estamos trabalhando. Não basta construir; é preciso construir com materiais eternos. Nossa vida cristã precisa ser marcada por profundidade, sinceridade e dependência do Senhor, pois tudo aquilo que nasce da carne, do ego ou da superficialidade não resistirá ao exame de Deus (Gl 6.7–8). Em contrapartida, aquilo que é feito para a glória de Deus, em Cristo, permanecerá para sempre.

    No fim, quando o fogo provar todas as coisas, restará apenas aquilo que realmente teve valor diante do Senhor. E então a pergunta voltará ao nosso coração: o que restará das nossas obras?

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  • Os quatro tipos de vaso

    Uma reflexão sobre 2 Timóteo 2.20–21


    Texto base:
    “Ora, numa grande casa não somente há vasos de ouro e de prata, mas também de pau e de barro; uns para honra, outros, porém, para desonra. De sorte que, se alguém se purificar destas coisas, será vaso para honra, santificado e idôneo para uso do Senhor, e preparado para toda a boa obra.” (2 Timóteo 2.20–21)


    Introdução

    O apóstolo Paulo nos convida a contemplar uma grande casa. Não se trata de uma tenda simples ou de um casebre improvisado, mas de um ambiente amplo, estruturado e cheio de propósito. Assim é a casa do Senhor: grande, graciosa e repleta de diversidade.

    Dentro dessa casa existem diferentes tipos de vasos, cada um com sua natureza, aparência e função. Paulo menciona quatro materiais distintos: ouro, prata, madeira e barro. A partir dessa figura, somos levados a uma reflexão profunda sobre nossa vida espiritual e nosso papel no Reino de Deus.


    O que é um vaso na linguagem bíblica?

    Na Bíblia, o termo “vaso” refere-se a recipientes utilizados para conter, guardar ou transportar algo. Esses vasos podiam assumir diversas formas:

    • Jarras e cântaros de cerâmica, usados para água, vinho, óleo e grãos;
    • Recipientes metálicos, como ouro e prata, especialmente empregados em contextos sagrados;
    • Bolsas de couro ou cestas, dependendo da necessidade.

    Ou seja, o valor de um vaso não estava apenas em sua aparência, mas principalmente em sua utilidade.


    A utilidade acima da aparência

    Essa verdade é fundamental: na casa de Deus, o que realmente importa não é a forma, a beleza ou a matéria-prima do vaso, mas aquilo que ele contém e para que ele serve.

    O apóstolo Paulo reforça isso ao escrever:

    “Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós.” (2 Coríntios 4.7)

    O valor do vaso está no conteúdo. E o conteúdo do cristão é o próprio Cristo.


    Deus usa diferentes vasos

    Assim como em uma grande casa existem utensílios variados, também no corpo de Cristo há diversidade de funções. Em Efésios 4.11–14, vemos que Deus distribuiu dons e ministérios com um propósito claro: o aperfeiçoamento dos santos e a edificação da Igreja.

    Portanto, não existe inutilidade na casa de Deus — existe propósito. Cada vaso pode e deve ser útil.


    O vaso de ouro

    O ouro, nas Escrituras, está associado à glória, majestade e valor. Um vaso de ouro chama atenção pela sua beleza, brilho e raridade.

    Espiritualmente, ele pode representar pessoas dotadas de talentos, recursos, inteligência e destaque. No entanto, há um perigo: o de confiar mais naquilo que se é por natureza do que naquilo que Deus faz através de nós.

    O vaso de ouro precisa lembrar que sua verdadeira riqueza não está em si mesmo, mas no que carrega. Sem isso, corre o risco de viver para exibição, e não para utilidade.

    Quando purificado, porém, torna-se um instrumento precioso nas mãos do Senhor.


    O vaso de prata

    A prata, símbolo de redenção, também possui grande valor. Contudo, ela carrega uma característica importante: precisa ser constantemente purificada.

    O vaso de prata pode representar aqueles que têm valor, mas que, por vezes, vivem mais como “decoração” do que como instrumento ativo. São pessoas com dons, mas pouco disponíveis.

    Além disso, seu brilho pode depender das circunstâncias — ou até da aprovação dos outros. Mas a Palavra nos ensina que a prata precisa passar pelo fogo para que a escória seja retirada.

    Não se trata de castigo, mas de processo. Deus usa as provações para purificar, renovar e tornar o vaso mais útil.


    O vaso de madeira

    Diferente do ouro e da prata, a madeira não suporta o fogo — ela é consumida por ele. Por isso, sua resistência é limitada.

    O vaso de madeira pode simbolizar aqueles que, ao longo do tempo, perderam o vigor espiritual. Talvez já tenham sido muito úteis, mas as lutas, decepções e dificuldades os desgastaram.

    A madeira envelhece, deteriora e pode ser afetada por agentes externos. Assim também acontece com quem não é constantemente renovado por Deus.

    Mas há esperança: Cristo, o carpinteiro, é especialista em restaurar. Quando esse vaso é colocado em Suas mãos, Ele trata, ajusta e reaproveita conforme Seu propósito.


    O vaso de barro

    O vaso de barro, embora simples, carrega uma das imagens mais belas da Escritura: a do Oleiro moldando sua criação.

    Esse vaso representa alguém que se deixa trabalhar por Deus. Não confia na aparência, nem em recursos próprios, mas na ação do Criador.

    É um vaso acessível, útil e disponível. Exala o bom perfume de Cristo e serve com humildade.

    E mesmo quando se quebra — porque isso pode acontecer — não é descartado. O Oleiro recolhe os pedaços e refaz o vaso, restaurando sua utilidade.


    Conclusão

    Na casa do Senhor há vasos de todos os tipos. Ouro, prata, madeira e barro convivem no mesmo ambiente. Mas a grande lição do texto não está na diferença entre eles — e sim no propósito comum.

    Todos foram feitos para uso.

    Nossa verdadeira riqueza não está na matéria-prima, na aparência, no talento ou no reconhecimento. Está no conteúdo que carregamos: a presença de Deus em nós.

    Se nos purificarmos, se nos colocarmos à disposição do Senhor e permitirmos que Ele trabalhe em nossas vidas, seremos vasos de honra — santificados, úteis e preparados para toda boa obra.


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  • O PODER DO SANGUE


    “Então tomai um molho de hissopo, e molhai-o no sangue que estiver na bacia, e passai-o na verga da porta, e em ambas as ombreiras, do sangue que estiver na bacia; porém nenhum de vós saia da porta da sua casa até à manhã. Porque o SENHOR passará para ferir aos egípcios, porém quando vir o sangue na verga da porta, e em ambas as ombreiras, o SENHOR passará aquela porta, e não deixará o destruidor entrar em vossas casas, para vos ferir.” – Êxodo 12.22-23


        O texto que acabamos de ler nos leva ao momento em que Deus prepara o povo de Israel para passar pelo pior episódio da história do Egito antigo: a última praga. Deus havia enviado Moisés e Arão diversas vezes à presença do Faraó para que ele libertasse o povo de seu cativeiro; porém, a Palavra de Deus nos declara que o coração do monarca foi endurecido repetidamente, mesmo após todos os avisos do Senhor sobre as consequências que estavam por vir.

        Muitas vezes agimos como o Faraó. Às vezes estamos passando por momentos difíceis em nossas vidas e perguntamos a Deus o “por quê” de tantas coisas ruins nos atingirem: desilusões, abandono, casamento desfeito, crise financeira, doenças crônicas. Esquecemos que Deus sempre nos avisa das consequências antes que elas aconteçam, mas a dureza do nosso coração acaba cegando nosso entendimento para as lições espirituais que o Espírito Santo tenta nos ensinar.

        Naquele dia, Deus preparava Seu último julgamento sobre o império egípcio: a morte dos primogênitos. O aviso foi claro: a família que tivesse o sangue do cordeiro aspergido nos umbrais da porta seria poupada da ação do anjo da morte.

    A HISTÓRIA DA PÁSCOA

        A palavra-chave para este grande evento é libertação. Antes da libertação do povo judeu das garras do império egípcio, Deus ensinou uma maravilhosa lição espiritual que atravessaria gerações: a Páscoa.

        Após a nona praga que assolou a terra do Egito, Deus disse a Moisés que aquele momento seria o princípio dos meses; é em Êxodo 12 que se iniciam os meses do calendário judaico. A instrução consistia em que, no dia 10 de março (Nissan), cada família deveria separar um cordeiro sem mácula e colocá-lo em observação até o dia 14 de março, para ter certeza de que ele não tinha nenhum defeito. 

        No dia 14 de março, após certificarem que o cordeiro não tinha mancha ou mácula, o povo preparava o sacrifício às 9h da manhã. Em seguida, sacrificavam o cordeiro às 15h para concluir a Páscoa antes das 18h, quando se iniciaria um novo dia.

        Durante esse processo, toda família deveria coletar o sangue do cordeiro em uma bacia e aspergi-lo com hissopo nos umbrais da porta. Assim, quando o anjo da morte passasse à meia-noite e visse o sangue do cordeiro, ele passaria por cima da casa sem executar o juízo de morte. Esta festa deveria ser repetida ano após ano, por estatuto perpétuo.

        Tudo que Deus faz e institui não é por acaso; tudo tem um propósito. Minha vida tem um propósito, a sua vida tem um propósito, nossa família tem um propósito, a igreja tem um propósito, nossa campanha tem um propósito. Com a Páscoa não foi diferente: Deus estabeleceu um estatuto perpétuo para que os judeus repetissem aquele sacrifício anualmente até que viesse o verdadeiro Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. E assim eles fizeram, ano após ano.

    A PÁSCOA SE CUMPRIU COM A VINDA DE CRISTO

        Após 1.600 anos repetindo o mesmo ritual de sacrificar o cordeiro sem mácula e esperando, pela fé, o verdadeiro Cordeiro de Deus, o povo escolhido estava no templo se preparando para mais uma Páscoa quando o bendito Cordeiro chegou — mas eles não perceberam:

    “E estava próxima a Páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém. E achou no templo os que vendiam bois, ovelhas e pombos, e os cambistas assentados. E tendo feito um azorrague de cordéis, lançou todos fora do templo, também os bois e ovelhas; e espalhou o dinheiro dos cambistas e derribou as mesas. E disse aos que vendiam pombos: Tirai daqui estes, e não façais da casa de meu Pai casa de venda.” – João 2.13-16.


    O texto nos mostra que o povo de Deus ia à casa do Senhor como se fosse um momento de recreação, um evento social para se distrair e encontrar velhos amigos. Outros usavam a casa de Deus para benefício próprio, transformando o templo em uma verdadeira casa de comércio. Da mesma forma, hoje vemos parte do povo indo ao templo apenas para bater papo, ver amigos, exibir a roupa nova, vender produtos e até cadeiras da igreja. Eu mesmo cansei de ver jovens e adultos conversando durante o culto sobre futebol, lutas, fofocas e tudo mais — menos sobre a palavra pregada naquela noite.

    No dia 9 de março, Jesus foi a Betânia e realizou um de seus maiores milagres: a ressurreição de Lázaro. No dia 10 de março, entrou em Jerusalém montado em um jumentinho, recebido com ramos e aclamações de “Hosana! Bendito o Rei de Israel que vem em nome do Senhor”.

    O povo não percebeu, mas aquela Páscoa seria diferente de todas, pois o verdadeiro Cordeiro estava ali, sendo separado para análise no dia 10 de março. Todos os olhares estavam sobre Ele, procurando alguma mácula — e não encontraram.

    Anás, Caifás, Herodes, Pilatos… ninguém achou falha no Cordeiro. Mas ali se cumpria a maior profecia de todos os tempos: o Cordeiro foi separado no dia 10 de março e sacrificado no dia 14, às 15h, quando Jesus declarou: “Está consumado.”

    O SANGUE ESTÁ DISPONÍVEL PARA NÓS


    Primeiro passo: mexa-se!

    Desde aquele grande dia, o sangue do Cordeiro está disponível para todos nós, mas o texto do Êxodo nos ensina que não basta o sangue estar na bacia — é preciso aplicar. Todos nós esperamos que um milagre, bênção, cura ou unção chegue à nossa porta, mas precisamos tomar o “hissopo da fé” e aplicar o sangue na porta da nossa casa, da nossa família e do nosso ministério. Jesus não vai fazer isso por você.


    Segundo passo: enfrente o problema.

    Satanás tenta nos amedrontar dizendo que é nosso dono, que pode entrar na nossa casa e nos tocar; tenta trazer lixo do passado, tentando nos desanimar. Mas, se andarmos na luz, o sangue de Jesus nos purifica de todo pecado. Se nossa casa antes pertencia ao Egito, agora ela tem o sangue do Cordeiro nos umbrais.


    Terceiro passo: faça para Deus ver.

    “Vendo Eu o sangue, passarei sobre vós.”

  • MERGULHADO EM ÓLEO FERVENTE – A ORIGEM DA HISTÓRIA


    Hoje, eu estava escrevendo um comentário sobre Apocalipse 1.9 e lembrei de uma história sobre o apóstolo João que ouvi no seminário de teologia. A história, lenda ou tradição, fala de um momento em que o apóstolo João foi condenado a ser mergulhado em um caldeirão de óleo fervente e, por milagre, retirado ileso.

    O contexto histórico diz que João foi convocado a Roma para ser julgado devido à Palavra de Deus. Na época, o governador de Roma era Tito Flávio Domiciano. Diante das autoridades e falsas testemunhas que contavam mentiras acerca da vida e doutrina cristã, João foi condenado à morte. Um agravante da situação é que Roma era um império politeísta e o governador Domiciano se autodenominava “Dominus ac Deus” (Senhor e Deus em latim). Logo, a condenação do apóstolo João era certa, pois, assim como os cristãos de hoje, ele professava sua fé e adoração ao único e verdadeiro Deus.

    Após refletir pela milésima vez sobre essa emocionante história, questionei qual era a fonte escrita mais antiga que a corrobora. Uma pesquisa superficial nas ferramentas de pesquisa disponíveis, como Google e Bing, não encontra uma resposta para a pergunta. Aparentemente, no conteúdo de estudiosos de língua portuguesa que aparecem nas primeiras páginas de pesquisa, não existe tal informação. Então pesquisei em inglês. Graças a Deus, encontrei um tesouro escrito entre o segundo e terceiro século por Tertuliano chamado “The Prescription Against Heretics” (A Prescrição Contra os Hereges). Tertuliano cita o episódio da condenação de João de maneira singela neste livro. Agora, não é necessário mais dizer que a história é apenas uma tradição oral, mas também escrita.

    Segue o trecho do livro de Tertuliano que menciona a história da condenação de João:

    “Capítulo 36. As Igrejas Apostólicas a Voz dos Apóstolos. Que os hereges examinem suas reivindicações apostólicas, em cada caso, indiscutíveis. A Igreja de Roma é duplamente apostólica; sua primitiva eminência e excelência. A heresia, como uma perversão da verdade, está ligada a ela.

    Vinde agora, vós que quereis satisfazer uma curiosidade melhor, se quiserdes aplicá-la ao negócio da vossa salvação, percorrei as igrejas apostólicas, nas quais os próprios tronos dos apóstolos ainda são preeminentes nos seus lugares, nos quais os seus próprios escritos autênticos são lidos, pronunciando a voz e representando o rosto de cada um deles separadamente. Muito perto de ti está a Acaia, na qual se encontra Corinto. Como não estás longe da Macedónia, tens Filipos; (e aí também) tens os Tessalonicenses. Como podes passar para a Ásia, tens Éfeso. Além disso, como estais perto da Itália, tendes Roma, de onde vem até mesmo para as nossas mãos a própria autoridade (dos próprios apóstolos). Como é feliz a sua igreja, sobre a qual os apóstolos derramaram toda a sua doutrina com o seu sangue! Onde Pedro suporta uma paixão como a do seu Senhor! Onde Paulo ganha a sua coroa numa morte como a de João [Batista], onde o apóstolo João foi primeiro mergulhado, ileso, em óleo a ferver, e daí remetido para a sua ilha-exílio! Vejam o que ela aprendeu, o que ensinou, a comunhão que teve até com as (nossas) igrejas em África! Ela reconhece um só Senhor Deus, Criador do universo, e Cristo Jesus (nascido) da Virgem Maria, o Filho de Deus Criador; e a Ressurreição da carne; a lei e os profetas ela reúne num só volume com os escritos dos evangelistas e apóstolos, dos quais bebe na sua fé. Isto ela sela com a água (do batismo), reveste com o Espírito Santo, alimenta com a Eucaristia, anima com o martírio, e contra uma disciplina assim (mantida) ela não admite quem a contradiga. Esta é a disciplina que eu já não digo que predisse que as heresias viriam, mas da qual elas procederam. Contudo, não eram dela, porque se opunham a ela. Até mesmo a tosca azeitona selvagem surge do germe da frutífera, rica e genuína azeitona; também da semente da mais suave e doce figueira nasce a vazia e inútil figueira selvagem. Da mesma forma, as heresias também vêm de nossa planta, embora não sejam de nossa espécie; (elas vêm) do grão da verdade, mas, devido à sua falsidade, elas têm apenas folhas selvagens para mostrar.”



    Referências

    TERTULIANO. As obras completas de Tertuliano (33 livros): Com links cruzados para a Bíblia. Edição do Kindle. Amazon.com.

  • DEPRESSÃO: CAUSA, SINTOMAS E ESPERANÇA


    “Não estejais inquietos por coisa alguma; antes as vossas petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus pela oração e súplica, com ação de graças. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus.” – Filipenses 4.6-7, ACF


    Depressão e Suicídio: entender, superar e ajudar. Este é o tema da breve palestra que foi ministrada aos jovens e adolescentes da Igreja Assembleia de Deus de Maruípe no dia 18 de setembro de 2020. Grande parte do conteúdo foi retirado do livro de Zack Eswine, intitulado “A Depressão de Spurgeon”, lançado em 2015 pela editora Fiel.

    O QUE É DEPRESSÃO?

    Segundo a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), a depressão é “um transtorno mental caracterizado por tristeza persistente e pela perda de interesse em atividades que normalmente são prazerosas, acompanhadas da incapacidade de realizar atividades diárias […]”. Conforme a OPAS, as pessoas com depressão podem apresentar vários sintomas como perda de energia, mudanças no apetite, aumento ou redução do sono, ansiedade, perda de concentração, indecisão, inquietação, sensação de que não valem nada, culpa ou desesperança, e pensamentos de suicídio ou de causar danos a si mesmas. É importante destacar que a organização afirma que a depressão pode afetar qualquer pessoa, e isto não se trata de um sinal de fraqueza ou, popularmente, de “frescura”.

    A depressão também pode ser ilustrada de forma simplista com as placas de “depressão na pista”. Essas placas ilustram bem como funciona a depressão na vida de alguém, pois, quando estamos dirigindo um veículo e nos deparamos com o alerta de “depressão na pista”, sabemos que haverá um desnível para baixo na estrada. Assim é na vida de quem sofre de depressão: em determinado momento, há um desnível para baixo.



    UM DADO INTERESSANTE SOBRE A DEPRESSÃO

    Um dado interessante é que a depressão só foi reconhecida como doença em meados do século XIX. De acordo com uma matéria publicada no Jornal da USP, somente em 1952 foi lançado o primeiro Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), elaborado pela Associação Americana de Psiquiatria. Porém, este mal assola o ser humano há muito mais tempo do que possamos imaginar.


    QUAIS SÃO AS CAUSAS DA DEPRESSÃO?

    De acordo com o livro de Zack Eswine, a depressão pode surgir na vida de uma pessoa através de três fatores: biológico, circunstancial e espiritual.

    Fator Biológico – Conforme o site do Ministério da Saúde, as causas da depressão podem ser eventos vitais, genéticas e bioquímicas. O pastor Charles Spurgeon também reconhecia que a depressão, em alguns casos, é causada pelo fator biológico, afirmando que “algumas pessoas são constitucionalmente tristes. Às vezes somos marcados pela melancolia desde o momento de nosso nascimento”. Por este motivo, é necessário que nós, cristãos, tenhamos a consciência de que nem tudo na vida se trata de algo espiritual; pode ser doença. A OPAS afirma que a depressão é um transtorno tratável por meio de psicoterapia, medicamentos antidepressivos ou a combinação de ambos.

    Fator Circunstancial – Como foi citado acima, o Ministério da Saúde afirma que a depressão pode ser causada por eventos vitais, ou como preferimos abordar nesta palestra, causas circunstanciais. O fator circunstancial indica que uma pessoa acometida de depressão não chega a esta situação devido a sua natureza ou temperamento melancólico, eventos como a perda de um familiar, demissão, problemas financeiros, traição de um cônjuge, problemas familiares, descontentamento com o próprio corpo, sonhos frustrados dentre várias outras circunstâncias podem causar depressão. Este mal surge até mesmo após um momento lindo como o nascimento de uma criança, conhecida como depressão pós-parto. Sobre isto, Eswine diz que o fator circunstancial nos ensina que: 1) a fé na terra não é nem escapismo, nem paraíso, 2) não equiparamos benção espirituais com comodidade circunstancial e 3) nós que não sofremos depressão circunstancial devemos aprender o cuidado pastoral para com aqueles que sofrem.

    Fator Espiritual – Eswine descreve que “essa forma de depressão aflige pessoas, a qualquer momento, com terrores conscientes e irreversíveis acerca do desagrado de Deus. Ou ainda, aqueles que, sofrendo esse tipo de depressão, usam atos extremos de devoção religiosa a ponto de machucarem a si próprio e a outros”. Para a pessoa com este tipo de depressão, Deus tem amor, paz e graça para os outros, menos para ela. Também acredita que devido a algum pecado ou qualquer outro motivo, Deus não a ama mais, está desamparada, esquecida, etc. Segundo Eswine, alguns pregadores acabam piorando a situação do deprimido, presumindo que toda depressão se trata de um pecado. Em alguns casos, o pregador peca por associar a prosperidade financeira e a saúde com sua fidelidade a Jesus. Por vezes, um servo ou uma serva do Senhor que passa por problemas circunstanciais, se vê de frente a uma mensagem que afirma que se formos fiéis a Jesus, seremos abundantemente ricos e saudáveis. Por essas e outras, o servo de Jesus que passa por problemas na área da saúde ou financeiro, acaba acreditando que Deus o abandonou em seus infortúnios, e isso não é verdade! Sobre isto, escreveu o Pregador de Eclesiastes: “Tudo sucede igualmente a todos; o mesmo sucede ao justo e ao ímpio, ao bom e ao puro, como ao impuro; assim ao que sacrifica como ao que não sacrifica; assim ao bom como ao pecador; ao que jura como ao que teme o juramento”. O autor de Eclesiastes estava falando sobre o que chamamos de “graça comum”, ou seja, a graça que Deus disponibiliza a todos! De forma simples, o Pregador estava dizendo que o mesmo sol que brilha sobre a igreja, brilha sobre um presídio; e a mesma chuva que cai sobre uma casa de família também cai sobre um bar. É preciso ser cauteloso com o uso da língua, até mesmo na hora de testemunhar as bençãos de Deus em nossas vidas. Dentro do fator espiritual, também existe a possibilidade de uma influência maligna, e segundo Eswine, “quando nos deparamos com este antigo inimigo, o diabo, resta apenas uma coisa que podemos e devemos fazer: lutar!”. Usando a armadura espiritual descrita em Efésio capítulo 6 podemos vencer! Eswine diz que “nosso jeito de lutar é nos escondermos atrás de Jesus que luta por nós. Nossa esperança não é a ausência de nosso pesar, ou sofrimento, ou dúvida, ou lamento, mas a presença de Jesus”.


    COMPORTAMENTOS QUE ATRAPALHAM

    Existem alguns comportamentos que, mesmo com a melhor das intenções, podem piorar a situação de quem sofre com depressão. Frases como “pare de bobagem, a vida é bela, sacode a poeira e recupera-se!” e “para de frescura!”, são como empurrões que lançam o sofredor ainda mais fundo no mar da angústia. Textos bíblicos dispensados de qualquer maneira também não servem de ajuda para o aflito, às vezes pode até piorar a situação, fazendo-o acreditar que se não está sentindo nada lendo trechos da Palavra, Deus o abandonou. O desprezo e a indiferença também são comportamentos que atrapalham, geralmente, amigos e familiares acabam desprezando a dor do deprimido dizendo coisas como: “seu problema nem é tão grave assim, para mim você está sofrendo à toa”, ou pensando: “daqui a pouco passa, para que vou me preocupar?”. É preciso termos cautela e amor para com os aflitos e evitar tais julgamentos para não sermos as mãos que jogam gasolina em cima do fogo da melancolia tentando apagá-lo.


    SEGUINDO O EXEMPLO DE DEUS

    O primeiro livro dos Reis, capítulo 19, nos mostra uma boa forma de tratar alguém que sofre neste pântano sombrio. O texto descreve o momento em que o profeta Elias sofre uma profunda depressão. Mesmo Deus tendo realizado diversos milagres e maravilhas na vida deste homem, ao ser ameaçado de morte por Jezabel, esposa do rei, ele fugiu temendo pela sua vida e clamou a Deus pela sua morte quando suas forças acabaram, mas, o Senhor não o abandonou.

    Finalizo este esboço mostrando a você, caro leitor, como é importante aprendermos com Deus a maneira correta de lidar com pessoas depressivas:

    • Elias fugiu para o deserto, se abrigou debaixo de um zimbro, pediu a morte e adormeceu. Isso nos mostra, em primeiro lugar, que o aflito precisa de descanso.
    • Em seguida, um anjo o alimentou com pão e água e ele dormiu de novo. Este gesto nos ensina que nosso tratamento para com os angustiados demanda tempo, amor e cuidado. É preciso ter paciência para alimentá-los com amor.
    • Após descansar mais um pouco, o anjo repetiu todo o gesto de amor, e isso renovou as forças do profeta para continuar na caminhada.

    Amor, paciência e cuidado são palavras-chave no cuidado de Deus para com Elias, e é assim que devemos tratar os que sofrem com a depressão. Que Deus nos abençoe e nos dê estratégias para ajudar a quem precisa. E se você que está lendo sofre deste mal, procure ajuda médica, converse com um amigo de confiança e, acima de tudo, confie em Deus. Você não está sozinho(a) nessa!



    Este texto foi escrito originalmente 16 de setembro de 2020

  • Estender o culto: quando é apropriado?

    Pela graça e misericórdia do Senhor Jesus Cristo, tive a oportunidade de pregar sua palavra em diversas ocasiões. Alguns irmãos brincavam comigo, dizendo que eu demorava demais para terminar a oração, então nunca me pediam para orar antes das refeições.

    Brincadeiras à parte, sempre tive a preocupação de cumprir o horário das reuniões eclesiásticas, pois a igreja congrega pessoas de diferentes profissões e afazeres. Por exemplo, um casal de feirantes que acorda às três da madrugada de domingo para preparar sua barraca de legumes na avenida central. Com muito zelo, passam o dia trabalhando sob o calor e correm para a igreja com seus filhos ao anoitecer. Ao lado do casal de feirantes, há um jovem solteiro que mora sozinho e trabalha em escala 12×36; ele foi o pregador escalado para a noite. Ao lado do jovem pregador, há uma mãe solteira que, após um dia de trabalho, deixou seus filhos com um parente, prometendo voltar para buscá-los em duas horas, pois precisava buscar uma bênção na casa do Pai. Para surpresa de todos, na hora da Palavra, o jovem pregador descansado decidiu seguir o exemplo de Esdras e Paulo naquela noite. Explico:

    Um dia, um escriba chamado Esdras leu os cinco primeiros livros da Bíblia em praça pública desde o amanhecer até meio-dia (Ne 8.3). Dias depois, ele participou de um culto que teve seis horas de leitura da Palavra seguidas de seis horas de adoração, totalizando doze horas de culto (Ne 9.3)!

    Outro dia, o apóstolo Paulo pregou tanto que um jovem sentado na janela cochilou, caiu e morreu (era meia-noite). Graças a Deus, a história não teve um final triste, pois o Espírito Santo ressuscitou o jovem pela fé de Paulo. Após o ocorrido, Paulo continuou pregando até o amanhecer (At 20.7-11).

    Diante dos exemplos de Esdras e Paulo, posso dizer que é válido estender um culto por tempo indeterminado? Creio que este comportamento não deve se tornar um costume por quatro motivos:

    1. No tempo de Esdras e Paulo, ou começaram o culto com um horário determinado para terminar, ou não prometeram hora alguma. Certamente, os irmãos presentes sabiam de antemão se o culto tinha hora marcada para acabar.
    2. Quando falamos de Esdras (458 a.C.) e Paulo (10 d.C.), estamos falando de cenários com mais de dois mil anos. A organização das reuniões e as ocupações das pessoas eram completamente diferentes das de hoje. Um trabalhador assalariado com pais doentes em casa e filhos pequenos não poderia participar de cultos de doze horas como o de Esdras, nem ouvir uma pregação que começou num dia e terminou no outro, como a de Paulo.
    3. Quando estabelecemos um horário para o culto, isto se torna um compromisso com os membros e visitantes. Se convidarmos parentes e amigos para um culto que deveria terminar às 21:30, mas se estende até a meia-noite, não estamos cumprindo nossa palavra e violamos o princípio da ordem (1Co 14.40).
    4. Por uma questão de empatia pelo próximo. Às vezes, sou um jovem solteiro que acorda ao meio-dia no domingo, mas meu irmão é um feirante que acorda de madrugada para trabalhar. Ninguém tem a mesma vida que eu, e não sei quais são as tarefas e dificuldades dos meus ouvintes no culto. Praticar empatia pode ser uma forma de amar o próximo (Mt 22.39).

    Resumindo, há algum problema em cultos sem hora para acabar? Nenhum! Desde que os convidados saibam que naquela igreja é assim que acontece. Caso contrário, acredito que devemos cumprir o princípio da ordem (1Co 14.40).


    Este texto foi publicado originalmente em juliocelestino.com em 08 de fevereiro de 2024

  • Eu, A Raiz Exposta do Pecado – Steve Gallagher


    No livro A Raiz Exposta do Pecado, Steve Gallagher se aprofunda no tema intrínseco do ser humano, e talvez, o principal dos pecados: o ego. No livro Amantes de si mesmos, Dave Hunt declara acertadamente que a ideia moderna de que devemos “nos amar mais” não é amparada pela bíblia. Na verdade, não há nenhum mandamento bíblico dizendo que devemos nos amar. O mandamento bíblico basilar sobre o amor está situado no evangelho segundo Mateus 22.37-39 que diz: “(…) Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Após uma atenciosa leitura da palavra de Deus, constatamos que não há mandamento para se amar, isso se dá pelo fato de que o ser humano naturalmente se ama. Até mesmo aqueles que intentaram contra a própria vida se amam, pois, a frustração de não ter a vida que gostariam os fazem desistir de viver.     

    Partindo deste pressuposto, o livro de Gallagher é dividido em três sessões: 1) O grande reino do Eu; 2) Os tipos de orgulho e 3) O reino da humildade. O objetivo da obra é expor o pecado que está enraizado na natureza de todo filho de Adão; pecado este que começou no céu com o querubim ungido e se propaga na terra como uma pandemia destruidora: o orgulho. De acordo com Steve Gallagher quase tudo em nossa cultura agrada ao ego ou o incita: entretenimento, propaganda, mídia, meio acadêmico, negócios e a vida em casa. Nestes tempos, tudo tem como foco a imagem e as realizações pessoais. Isso, por sua vez, gera uma pressão esmagadora para superarmos o nosso próximo – sendo mais inteligente, mais forte, mais capaz, mais atraente e mais rico. Em um ambiente que exalta e glorifica os feitos, a força e a beleza, as crianças aprendem rapidamente o quanto é bom ser enaltecido, assim como machuca ser criticado ou não notado. Elas são ensinadas a serem orgulhosas de si mesmas e de suas habilidades. Essa mentalidade é reforçada a cada estágio do desenvolvimento até a vida adulta. 

    “Quando uma pessoa se rende a determinado hábito pecaminoso, uma contaminação espiritual trabalha em sua constituição” – Gallagher


    Portanto, na sessão do grande reino do Eu, Gallagher expõe biblicamente como o mundo é dominado pelo orgulho excessivo e como isso tem destruído anjos, pessoas, ministérios e famílias inteiras. Na segunda sessão é mostrado vários tipos de orgulho que provavelmente, durante a leitura, nos identificamos com alguns deles. Eu, por exemplo, me identifiquei numa área defeituosa que nunca havia percebido antes, no momento que Gallagher fala sobre o orgulho inacessível, ou seja, pessoas que tem o coração inacessível: “não se trata de temperamento, mas, sim, do estado do coração. Em suma, esse indivíduo odeia ser corrigido de qualquer modo. Ele fica notavelmente tenso quando é alertado sobre áreas de sua vida que precisam de mudança. Esse indivíduo se isola tanto de relacionamentos quanto de situações em que possa receber críticas ou aconselhamentos. Ele geralmente o faz com sutileza, muitas vezes por meio de atitudes desagradáveis, voltadas para afastar os outros em primeiro lugar. Ele controla rigidamente o quanto outros podem se aproximar dele, bem como os assuntos da conversa”. Já na terceira sessão, Gallagher nos apresenta o reino da humildade, atributo gracioso que agrada a Deus. Com conselhos e dicas práticas, o livro nos ensina como vencer o pecado do orgulho que existe em nosso coração e buscar a excelência através da humildade de espírito e dependência total de Deus. Algo que muito tocou meu coração foi no tópico “servindo a si” quando ele conta a história de um homem que entrou no Pure Life Ministries (Ministérios Vida Pura) para o tratamento de seu pecado sexual, porém, mesmo depois de algum tempo e já ministrando a palavra de Deus, ele não conseguia abandonar o pecado sexual. Após uma conversa pessoal com Gallagher, o rapaz decidiu sair do Ministérios Vida Pura para “crescer sozinho” e alimentar seu ego; sem sucesso, infelizmente (ou felizmente).

    Então, citando Whatman Nee, Gallagher tocou meu coração ao reproduzir que ninguém está apto para trabalhar apenas porque aprendeu alguns ensinamentos. A questão básica permanece: que tipo de pessoa é esse homem? Pode aquele cujos mecanismos internos são errados, mas cujo ensinamento é correto, atender à demanda da igreja? A lição básica que devemos aprender é ser transformado em um vaso perfeito para o uso do Mestre. Isso só pode ser feito por meio do quebrantamento. Ler esse trecho do livro, além de me advertir profundamente, lembrei-me do que escreveu A. -D. Sertillanges em seu livro “A Vida Intelectual”, ao advertir o leitor sobre a necessidade de ser uma pessoa com moral trabalhada em virtudes, ou, no popular: viver o que se prega. De acordo com ele, não haveria coisa mais chocante em ver uma descoberta feita por um canalha? A candura de um homem simples ficaria ofendida com isso. Escandalizamo-nos com uma dissociação que ofende a harmonia humana. Não acreditamos nesses joalheiros que vendem pérolas e não as usam. Viver junto da fonte sublime sem participar de sua natureza moral soa como um paradoxo. Isso é uma clara demonstração de ortodoxia e ortopraxia, ou seja, doutrina e prática devem andar juntas.     

    Eu, como consumidor dos livros do pastor Steve, posso afirmar que o livro é uma ótima ferramenta auxiliar na luta contra o pecado do orgulho e do egoísmo. Em alguns momentos pode ser cansativo ler quase trezentas páginas tratando do mesmo assunto, porém, creio ser necessário conhecer aquilo que combatemos. Eu recomendo com entusiasmo o livro: Eu; A Raiz Exposta do Pecado de Steve Gallagher.


    Este texto foi publicado originalmente em juliocelestino.com em 04 de dezembro de 2023

  • A CAMINHO DE UM GOVERNO GLOBAL


    Na introdução de seu livro “#antes que apaguem” o político e ativista Luiz Philippe de Orleans e Bragança escreve sobre o atual movimento em prol da censura no mundo pós guerra fria. Interessantíssimo foi ler acerca de sua cosmovisão, especificamente com relação a um movimento (ou vários) que tem por objetivo a criação de um governo global:

    “O quarto fator é a expansão das pautas de política de identidade e do globalismo. Ambas de origem em pensadores marxistas. Alguns exemplos? Os temas de política de identidade envolvem assuntos como gênero, status, origem, raça e as pautas globalistas tratam de tópicos como clima, imigração, saúde, uso de recursos naturais, emprego, industrialização, urbanismo e controle populacional”.

    E conclui:

    “Na minha análise, o objetivo final das políticas de identidade, assim como o globalismo, é a criação de um governo global no controle dos meios de produção e de comportamento. No momento em que esta obra está sendo escrita, tanto a política de identidade quanto o globalismo seguem crescendo sem oposição estrutural, senão a de alguns movimentos e líderes nacionais”.

    Quero compartilhar o que me fez achar esse trecho de seu livro deveras interessante. Bragança não é um cristão protestante e nem um estudioso das profecias bíblicas, é um autêntico católico, mas o que ele está vendo no Brasil e no mundo corrobora em número, gênero e grau com o que diz a profecia bíblica sobre o governo global que se levantará na terra através de Satanás e dois homens misteriosos, a saber, o falso profeta e o anticristo.

    Diz a profecia que durante este período o anticristo e o falso profeta trarão paz à Terra (Dn 9.27), farão maravilhas em nosso meio (Ap 13.13) e serão louvados por todo mundo (Ap 13.8). No governo do Anticristo haverá um só poder econômico (Ap 13.16-17), todos serão marcados com uma identidade (sinal) com a finalidade de demonstrar pertencimento a determinado grupo (Ap 13.16). Quem ousar se levantar contra este governo, em palavras ou ações, será destruído e o povo “do bem” fará festa com a morte de quem não compartilha de seus ideais (Ap 11.7-10). Curioso não?

    É importante destacar que isso não se trata de teoria da conspiração ou qualquer outra coisa fantasiosa e especulativa. Não sabemos quem será o anticristo, nem o falso profeta. Não sabemos se eles já nasceram. Fato é que um dia eles aparecerão no palco da história do mundo, quem quiser enxergar, já se pode perceber que o campo está sendo preparado para a chegada triunfal (e temporária) da trindade malígna.

    Se a profecia bíblica fosse um filme de 2023, em seus minutos iniciais certamente estaria a seguinte frase congelada na tela: “Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência”.


    Este texto foi publicado originalmente em juliocelestino.com em 07 de setembro de 2023