Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada

Hoje é dia 22 de março de 2026. Acabei de ler o livro da primeira autora negra do Brasil a vender mais de 1 milhão de cópias de sua obra mais famosa: Quarto de Despejo.
O livro é um diário escrito por dona Carolina, no qual podemos conhecer um pouco do que era a favela do Canindé, em São Paulo, entre os anos de 1955 e 1960.

Carolina Maria de Jesus era negra, mãe solteira de três filhos e catadora de recicláveis. No livro, ela expõe sua luta diária, catando papel, ferro e outros materiais nas ruas para conseguir alimentar seus filhos. Além de sua vida pessoal, ela também registra os mais diversos acontecimentos na favela do Canindé. Mesmo vivendo em extrema pobreza, em um contexto no qual tudo parecia desfavorável, ela sonhava em ser escritora e ter seu livro publicado. Graças a Deus, conseguiu realizar esse sonho com muita garra e perseverança.

Infelizmente, sua vida não foi um mar de rosas após o sucesso de seu livro. Alguns anos depois, ela retornou à pobreza e morreu em um sítio em Parelheiros (SP), em decorrência de um problema de asma que sempre teve. Dona Carolina partiu em 13 de fevereiro de 1977, mas deixou seu legado como uma mulher verdadeiramente forte, empoderada e guerreira.

Não pretendo me delongar em sua biografia, pois sua história e seu merecido reconhecimento permanecem vivos até hoje. Quero iniciar esta reflexão comentando as passagens, frases e sentimentos expressos neste livro que mais me chamaram a atenção.



… Ontem ganhei metade de uma cabeça de porco no frigorífico. Comemos a carne e guardei os ossos. E hoje pus os ossos para ferver. E, com o caldo, fiz as batatas. Meus filhos estão sempre com fome. Quando passam muita fome, não são exigentes no paladar.” (pág. 30)

Este trecho me fez lembrar da dificuldade que é para os meus filhos comerem. É preciso dar remédio para que tenham apetite. Acredito que isso acontece porque temos tudo dentro de casa, mesmo não sendo ricos. É comum não darmos valor ao que sempre tivemos. Cresci acostumado com a despensa cheia. Apesar das dificuldades que minha mãe enfrentou para criar minha irmã e a mim sozinha, nunca deixou faltar nada em nossa mesa. Acho que é por esse motivo que ter a despensa cheia de arroz, feijão, farinha, macarrão e outros alimentos nunca me comoveu.

Ao ler esse trecho, pensei comigo: enquanto meus filhos precisam de remédio para comer bem, os filhos dessa pobre escritora (e tantos outros por este Brasil afora) desejam comer carne de meia cabeça de porco e batatas cozidas no caldo de ossos. Temos tantos motivos para agradecer a Deus que me sinto constrangido por não fazê-lo como deveria.

Lembrei-me de outro trecho em que Carolina escreveu, no dia 31 de maio de 1956: “Quando eu lavava o feijão, pensava: eu hoje estou parecendo gente bem — vou cozinhar feijão. Parece até um sonho!” (pág. 47). Quanta felicidade por um pouco de feijão.

No dia 7 de junho de 1956, ela registra um pensamento empírico: “Só quem passa fome é que dá valor à comida” (pág. 53). Deve ser por isso que jogamos tanta comida fora.



… Quando um político diz em seus discursos que está do lado do povo, que visa incluir-se na política para melhorar as nossas condições de vida, pedindo o nosso voto e prometendo congelar os preços, já está ciente de que, abordando este grave problema, vencerá nas urnas. Depois, divorcia-se do povo. Olha-o com os olhos semicerrados, com um orgulho que fere a nossa sensibilidade.” (pág. 38)

Ao ler este comentário da autora, logo me lembrei do que disse o pregador no livro de Eclesiastes: “não há nada novo debaixo do sol” (Ec 1.9). Esse trecho do diário de Carolina foi escrito em 20 de maio de 1956, mas parece que ela acabou de assistir ao jornal ou às propagandas do horário eleitoral e registrou seu parecer no caderno.

Em toda época de propaganda eleitoral, o discurso é o mesmo: muitos homens e mulheres tentam ganhar a confiança do povo, principalmente dos mais pobres, que geralmente acreditam que aquela pessoa que está ali na televisão, fingindo comer um pastel de feira, tem alguma preocupação com eles. Eu, pessoalmente, acredito que algumas almas altruístas realmente tenham tal preocupação, mas é uma preocupação de segunda instância. Em primeiríssima instância, a maioria está preocupada em fazer o seu próprio pé de meia.



O senhor Manuel apareceu dizendo que quer casar-se comigo. Mas eu não quero, porque já estou na maturidade. E, depois, um homem não há de gostar de uma mulher que não pode passar sem ler, que levanta para escrever e que se deita com lápis e papel debaixo do travesseiro. Por isso é que eu prefiro viver só para o meu ideal.” (pág. 49)

Aqui eu percebi o ideal de dona Carolina. Ainda que ela estivesse interessada em namorar e se casar, permanecia focada naquilo que realmente lhe importava: escrever. Fico pensando em quantas vezes já pensei: “escrever é algo muito difícil”, e também em quantas pessoas desistem sem sequer tentar. Logo nós, que, mesmo não sendo ricos, temos tudo! Imagine uma mãe de três filhos tendo que catar diariamente recicláveis e até comida no lixo para que seus filhos não morram de fome.

Carolina não desistiu e, mesmo enfrentando as agruras de sua vida cinzenta na favela, tirava tempo para escrever. Havemos de concordar que essa mulher era um verdadeiro diamante bruto de seu tempo.



… O que eu acho interessante é quando alguém entra num bar ou empório, logo aparece alguém que oferece pinga. Por que não oferece um quilo de arroz, feijão, doce etc.?” (pág. 72)

O que a autora comenta aqui é algo real, principalmente nas comunidades. De fato, é interessante perceber que, ao chegar a um bar, logo se oferecem pinga, cerveja e cigarros. Vivem, por assim dizer, em uma espécie de “comunhão” da boemia.

Lendo este trecho de Quarto de Despejo, lembrei-me do que o apóstolo Paulo escreveu no final do primeiro capítulo da carta aos Romanos: “[…] não somente as fazem, mas também consentem com os que as praticam.” (Rm 1.32)



15 de julho. Hoje é o aniversário de minha filha Vera Eunice. Eu não posso fazer uma festinha, porque isso é o mesmo que querer agarrar o sol com as mãos. Hoje não vai ter almoço, só jantar. (pág. 93)

6 de agosto. Fiz café para o João e o José Carlos, que hoje completa 10 anos. E eu apenas posso dar-lhe os parabéns, porque hoje nem sei se vamos comer. (pág. 106)

Confesso que essas passagens me emocionaram. Fiquei pensando o quanto deve ter sido triste assistir ao aniversário dos próprios filhos sem ter condições de providenciar nem mesmo o bolo mais simples. Na verdade, a necessidade era ainda mais básica, pois, no aniversário de Vera, não haveria almoço, apenas jantar. Já no de José Carlos, a dúvida era se conseguiria alguma comida ou não.

Mais uma vez penso: como somos afortunados! Quantas vezes ficamos tristes por não termos condições de fazer uma grande festa para os nossos filhos, com cerimoniais elaborados, muita comida e recreação, e olhamos com desprezo para aquele bolo simples, salgados, doces e refrigerante em nossa casa. Refletindo sobre isso, lembrei-me de mais um texto bíblico que diz: “Bem está, bom e fiel servo. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei” (Mt 25.23). Provavelmente, essa murmuração silenciosa da tristeza seja o sinônimo da expressão popular “reclamar de barriga cheia”. Creio que este seja um dos motivos de muitas pessoas não prosperarem.

O livro de Carolina tem muitas passagens marcantes que eu poderia continuar citando neste texto; porém, deixo para a curiosidade do leitor que ainda não leu a obra o desejo de conhecê-la. Finalizo com um dos textos mais bonitos de dona Carolina em Quarto de Despejo:

… Eu dormi. E tive um sonho maravilhoso. Sonhei que eu era um anjo. Meu vestido era amplo, de mangas longas, cor-de-rosa. Eu ia da Terra para o céu e pegava as estrelas nas mãos para contemplá-las, conversar com elas. Elas organizaram um espetáculo para homenagear-me. Dançavam ao meu redor e formavam um risco luminoso.
Quando despertei, pensei: eu sou tão pobre. Não posso ir a um espetáculo, por isso Deus envia-me estes sonhos deslumbrantes para minha alma dolorida. Ao Deus que me protege, envio os meus agradecimentos.
” (pág. 120)



Referência da edição utilizada:
Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada — Editora Ática, 10ª edição, São Paulo, 2014.


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