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  • MERGULHADO EM ÓLEO FERVENTE – A ORIGEM DA HISTÓRIA


    Hoje, eu estava escrevendo um comentário sobre Apocalipse 1.9 e lembrei de uma história sobre o apóstolo João que ouvi no seminário de teologia. A história, lenda ou tradição, fala de um momento em que o apóstolo João foi condenado a ser mergulhado em um caldeirão de óleo fervente e, por milagre, retirado ileso.

    O contexto histórico diz que João foi convocado a Roma para ser julgado devido à Palavra de Deus. Na época, o governador de Roma era Tito Flávio Domiciano. Diante das autoridades e falsas testemunhas que contavam mentiras acerca da vida e doutrina cristã, João foi condenado à morte. Um agravante da situação é que Roma era um império politeísta e o governador Domiciano se autodenominava “Dominus ac Deus” (Senhor e Deus em latim). Logo, a condenação do apóstolo João era certa, pois, assim como os cristãos de hoje, ele professava sua fé e adoração ao único e verdadeiro Deus.

    Após refletir pela milésima vez sobre essa emocionante história, questionei qual era a fonte escrita mais antiga que a corrobora. Uma pesquisa superficial nas ferramentas de pesquisa disponíveis, como Google e Bing, não encontra uma resposta para a pergunta. Aparentemente, no conteúdo de estudiosos de língua portuguesa que aparecem nas primeiras páginas de pesquisa, não existe tal informação. Então pesquisei em inglês. Graças a Deus, encontrei um tesouro escrito entre o segundo e terceiro século por Tertuliano chamado “The Prescription Against Heretics” (A Prescrição Contra os Hereges). Tertuliano cita o episódio da condenação de João de maneira singela neste livro. Agora, não é necessário mais dizer que a história é apenas uma tradição oral, mas também escrita.

    Segue o trecho do livro de Tertuliano que menciona a história da condenação de João:

    Capítulo 36. As Igrejas Apostólicas a Voz dos Apóstolos. Que os hereges examinem suas reivindicações apostólicas, em cada caso, indiscutíveis. A Igreja de Roma é duplamente apostólica; sua primitiva eminência e excelência. A heresia, como uma perversão da verdade, está ligada a ela.

    Vinde agora, vós que quereis satisfazer uma curiosidade melhor, se quiserdes aplicá-la ao negócio da vossa salvação, percorrei as igrejas apostólicas, nas quais os próprios tronos dos apóstolos ainda são preeminentes nos seus lugares, nos quais os seus próprios escritos autênticos são lidos, pronunciando a voz e representando o rosto de cada um deles separadamente. Muito perto de ti está a Acaia, na qual se encontra Corinto. Como não estás longe da Macedónia, tens Filipos; (e aí também) tens os Tessalonicenses. Como podes passar para a Ásia, tens Éfeso. Além disso, como estais perto da Itália, tendes Roma, de onde vem até mesmo para as nossas mãos a própria autoridade (dos próprios apóstolos). Como é feliz a sua igreja, sobre a qual os apóstolos derramaram toda a sua doutrina com o seu sangue! Onde Pedro suporta uma paixão como a do seu Senhor! Onde Paulo ganha a sua coroa numa morte como a de João [Batista], onde o apóstolo João foi primeiro mergulhado, ileso, em óleo a ferver, e daí remetido para a sua ilha-exílio! Vejam o que ela aprendeu, o que ensinou, a comunhão que teve até com as (nossas) igrejas em África! Ela reconhece um só Senhor Deus, Criador do universo, e Cristo Jesus (nascido) da Virgem Maria, o Filho de Deus Criador; e a Ressurreição da carne; a lei e os profetas ela reúne num só volume com os escritos dos evangelistas e apóstolos, dos quais bebe na sua fé. Isto ela sela com a água (do batismo), reveste com o Espírito Santo, alimenta com a Eucaristia, anima com o martírio, e contra uma disciplina assim (mantida) ela não admite quem a contradiga. Esta é a disciplina que eu já não digo que predisse que as heresias viriam, mas da qual elas procederam. Contudo, não eram dela, porque se opunham a ela. Até mesmo a tosca azeitona selvagem surge do germe da frutífera, rica e genuína azeitona; também da semente da mais suave e doce figueira nasce a vazia e inútil figueira selvagem. Da mesma forma, as heresias também vêm de nossa planta, embora não sejam de nossa espécie; (elas vêm) do grão da verdade, mas, devido à sua falsidade, elas têm apenas folhas selvagens para mostrar.”



    Referências

    TERTULIANO. As obras completas de Tertuliano (33 livros): Com links cruzados para a Bíblia. Edição do Kindle. Amazon.com.

  • DEPRESSÃO: CAUSA, SINTOMAS E ESPERANÇA


    “Não estejais inquietos por coisa alguma; antes as vossas petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus pela oração e súplica, com ação de graças. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus.” – Filipenses 4.6-7, ACF


    Depressão e Suicídio: entender, superar e ajudar. Este é o tema da breve palestra que foi ministrada aos jovens e adolescentes da Igreja Assembleia de Deus de Maruípe no dia 18 de setembro de 2020. Grande parte do conteúdo foi retirado do livro de Zack Eswine, intitulado “A Depressão de Spurgeon”, lançado em 2015 pela editora Fiel.

    O QUE É DEPRESSÃO?

    Segundo a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), a depressão é “um transtorno mental caracterizado por tristeza persistente e pela perda de interesse em atividades que normalmente são prazerosas, acompanhadas da incapacidade de realizar atividades diárias […]”. Conforme a OPAS, as pessoas com depressão podem apresentar vários sintomas como perda de energia, mudanças no apetite, aumento ou redução do sono, ansiedade, perda de concentração, indecisão, inquietação, sensação de que não valem nada, culpa ou desesperança, e pensamentos de suicídio ou de causar danos a si mesmas. É importante destacar que a organização afirma que a depressão pode afetar qualquer pessoa, e isto não se trata de um sinal de fraqueza ou, popularmente, de “frescura”.

    A depressão também pode ser ilustrada de forma simplista com as placas de “depressão na pista”. Essas placas ilustram bem como funciona a depressão na vida de alguém, pois, quando estamos dirigindo um veículo e nos deparamos com o alerta de “depressão na pista”, sabemos que haverá um desnível para baixo na estrada. Assim é na vida de quem sofre de depressão: em determinado momento, há um desnível para baixo.



    UM DADO INTERESSANTE SOBRE A DEPRESSÃO

    Um dado interessante é que a depressão só foi reconhecida como doença em meados do século XIX. De acordo com uma matéria publicada no Jornal da USP, somente em 1952 foi lançado o primeiro Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), elaborado pela Associação Americana de Psiquiatria. Porém, este mal assola o ser humano há muito mais tempo do que possamos imaginar.


    QUAIS SÃO AS CAUSAS DA DEPRESSÃO?

    De acordo com o livro de Zack Eswine, a depressão pode surgir na vida de uma pessoa através de três fatores: biológico, circunstancial e espiritual.

    Fator Biológico – Conforme o site do Ministério da Saúde, as causas da depressão podem ser eventos vitais, genéticas e bioquímicas. O pastor Charles Spurgeon também reconhecia que a depressão, em alguns casos, é causada pelo fator biológico, afirmando que “algumas pessoas são constitucionalmente tristes. Às vezes somos marcados pela melancolia desde o momento de nosso nascimento”. Por este motivo, é necessário que nós, cristãos, tenhamos a consciência de que nem tudo na vida se trata de algo espiritual; pode ser doença. A OPAS afirma que a depressão é um transtorno tratável por meio de psicoterapia, medicamentos antidepressivos ou a combinação de ambos.

    Fator Circunstancial – Como foi citado acima, o Ministério da Saúde afirma que a depressão pode ser causada por eventos vitais, ou como preferimos abordar nesta palestra, causas circunstanciais. O fator circunstancial indica que uma pessoa acometida de depressão não chega a esta situação devido a sua natureza ou temperamento melancólico, eventos como a perda de um familiar, demissão, problemas financeiros, traição de um cônjuge, problemas familiares, descontentamento com o próprio corpo, sonhos frustrados dentre várias outras circunstâncias podem causar depressão. Este mal surge até mesmo após um momento lindo como o nascimento de uma criança, conhecida como depressão pós-parto. Sobre isto, Eswine diz que o fator circunstancial nos ensina que: 1) a fé na terra não é nem escapismo, nem paraíso, 2) não equiparamos benção espirituais com comodidade circunstancial e 3) nós que não sofremos depressão circunstancial devemos aprender o cuidado pastoral para com aqueles que sofrem.

    Fator Espiritual – Eswine descreve que “essa forma de depressão aflige pessoas, a qualquer momento, com terrores conscientes e irreversíveis acerca do desagrado de Deus. Ou ainda, aqueles que, sofrendo esse tipo de depressão, usam atos extremos de devoção religiosa a ponto de machucarem a si próprio e a outros”. Para a pessoa com este tipo de depressão, Deus tem amor, paz e graça para os outros, menos para ela. Também acredita que devido a algum pecado ou qualquer outro motivo, Deus não a ama mais, está desamparada, esquecida, etc. Segundo Eswine, alguns pregadores acabam piorando a situação do deprimido, presumindo que toda depressão se trata de um pecado. Em alguns casos, o pregador peca por associar a prosperidade financeira e a saúde com sua fidelidade a Jesus. Por vezes, um servo ou uma serva do Senhor que passa por problemas circunstanciais, se vê de frente a uma mensagem que afirma que se formos fiéis a Jesus, seremos abundantemente ricos e saudáveis. Por essas e outras, o servo de Jesus que passa por problemas na área da saúde ou financeiro, acaba acreditando que Deus o abandonou em seus infortúnios, e isso não é verdade! Sobre isto, escreveu o Pregador de Eclesiastes: “Tudo sucede igualmente a todos; o mesmo sucede ao justo e ao ímpio, ao bom e ao puro, como ao impuro; assim ao que sacrifica como ao que não sacrifica; assim ao bom como ao pecador; ao que jura como ao que teme o juramento”. O autor de Eclesiastes estava falando sobre o que chamamos de “graça comum”, ou seja, a graça que Deus disponibiliza a todos! De forma simples, o Pregador estava dizendo que o mesmo sol que brilha sobre a igreja, brilha sobre um presídio; e a mesma chuva que cai sobre uma casa de família também cai sobre um bar. É preciso ser cauteloso com o uso da língua, até mesmo na hora de testemunhar as bençãos de Deus em nossas vidas. Dentro do fator espiritual, também existe a possibilidade de uma influência maligna, e segundo Eswine, “quando nos deparamos com este antigo inimigo, o diabo, resta apenas uma coisa que podemos e devemos fazer: lutar!”. Usando a armadura espiritual descrita em Efésio capítulo 6 podemos vencer! Eswine diz que “nosso jeito de lutar é nos escondermos atrás de Jesus que luta por nós. Nossa esperança não é a ausência de nosso pesar, ou sofrimento, ou dúvida, ou lamento, mas a presença de Jesus”.


    COMPORTAMENTOS QUE ATRAPALHAM

    Existem alguns comportamentos que, mesmo com a melhor das intenções, podem piorar a situação de quem sofre com depressão. Frases como “pare de bobagem, a vida é bela, sacode a poeira e recupera-se!” e “para de frescura!”, são como empurrões que lançam o sofredor ainda mais fundo no mar da angústia. Textos bíblicos dispensados de qualquer maneira também não servem de ajuda para o aflito, às vezes pode até piorar a situação, fazendo-o acreditar que se não está sentindo nada lendo trechos da Palavra, Deus o abandonou. O desprezo e a indiferença também são comportamentos que atrapalham, geralmente, amigos e familiares acabam desprezando a dor do deprimido dizendo coisas como: “seu problema nem é tão grave assim, para mim você está sofrendo à toa”, ou pensando: “daqui a pouco passa, para que vou me preocupar?”. É preciso termos cautela e amor para com os aflitos e evitar tais julgamentos para não sermos as mãos que jogam gasolina em cima do fogo da melancolia tentando apagá-lo.


    SEGUINDO O EXEMPLO DE DEUS

    O primeiro livro dos Reis, capítulo 19, nos mostra uma boa forma de tratar alguém que sofre neste pântano sombrio. O texto descreve o momento em que o profeta Elias sofre uma profunda depressão. Mesmo Deus tendo realizado diversos milagres e maravilhas na vida deste homem, ao ser ameaçado de morte por Jezabel, esposa do rei, ele fugiu temendo pela sua vida e clamou a Deus pela sua morte quando suas forças acabaram, mas, o Senhor não o abandonou.

    Finalizo este esboço mostrando a você, caro leitor, como é importante aprendermos com Deus a maneira correta de lidar com pessoas depressivas:

    • Elias fugiu para o deserto, se abrigou debaixo de um zimbro, pediu a morte e adormeceu. Isso nos mostra, em primeiro lugar, que o aflito precisa de descanso.
    • Em seguida, um anjo o alimentou com pão e água e ele dormiu de novo. Este gesto nos ensina que nosso tratamento para com os angustiados demanda tempo, amor e cuidado. É preciso ter paciência para alimentá-los com amor.
    • Após descansar mais um pouco, o anjo repetiu todo o gesto de amor, e isso renovou as forças do profeta para continuar na caminhada.

    Amor, paciência e cuidado são palavras-chave no cuidado de Deus para com Elias, e é assim que devemos tratar os que sofrem com a depressão. Que Deus nos abençoe e nos dê estratégias para ajudar a quem precisa. E se você que está lendo sofre deste mal, procure ajuda médica, converse com um amigo de confiança e, acima de tudo, confie em Deus. Você não está sozinho(a) nessa!



    Este texto foi escrito originalmente 16 de setembro de 2020

  • ESTENDER O CULTO: QUANDO É APROPRIADO?


    Pela graça e misericórdia do Senhor Jesus Cristo, tive a oportunidade de pregar sua palavra em diversas ocasiões. Alguns irmãos brincavam comigo, dizendo que eu demorava demais para terminar a oração, então nunca me pediam para orar antes das refeições.

    Brincadeiras à parte, sempre tive a preocupação de cumprir o horário das reuniões eclesiásticas, pois a igreja congrega pessoas de diferentes profissões e afazeres. Por exemplo, um casal de feirantes que acorda às três da madrugada de domingo para preparar sua barraca de legumes na avenida central. Com muito zelo, passam o dia trabalhando sob o calor e correm para a igreja com seus filhos ao anoitecer. Ao lado do casal de feirantes, há um jovem solteiro que mora sozinho e trabalha em escala 12×36; ele foi o pregador escalado para a noite. Ao lado do jovem pregador, há uma mãe solteira que, após um dia de trabalho, deixou seus filhos com um parente, prometendo voltar para buscá-los em duas horas, pois precisava buscar uma bênção na casa do Pai. Para surpresa de todos, na hora da Palavra, o jovem pregador descansado decidiu seguir o exemplo de Esdras e Paulo naquela noite. Explico:

    Um dia, um escriba chamado Esdras leu os cinco primeiros livros da Bíblia em praça pública desde o amanhecer até meio-dia (Ne 8.3). Dias depois, ele participou de um culto que teve seis horas de leitura da Palavra seguidas de seis horas de adoração, totalizando doze horas de culto (Ne 9.3)!

    Outro dia, o apóstolo Paulo pregou tanto que um jovem sentado na janela cochilou, caiu e morreu (era meia-noite). Graças a Deus, a história não teve um final triste, pois o Espírito Santo ressuscitou o jovem pela fé de Paulo. Após o ocorrido, Paulo continuou pregando até o amanhecer (At 20.7-11).

    Diante dos exemplos de Esdras e Paulo, posso dizer que é válido estender um culto por tempo indeterminado? Creio que este comportamento não deve se tornar um costume por quatro motivos:

    1. No tempo de Esdras e Paulo, ou começaram o culto com um horário determinado para terminar, ou não prometeram hora alguma. Certamente, os irmãos presentes sabiam de antemão se o culto tinha hora marcada para acabar.
    2. Quando falamos de Esdras (458 a.C.) e Paulo (10 d.C.), estamos falando de cenários com mais de dois mil anos. A organização das reuniões e as ocupações das pessoas eram completamente diferentes das de hoje. Um trabalhador assalariado com pais doentes em casa e filhos pequenos não poderia participar de cultos de doze horas como o de Esdras, nem ouvir uma pregação que começou num dia e terminou no outro, como a de Paulo.
    3. Quando estabelecemos um horário para o culto, isto se torna um compromisso com os membros e visitantes. Se convidarmos parentes e amigos para um culto que deveria terminar às 21:30, mas se estende até a meia-noite, não estamos cumprindo nossa palavra e violamos o princípio da ordem (1Co 14.40).
    4. Por uma questão de empatia pelo próximo. Às vezes, sou um jovem solteiro que acorda ao meio-dia no domingo, mas meu irmão é um feirante que acorda de madrugada para trabalhar. Ninguém tem a mesma vida que eu, e não sei quais são as tarefas e dificuldades dos meus ouvintes no culto. Praticar empatia pode ser uma forma de amar o próximo (Mt 22.39).

    Resumindo, há algum problema em cultos sem hora para acabar? Nenhum! Desde que os convidados saibam que naquela igreja é assim que acontece. Caso contrário, acredito que devemos cumprir o princípio da ordem (1Co 14.40).


    Este texto foi publicado originalmente em juliocelestino.com em 08 de fevereiro de 2024

  • Sobrevivendo no Inferno – Uma Reflexão Cristã


    “Deus fez o mar, as árvores, as crianças, o amor. O homem me deu a favela, o crack, a trairagem, as armas, as bebidas, as prostitutas. Eu? Eu tenho uma bíblia velha, uma pistola automática e um sentimento de revolta. Eu estou tentando sobreviver no inferno.” – Brown 


    APRESENTAÇÃO

         O texto a seguir é uma breve reflexão da primeira faixa do disco Sobrevivendo no Inferno dos Racionais Mc’s através de uma cosmovisão cristã. Sua estrutura está dividida em cinco pontos: 1) Daquilo que Deus deu; 2) Daquilo que o homem deu; 3) Daquilo que eu tenho; 4) Da condição e 5) Considerações finais e verdades fundamentais. Os texto bíblicos utilizados são da tradução bíblica Almeida Corrigida Fiel. Boa leitura! Que Deus te abençoe!


    DAQUILO QUE DEUS DEU

    Essa introdução é a uma transcrição da faixa “Gênesis” contida no álbum “Sobrevivendo no Inferno” do grupo de rap nacional Racionais Mc’s, lançado em 1997. Boa parte das músicas do Racionais Mc’s me fazem refletir sobre o conhecimento epistemológico incrível que é adquirido através da experiência de vida. Com a frase “fale o que quiser, o que é, é!” [1], Pedro Paulo Soares Pereira (Brown) acerta em cheio na questão de falar do que se conhece na prática.

    No início de um dos álbuns mais relevantes do grupo, Brown inseriu uma verdade que para muitos se tornou relativa, a saber: “no princípio criou Deus os céus e a terra”. Aqui ele confessa sua fé em um único Criador, que através da sua Palavra criou tudo aquilo que existe na natureza. Brown enumera quatro coisas de forma resumida para transmitir a mensagem de que tudo o que Deus criou é perfeito, justo e bom. O belo e imenso mar com toda sua variedade de vida; as árvores que geram o ar que respiramos. E o que dizer das crianças? É oportuno reproduzir o que Deus diz sobre elas: “… da boca dos pequeninos e das criancinhas de peito tiraste perfeito louvor” (Mt 21.16); “em verdade vos digo que, se não vos fizerdes como meninos, de modo algum entrarão no reino dos céus” (Mt 18.3). No primeiro versículo, Jesus declarou que dos pequeninos e das crianças de peito se pode tirar o perfeito louvor. Este é um texto frequentemente lembrado ao ouvir o som de uma criança cantando louvores à Deus, porém, como podemos assimilar uma criança de peito ao perfeito louvor? As respostas dos teólogos podem ser variadas, porém, quero expor minha própria percepção sobre tal louvor. O salmo 19.1-6 nos ensina que a natureza louva ao Senhor. Assim como o culto da natureza, nada poderia ser mais natural que a união de um homem e uma mulher para gerar uma vida!

    O homem moderno está dotado de capacidade para criar coisas incríveis como computadores, smartphones, aeronaves, carros e mais uma infinidade de aparatos tecnológicos, ele, porém, com todo seu conhecimento e tecnologia é incapaz de criar uma vida humana, a não ser que esta seja gerada pelas normas preestabelecidas por Deus: a união entre homem e mulher. Em suma, a criança de peito é uma dádiva milagrosa de Deus para o homem; seu respirar despreocupado e dependente dos pais constitui-se naturalmente um perfeito louvor ao criador dos céus e da terra, pois somente Ele é capaz de conceder-nos este dom. De alguma forma, tão importante quanto o mar e as árvores, Brown cita as crianças como obra-prima de Deus. Por fim, ele cita o amor que Deus nos deu, afinal, “quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor” (1Jo 4.8). Paulo afirma em sua carta: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria” (1Co 13.1,2).

    O amor é tudo! Feliz é quem ama! Disse o cantor Ozéias de Paula [2]. É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, cantou Renato Russo [3].  Seja norte ou sul, céu ou  terra, o amor permanece perfeito, belo, humilde e necessário. O amor de Deus é altruísta, capaz de entregar o bem mais precioso pela vida de outrem, e foi exatamente isso que ele fez há aproximadamente 2.000 anos atrás; “Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu filho unigênito para que todo aquele que nele crer não pereça, mas tenha vida eterna” (Jo 3.16). Este mesmo Deus deixou um mandamento de amor para a coroa da sua criação, a saber: “amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo” (Lc 10.27). Com isto, concluo que pelo amor, Deus criou tudo perfeito para sua glória e nosso deleite, mas, nas palavras de Brown, o homem nos deu “outras” coisas.


    DAQUILO QUE O HOMEM DEU

    O homem me deu a favela. De 2015 a 2021, eu tive o privilégio de trabalhar na segurança patrimonial do aeroporto de Vitória/ES. Do pátio de manobras de aeronaves eu admirava uma paisagem que me trazia profunda reflexão. No lado esquerdo da paisagem havia um conglomerado de prédios que agregam bairros como Jardim Camburi, Praia do Canto, Jardim da Penha e praia Camburi; todos equipados com infraestrutura impecável. Do lado direito da paisagem, havia um outro conglomerado, porém, de morros que abrigam bairros de periféricos como São Benedito, Bairro da Penha, Bonfim, Consolação, Floresta e etc. Todos de infraestrutura precária. Era impressionante ver com os meus próprios olhos, todos os dias, durante seis anos, que numa mesma cidade que carrega “vitória” em seu nome  existem dois povos distintos, dois grupos com contextos completamente diferentes. A criança da favela, como eu fui, vive num modo específico de vida que as pequeninas de bairro nobre desconhecem. Ver políciais prendendo seus conhecidos de tempos em tempos é algo absolutamente normal para a criança periférica; ela também aprende que deve sair de casa com o documento no bolso para que facilite o trabalho da polícia caso seja abordada numa “batida” a caminho da padaria. Ouvir tiros, fogos dia e noite tornou-se algo comum; assim como era corriqueiro assistir a cena de uma concentração de pessoas do bairro em volta de um corpo ensanguentado no chão da rua. Isso acontecia porque periodicamente recebíamos a notícia: “mataram alguém ali na rua de baixo!”. Os moradores geralmente iam conferir se era um parente ou conhecido. Hoje a fatalidade permanece a mesma, porém, sabemos quem é “a bola da vez” através  das redes sociais. Tais características periféricas são amplamente desconhecidas da civilizada e refinada parte esquerda da paisagem. As crianças dessa parte da cidade estão sendo bem preparadas em seus sofisticados colégios particulares, cursos de inglês com intercâmbio, Ifood, Mclanche Feliz, passeios e viagens; rotina totalmente desconhecida dos pequenos periféricos. Toda essa comparação é para acentuar as características do ambiente chamado de favela, moradia que o homem nos deu, símbolo da desigualdade social urbana, “terra onde os meninos viram homem mais cedo”, disse um MC [4].

    O Crack. Atinge os ricos, mas, principalmente a periferia. Milhares de famílias sofrem com a presença de um parente viciado nesta droga. O dependente faz de tudo para saciar seu desejo de usá-la, neste caso, cabe a afirmativa de Edi Rock: “do que o ser humano é capaz, você não acredita” [5].

    A trairagem. O inimigo oculto é mais perigoso do que o anunciado. A trairagem sempre vem de uma pessoa que você não espera, alguém que você conta como um dos teus; caso contrário, seria apenas um ataque inimigo. Numa guerra podemos ser atingidos de pelo menos três formas diferentes: pelo inimigo (diretamente), ser atingido por um ataque a esmo ou ser atacado por um aliado. De todos os ataques possíveis, sem dúvida, o mais dolorido para o corpo e  alma é o fogo amigo; essa espécie de ataque atinge profundamente as duas dimensões de nosso ser. Há muito tempo atrás, Davi, rei de Israel, experimentou essa dor quando registrou o Salmo 55.12-14 declarando: “Não é meu inimigo que me insulta; se fosse eu poderia suportar. Não são meus adversários que se levantam contra mim; deles eu poderia me esconder. Antes, é você, meu igual, meu companheiro e amigo chegado. Como era agradável a comunhão que desfrutávamos quando acompanhávamos a multidão à casa de Deus”. Até o homem mais importante que já pisou nesta terra desde sua fundação, também sofreu com o que a faixa chama vulgarmente de trairagem. Jesus Cristo aos trinta anos de idade iniciou seu ministério evangelístico, selecionando doze discípulos que após sua morte se tornaram apóstolos. O sucesso de Jesus fez com que os líderes religiosos de Israel tornassem teus vitais inimigos, tais homens procuraram matá-lo por diversas vezes, até que num dia fatídico, seu discípulo e tesoureiro, Judas Iscariotes, o vendeu para seus algozes por apenas 30 moedas de prata. Ao ter sua oração no Getsêmani interrompida abruptamente pelos soldados e sacerdotes que vieram prendê-lo, Jesus avista seu amigo entre seus inimigos: “E o que o traía tinha-lhes dado um sinal, dizendo: O que eu beijar é esse; prendei-o. E logo, aproximando-se de Jesus, disse: Eu te saúdo, Rabi; e beijou-o. Jesus, porém, lhe disse: Amigo, a que vieste? Então, aproximando-se eles, lançaram mão de Jesus, e o prenderam.” (Mt 26.48-50). Após isto, você certamente conhece a história. Podemos concluir que nem Jesus, Davi, Brown, eu e você estamos livres e seguros da trairagem que, como diz a introdução, “o mundo nos deu”, não Deus.

    As armas. Yin e Yang, segundo a filosofia chinesa, é o símbolo de duas energias opostas e complementares. De acordo com a introdução, as armas também nos são oferecidas pelo homem, e semelhante ao Yin e Yang, nelas há uma dualidade entre bem e mal. Trocando em miúdos, elas podem servir tanto para o bem (defender-se de uma injusta agressão) quanto para o mal, porém, em ambos os lados, seus usuários precisam recorrer à violência para atingir o fim desejado. Até nos tempos mais remotos do Brasil, quando essa terra fértil era chamada de Abia Yala, o mesmo arco e flecha que era usado para caçar o alimento da família também era utilizado para assassinar índios de tribos rivais em eventuais guerras. Continuo acreditando que elas podem ser usadas tanto para o bem quanto para o mal, porém, num mundo pós-iluminismo onde tudo (ou quase tudo) é relativo, resta-nos definir em particular interpretação aquilo que é bom e o que é mau, por exemplo, no inferno de Brown (periferia), muitos favelados portam suas armas seguindo avante em aventuras de um verdadeiro Grand Theft Auto Brazil, assaltando e cometendo latrocínio procurando saciar o desejo incontrolável da vaidade hedonista pensando estarem fazendo o bem; e isso não é apenas na visão própria dos sujeitos, mas também no conceito de alguns psicopatas de palanque canhoto-político com diploma acadêmico. A verdade é que não há verdade absoluta num mundo prostrado aos pés do relativismo moral, mesmo sabendo os honestos que tal sentença já se constitui naturalmente uma verdade quando proferida por seus defensores. Seja qual fors sua opinião, fato é que o bem e o mal existem e as armas também; como reza a introdução,  “o homem nos deu”, não Deus.

    As bebidas. De acordo com o Instituto Nacional do Câncer, a ingestão de bebidas alcoólicas é um fator de risco gravíssimo para o surgimento de vários tipos de doenças. Quanto maior é o tempo de consumo, mais chances o indivíduo tem de sofrer com câncer de boca, laringe, estômago, dentre outros. A bebida gera lesões no fígado e afeta o cérebro, além da mudança de comportamento [6]. Grande parte da população brasileira já sofreu ou tem conhecimento de pessoas que têm ou tiveram alguma experiência frustrante com o álcool agindo no seio da família. Brigas, abusos, separações, mágoas, assassinato, acidentes e etc. Mesmo diante desse cenário, vemos que é difícil resistir ao apelo midiático pró-álcool. Isso porque depois dos famosos e banidos comerciais de cigarros, os comerciais de cerveja são os mais populares e divertidos nos meios de mídia existentes. Um estudo realizado pela pediatria do Hospital Universitário da USP apontou que 60% dos adolescentes, na faixa dos 17 anos, já faz uso de bebidas alcoólicas. De acordo com a pesquisa, o consumo começa por volta dos 10 anos [7]. Outra informação importante foi divulgada pela Organização Mundial da Saúde: mais de 320 mil pessoas entre 15 e 29 anos morrem ao redor do mundo, anualmente, de causas relacionadas ao consumo de álcool [8].  A Palavra de Deus nos adverte que “o vinho é zombador e a bebida fermentada provoca brigas; não é sábio deixar-se dominar por eles” (Pv 20.1). Em outra passagem, o apóstolo Paulo adverte: “e não vos embriagueis com vinho em que há dissolução, mas, enchei-vos do Espírito.” (Ef 5.18). Se embriagar-se com vinho causa tanta destruição para humanidade anualmente, imagine como seria se ao invés disso todos fossem cheios do Espírito Santo? É o desejo de Deus!

    Mas, voltando à realidade, conforme disse Brown, o homem nos deu a bebida, produto da metáfora da vinha de Noé. Segundo a lenda contida no Midrash dos judeus, Noé plantou uma vinha e o diabo teria se aproveitado da situação matando quatro animais, um cordeiro, um leão, um porco e um macaco, derramando o sangue deles nas raízes da vinha. O efeito do álcool no nosso cérebro seria, segundo o Midrash, resultado disso. Um pouco de vinho nos deixa como um cordeiro: mais inocentes, mais dóceis, mais amistosos. Ao bebermos um pouco mais, nos sentimos fortes como um leão, mais audaciosos e orgulhosos. Se formos um pouco mais além da conta, agimos como porcos, rolando no chão. O exagero, em compensação, faz com que nos comportemos como macacos fazendo todo tipo macaquices sem nenhum juízo.

    As prostitutas. Nas palavras de Edi Rock: “qual é a fita, a treta, a cena? A gente reza, foge e continua sempre com os mesmos problemas. Mulher e dinheiro tá sempre envolvido, vaidade ambição, munição pra criar inimigo” [9]. “Mulher e dinheiro, dinheiro e mulher, quanto mais você tem, muito mais você quer”, diz Ice Blue em Estilo Cachorro.  

    Se Jesus Cristo considerou o dinheiro um deus (Mamom), com certeza as prostitutas são suas sacerdotisas sacras. Homens notáveis, ricos e poderosos caíram em desgraça por entregarem-se de corpo e alma no altar da idolatria sexual. No livro de Números encontramos a história de que certa vez, numa campanha pela terra prometida (Canaã), o exército israelita encontrava-se acampado nas campinas de Moabe, além do Jordão, na altura de Jericó. Um homem chamado Balaque, rei dos Moabitas, com medo de ser destruído pelos israelitas, contratou um profeta chamado Balaão para amaldiçoar o povo de Israel a fim de que eles perdessem a benção de Deus sobre suas vidas e consequentemente as batalhas. Por três vezes Balaão tentou amaldiçoar Israel, porém de sua boca apenas saiam palavras de benção.  Vendo que era impossível amaldiçoar aquele povo, Balaão aconselhou Balaque a seduzir aqueles homens com mulheres sensuais e promíscuas; tiro certeiro que fez com que 24 mil soldados israelitas morressem de praga por terem se entregado no altar da idolatria sexual virando as costas para Deus (Nm 22-24). Mais de três mil anos se passaram e o cenário concernente a isto continua o mesmo, quem não conhece algum homem ou mulher que perdeu sua vida pelo mesmo motivos sexuais? É importante salientar que o termo original usado na faixa dos Racionais é “puta”, não significando essencialmente a profissional do sexo, mas, um modo antiquado e machista de rotular as mulheres que resolvem se comportar sexualmente como os homens de maneira geral sempre se comportaram: se eu quero, faço, para meu prazer. A palavra “puta” foi substituída por “prostituta” para não escandalizar os leitores de ouvidos sensíveis.


    DAQUILO QUE EU TENHO

    Uma bíblia velha. Dentre tudo aquilo que Deus e o homem o deu, Brown afirma ter em sua posse uma bíblia velha. O que é a bíblia? Segundo o missionário  Eurico Berguistén (1913-1999), Deus ordenou a Moisés: “Escreve isto isto para memória num livro” (Êx 17.14). Essa mesma ordem foi repetida ao longo de 1.600 anos para cerca de 45 homens escolhidos por Deus, e assim surgiu “o livro do Senhor” (Is 34.16), a “Palavra de Deus” (Ef 6.17; Mc 7.13), as “Santas Escrituras” (Rm 1.2), que nós chamamos de bíblia [10]. Brown chama sua bíblia de velha pelo estado ou talvez, pelo tempo de aquisição, sobre isso, acertadamente Billy Graham afirma que a bíblia é mais atual do que o jornal de amanhã; D. L. Moody complementa dizendo que as Escrituras não foram dadas para aumentar nosso conhecimento, mas para mudar nossa vida; e Charles Spurgeon finaliza dizendo que a bíblia que cai em pedaços é de alguém que está inteiro. Nem tudo o que é novo é bom, há coisas que são como o vinho, quanto mais antigo, melhor. Sobre isto, a bíblia mostra sua utilidade em trazer paz e esperança para nossas vidas, ainda que seus escritos sejam milenares. A vida é efêmera diante da Palavra de Deus, seja o  livro velho ou não; o apóstolo Pedro registrou em sua carta: “Porque Toda a carne é como a erva, E toda a glória do homem como a flor da erva. Secou-se a erva, e caiu a sua flor; Mas a palavra do Senhor permanece para sempre. E esta é a palavra que entre vós foi evangelizada.” (1Pe 1.25,26).  Jesus Cristo também deixou bem claro que até mesmo os céus e a terra são perecíveis diante da eterna Palavra de Deus: “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar.” (Mt 24.35). Uma bíblia velha em mãos dispostas e humildes pode revolucionar o mundo inteiro com a chama da sua verdade eterna.

    Uma pistola automática. De modo figurado, a Palavra de Deus é chamada de espada e escudo na bíblia, pois ela serve tanto para atacar quanto para se defender. Fato é que as armas e armaduras vindas de Deus são espirituais, porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais (Ef 6.12). Uma pistola automática assim como qualquer outra arma de fogo também pode ser usada tanto para atacar quanto para se defender, porém, ela jamais terá utilidade para salvar a alma de um pecador. Ela também é inútil na batalha contra os principados, potestades e contra o príncipe das trevas nos lugares celestiais. Contudo, Brown não estava vivendo especificamente nos lugares celestiais, na verdade, ele e seus pares estavam tentando “sobreviver no inferno”, sejam seus métodos de sobrevivência moralmente corretos ou não.

    Um sentimento de revolta. A terceira faixa do álbum Sobrevivendo no Inferno (1997) nos faz entender um pouco sobre a origem deste sentimento de revolta quando afirma que 60% do jovens de periferia sem antecedentes criminais já sofreram violência policial; a cada quatro pessoas mortas pela polícia três são negras; nas universidades brasileiras apenas 2% dos alunos são negros; a cada quatro horas um jovem negro morre violentamente em São Paulo; aqui quem fala é Primo Preto mais um sobrevivente (trecho da faixa Capítulo 4, Versículo 3 de Sobrevivendo no Inferno).

    No livro Sobrevivendo no Inferno editado pela Companhia das Letras (2018) encontramos um fragmento do contexto no qual este sentimento de revolta se nutria: “Em 2 de outubro de 1992, São Paulo foi palco daquela que é considerada a mais violenta e brutal ação da história do sistema prisional brasileiro: o massacre do Carandiru, intervenção assassina da Polícia Militar do Estado de São Paulo que resultou na morte de pelo menos 111 detentos, a maioria composta de réus primarios, sem nenhuma chance de defesa. Exterminio puro e simples que até hoje não foi reconhecido pelo Estado quanto tal – documentos oficiais tratam o episódio como “rebelião” ou “motim” do pavilhão 9. Num intervalo de poucos meses, o país foi palco de outros dois massacres que chocaram o mundo. Em 23 de julho de 1993, quatro policiais militares dispararam contra cerca de cinquenta crianças e adolescentes em situação de rua que dormiam nas escadarias da igreja da Candelária, no Rio de Janeiro , deixando oito mortos e dezenas de feridos, num episódio que ficou conhecido como chacina da Candelária (…)”. A violência, o preconceito, a desigualdade social, o racismo dentre outras coisas injustas que a população periférica dos Brasil sofrem foi pivô deste sentimento de revolta.


    DA CONDIÇÃO

    Eu estou tentando sobreviver no inferno. Sem muitas apresentações do inferno de Brown, o primeiro trecho da música “Minha Oração” do cantor de rap gospel, Pregador Luo, descreve de modo sucinto e condensado o inferno que milhares de brasileiros vivem até hoje:

    “Uma boca em cada esquina, homens bêbados no bar

    Periferia é assim em qualquer quebrada que se vá

    Cenas, ruídos, sons bem conhecidos

    Por todos que as habitam podem ser ouvidos

    A noite é sinônimo de sigilo

    Guarde segredo de tudo que você vê ou pode levar um tiro

    Carros sendo desmanchados ou por pó trocados

    Corpo baleado, de bruço no asfalto gelado

    Sangue espalhado pra tudo que é lado

    Noiado, caloteiro, traficante, dedo mole não perdoa

    O gueto é assim, quem não é cabelo avoa

    Morte à toa, o grito ecoa, errou na escolha

    Partiu mais cedo, podia tá na boa

    Tem muito pai morrendo sem ver seu filho crescer

    Pra muitos por aqui não haverá amanhecer

    Mas eu continuo orando pela salvação dos meus manos”

    O cenário de Sobrevivendo no inferno é da década de 90, mas a triste realidade permanece, milhares de sobreviventes continuam na batalha pela vida.


    CONSIDERAÇÕES FINAIS E VERDADES FUNDAMENTAIS

    O álbum Sobrevivendo no Inferno certamente foi um marco na história do rap nacional, milhares de homens e mulheres de todas idades se identificaram com a realidade narrada pelos quatro jovens de São Paulo. Todos procuravam um lugar ao sol, assim como tentavam encontrar a fórmula mágica da paz. Com seu conhecimento empírico na maioria dos casos, os quatro jovens narraram aquilo que viam e viviam no inferno periférico. Em suas entrevistas, confessam ter errado em sentenças, letras e em muitas atitudes pessoais assim como todo ser humano. Entre erros e acertos, fato é que são um sucesso até hoje.

    Por diversos motivos, a cosmovisão e o estilo de vida dos Racionais Mc’s não é um modelo cristão a ser seguido, por isso, ao invés de finalizar com possíveis verdades desses quatro jovens sensacionais, concluo apresentando sete verdades bíblicas fundamentais:

    1. Tudo que Deus faz é justo, santo e bom. (Dt 32.4; Sl 33.5)

    2. Tudo que o homem faz, bem ou mal, está manchado pelo pecado. (Gn 8.21; Rm 3.10-18)

    3. A maldade que existe em nosso mundo é por causa do pecado. (Rm 6.23)

    4. Não existe “fórmula mágica da paz”, apenas Jesus Cristo pode proporcionar ao homem a verdadeira paz e seu sangue vertido é o único meio de salvação do pecador. (Rm 4.8)

    5. Apesar de vivermos em um mundo cheio de violência, injustiças e desigualdade, aqui não é o inferno. Tal lugar existe e sua condição é eterna, ele foi inicialmente preparado para Satanás e seus anjos. (Lc 16.19-31; Mt 25.41)

    6. Nenhuma ideologia política pode trazer plena paz para a humanidade, isso acontecerá quando Jesus Cristo retornar em sua segunda vinda para estabelecer seu reino eterno. (Is 65.19-25)

    7. A verdade existe, é divina e absoluta. (Jo 14.6)

    Que Deus abençoe a todos os sobreviventes do nosso Brasil.




    REFERÊNCIAS

    [1] Estilo Cachorro, álbum: Nada como um dia após o outro dia, Racionais MC’s.

    [2] O Amor é Tudo, álbum: O amor é tudo, Ozéias de Paula

    [3] Pais e Filhos, álbum: As Quatro Estações, Legião Urbana.

    [4] Triunfo, álbum: Para quem já mordeu um cachorro por comida, até que eu cheguei longe, Emicida.

    [5] Expresso da Meia-Noite, álbum: Nada como um Dia após o Outro Dia, Racionais MC’s

    [6] https://www.inca.gov.br/causas-e-prevencao/prevencao-e-fatores-de-risco/bebidas-alcoolicas < Acesso em 07/06/2022 >

    [7] https://newslab.com.br/alcoolismo-estudo-mostra-que-60-dos-adolescentes-na-faixa-dos-17-anos-ja-consomem-alcool/#:~:text=Um%20estudo%20realizado%20pela%20Pediatria,uso%20ultrapassa%20uma%20dose%20di%C3%A1ria. < Acesso em 07/06/2022 >

    [8] https://www.alcoolparamenoreseproibido.sp.gov.br/males-do-alcool/#:~:text=O%20uso%20abusivo%20do%20%C3%A1lcool,relacionadas%20ao%20consumo%20do%20%C3%A1lcool. < Acesso em 07/06/2022 >

    [9] A vida é um desafio, álbum: Nada como um Dia após o Outro Dia, Racionais Mc’s.

    [10] Bergstén; Eurico, Teologia Sistemática, editora CPAD,  RJ. 1999: p.10.

  • CUIDADO! VOCÊ NÃO PODE ERRAR

    UM FACHO DE LUZ NA MÚSICA SECULAR


    Você já parou para pensar que até mesmo a música secular pode conter um facho de luz? Ainda que o objetivo principal da letra não seja glorificar a Deus, algumas canções podem trazer pequenas lições que fazem o ouvinte refletir sobre dificuldades da vida.

    “Examinai tudo. Retende o bem.” – Apóstolo Paulo

    Certo homem de periferia vivia com prudência e conquistara o respeito daqueles ao seu redor. Jogava bola com os amigos, tinha uma namorada e se vestia com cuidado dentro do possível. Certo dia, começou a se misturar com rapazes de maior poder aquisitivo e, a partir daí, sua vida mudou completamente. Mergulhou em festas, bebidas e relacionamentos superficiais. No fim, tornou-se um mendigo, perdendo até sua dignidade.

    A música Capítulo 4, Versículo 3, do grupo Racionais MC’s, narra essa história, mostrando a realidade de milhares de brasileiros. Ela alerta para o fato de que jovens das periferias não podem errar demasiadamente nas decisões da vida, sob risco de se perderem. A mensagem é clara: é preciso cuidado com atitudes e escolhas, especialmente quando se parte de uma condição de vulnerabilidade social.

    Quando ouvimos o trecho em que o personagem vivia com prudência, percebemos que ele tinha tudo para uma vida digna. Mas, ao se aproximar dos chamados “branquinhos do shopping” — jovens de maior poder aquisitivo — sua vida desmoronou. Perdeu tudo, chegando ao fundo do poço.

    O que deu errado?

    É preciso refletir sobre a vida dentro e fora da favela, sobre a escassez e a abundância. Jovens sem uma vida cristã tendem a se entregar aos desejos da carne, mas os resultados diferem conforme o contexto social. Quando um “playboy” perde tudo, muitas vezes há suporte familiar: clínicas de reabilitação, cursos, faculdade, casa, comida, roupa lavada, orientação para entrar no mercado de trabalho. Já um jovem carente, ao errar, não encontra ninguém para ampará-lo. Para ele, o caminho para a ostentação muitas vezes passa pelo crime.

    O caminho da prosperidade é possível, mas exige trabalho, dedicação, renúncia e paciência. Esta é a porta estreita da vida, enquanto o crime é uma porta larga e confortável que conduz à perdição.

    A desigualdade social é dura e não podemos mudá-la individualmente. Jesus mesmo disse que, nesta era, os pobres sempre existiriam (Jo 12.8). Contudo, decisões sábias podem amenizar os riscos da vida. O mundo oferece muitas tentações, mas não vale trocar a eternidade de alegria pela efêmera prosperidade que ele proporciona. A verdadeira prosperidade e paz plena acontecerão quando Cristo descer do céu com sua igreja glorificada para estabelecer seu Reino milenar (Ap 20.4-6). Até lá, é preciso vigilância e prudência.

    Talvez você pense que tudo está perdido e considere se entregar a este mundo de ilusões. Quero lhe dizer que existe um Deus que te ama e deseja o teu bem. Mas é necessário esforço da sua parte: resista ao dia mal, trabalhe com honestidade, entregue seus caminhos ao Senhor e confie que Ele cuidará de você.

    Não podemos abrir brechas para Satanás agir em nossas vidas por meio da mídia corrompida, outdoors ou mensagens enganosas. Ele age como um leão, procurando a quem devorar.

    A música citada, embora secular, se dirige à população periférica e ensina uma lição importante: a vida exige cuidado redobrado quando se parte da escassez. Se o único copo de água está em suas mãos, é preciso andar com prudência pelo deserto para não tropeçar.

    Nota: A canção comentada é um rap nacional e, como tal, tem suas peculiaridades. Caso você seja sensível a esse tipo de conteúdo, não é necessário ouvi-la. O que importa nesta reflexão é o princípio presente no que podemos chamar de “facho de luz” da mensagem, mesmo em um contexto improvável.



    Este texto foi publicado originalmente em juliocelestino.com em 17 de maio de 2019

  • A TRISTE ALEGRIA DE PECAR

    “Nada é errado se te faz feliz”

    Algumas páginas da internet atribuem a autoria dessa frase ao ilustre Bob Marley, que no passado protagonizou uma carreira artística de enorme sucesso. O fato é que a alegria proveniente do pecado realmente existe e é prazerosa para a carne; porém, seu resultado desastroso é tão certo quanto aquela ressaca que desperta com você pela manhã dizendo: “é hora de trabalhar.”

    Nas festas de réveillon do estado do Espírito Santo, por exemplo, é comum ver jovens e adultos reunidos com amigos, festejando e se embriagando pelas ruas ou em eventos particulares. Os momentos — eu sei — são alegres e prazerosos, porque as obras da carne seguem a todo vapor nesses ambientes.

    E o apóstolo Paulo descreve claramente algumas delas em Gálatas 5.19ss:

    Prostituição

    Ato ou efeito de prostituir-se; entregar-se à devassidão; desmoralizar; corromper. [1]

    A prostituição tornou-se uma cultura dominante não apenas no Espírito Santo, mas em todo o Brasil. O famoso “ficar” — relações sexuais sem qualquer compromisso conjugal — é incentivado por músicas de funk, axé, pagode, sertanejo e outros ritmos populares que tocam no rádio para crianças, jovens e adultos.

    Com a tecnologia, tudo isso avançou ainda mais: aplicativos de relacionamento funcionam como verdadeiros “menus” de homens e mulheres. Basta escolher, conversar, encontrar, relacionar-se… e repetir o ciclo no dia seguinte. O velho paradigma da pessoa sexualmente devassa tornou-se obsoleto. A liberdade sexual promovida pela mídia transformou o sexo sem compromisso em uma via de fácil acesso para todos.

    Impureza

    Qualidade do que é impuro; aquilo que perturba a pureza; corrupção sexual. [2]

    Hoje, dizer que o ato sexual é reservado para marido e mulher tornou-se motivo de piada em uma mesa de bar. E afirmar que o sexo foi criado para o prazer mútuo entre homem e mulher, exclusivamente dentro do casamento, pode até ser considerado um “crime” (homofobia), segundo a visão distorcida da pós-modernidade.

    Casas de swing expõem a impureza conjugal às claras, com casais trocando parceiros como quem troca figurinhas.

    Além disso, a crescente pluralidade de identidades sexuais — crossdresser, drag queen, drag king, pansexual, transexual e tantas outras — reforça, de forma meticulosa, o sentido bíblico de impureza: alterar aquilo que Deus estabeleceu. Na sociedade atual, tudo isso é chamado de normal. Tudo é relativo.

    Lascívia

    Conduta vergonhosa, sensualidade, libertinagem, luxúria (Mc 7.22; Gl 5.19). [3]

    Assim como as obras citadas acima, a lascívia governa a nossa sociedade. Basta sair às ruas: o apelo sensual é gritante. Milhões de mulheres — de todas as idades — usam shorts, saias e vestidos curtíssimos, decotes profundos e todo tipo de vestimenta que exalta a sensualidade.

    As justificativas são conhecidas:

    “Uso porque me sinto bem.”
    “Uso porque é confortável.”

    Mas sabemos que, na maioria das vezes, essa não é a real motivação.

    Nas redes sociais, a sensualidade ganhou palco e iluminação. Buscando elogios, prestígio e status, muitas mulheres expõem seus corpos para acumular curtidas e visualizações. Talvez isso fosse apenas um problema moral, se não fosse o fato de muitas dessas mulheres serem menores de idade. Pense nisso.

    O pecado não dói na hora

    A história de Davi, em 2 Samuel 11, exemplifica isso perfeitamente.

    Num dia em que deveria estar em guerra, Davi ficou em casa. Do alto do palácio, viu Bate-Seba tomando banho. Mesmo sabendo que ela era esposa de Urias — seu servo leal — Davi enviou mensageiros, trouxe a mulher e adulterou com ela. Ele a engravidou. E, para encobrir o adultério, planejou a morte de Urias.

    Enquanto estavam juntos na cama, a alegria temporária estava presente. O prazer carnal foi intenso. Mas as consequências foram devastadoras.

    1. Vergonha – Deus revela o pecado

    Não há nada pior para um pecador do que ter seu pecado oculto exposto à luz. A vergonha pública é dolorosa. Deus não permite que pecados escondidos permaneçam ocultos para sempre.

    Davi também experimentou vergonha quando soube que seu filho Absalão se deitava com suas mulheres diante de todo o povo (2Sm 16.21–22).

    2. Desordem familiar — um abismo chama outro abismo

    A família de Davi mergulhou em tribulações:

    • seu filho com Bate-Seba morreu (2Sm 12.15–23);
    • Amnom violentou sua irmã Tamar (2Sm 13.1–14);
    • Absalão matou Amnom para vingar Tamar (2Sm 13.23–29).

    Como bem disse o comentarista:

    “Quando não vivemos uma vida digna do Deus a quem servimos, a primeira atingida é a nossa família… Seremos para nossos filhos exemplos para o bem ou para o mal.” [4]


    As consequências do prazer pecaminoso

    Uma pessoa não guiada pelo Espírito Santo é facilmente arrastada pelas obras da carne. As características deste fruto são:

    1. Casamentos desfeitos
    2. Famílias destruídas
    3. Adultério
    4. Suicídio
    5. Depressão
    6. Gravidez indesejada
    7. Homicídios
    8. Doenças sexualmente transmissíveis
    9. Traumas emocionais
    10. Morte espiritual


    Toda alegria do pecado termina em dor, vergonha e destruição.

    Por isso, clamo a Deus por um avivamento pessoal no Espírito Santo — começando por mim. Se eu realmente tivesse o “livre-arbítrio” que muitos defendem, eu escolheria jamais pecar e encorajaria meus entes queridos a serem “espertos” como eu. Mas toda honra e toda glória pertencem ao Senhor.

    Que sejamos lavados no sangue de Jesus, perdoados de nossas iniquidades e preservados do dia da ira. Que busquemos ao Senhor enquanto se pode achar e o invoquemos enquanto está perto, pois na sepultura não há esperança para os condenados.

    Uma antiga canção reflete a atual realidade

    “Eu comparo a vida do homem sem Deus
    Como uma folha seca caída no chão.

    Que vai para onde o vento levar,
    Tudo é tristeza, tudo é solidão.

    Seu viver é triste, tão cheio de dor,
    Seus dias turbados, sem consolação.

    Assim é a vida do homem sem Deus,
    É uma folha seca caída no chão.”
    — Jair Pires


    A folha seca é levada pelo vento, sem direção nem destino. Mas o crente em Cristo tem um alvo. E é para Ele que devemos caminhar — só assim encontraremos a plena, verdadeira e desejada felicidade.

    “Prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.”
    (Filipenses 3.14)




    Referências Bibliográficas

    [1] AURÉLIO, Antônio. Novo Dicionário Eletrônico Aurélio. v. 5.0. Windows: editora Aurélio, s.d.

    [2] SILVA, Claudemir Pedroso da. Dicionário e Estudos Bíblico. Vitória: Editora PAE, s.d.

    [3] Ibid.

    [4] IBVIR. As consequências do pecado de Davi. Disponível em: http://www.ibvir.com.br/sermoes/davi_consequencias_do_pecado_de.htm. Acesso em: 22 dez. 2025.

    Este texto foi publicado originalmente em juliocelestino.com em 08 de julho de 2017

  • PALAVRAS TAMBÉM MATAM

    JESUS E O ASSASSÍNIO


    “Aquele que lhe disser: tolo, será réu do fogo do inferno”
    Mateus 5.22


    No dia 20/02/2017, estudávamos o livro de Provérbios em um curso de teologia em uma igreja do bairro Resistência em Vitória/ES, e o tema central da exposição foi Provérbios 1.7, que afirma:

    “O temor do SENHOR é o princípio do conhecimento; os loucos desprezam a sabedoria e a instrução”.


    À primeira vista, surge uma aparente contradição quando comparamos esse texto com a declaração de Jesus em Mateus 5.22:

    “…e aquele que lhe disser: Tolo, será réu do fogo do inferno”.


    Diante disso, surge a dúvida: se uma pessoa chamar alguém de tolo, insensato ou louco, ela perderá a salvação?

    Essa linguagem não aparece apenas em Mateus 5.22, mas em diversas outras passagens do Novo Testamento. A seguir, alguns exemplos — observando que foram utilizados apenas textos em que aparece a palavra grega usada em Mateus 5.22 para “tolo”, a saber, morós ou moré:

    • Mateus 7.26 – “E aquele que ouve estas minhas palavras e não as cumpre compará-lo-ei ao homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia.”
    • Mateus 23.17 – “Insensatos e cegos! Pois qual é maior: o ouro ou o templo que santifica o ouro?”
    • Mateus 25.2 – “Cinco delas eram prudentes, e cinco loucas.”
    • 1 Coríntios 1.27 – “Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias…”
    • 2 Timóteo 2.23 – “E rejeita as questões loucas e sem instrução, sabendo que produzem contendas.”
    • Tito 3.9 – “Mas evita questões loucas, genealogias, contendas e debates acerca da lei…”



    Assassínio – A mensagem de Mateus 5.21–22

    “Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; mas qualquer que matar será réu de juízo.”


    Nesta passagem, Jesus ensina uma lição profunda acerca do sexto mandamento. Ele inicia dizendo “ouviste” porque a maioria das pessoas presentes no Sermão do Monte não sabia ler. Mesmo entre os que sabiam, as Escrituras não eram acessíveis ao povo comum. Assim, o conhecimento bíblico vinha principalmente pela leitura pública nas sinagogas e pela exposição dos escribas.

    Jesus prossegue dizendo:

    “Eu, porém, vos digo que qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão será réu de juízo; e qualquer que disser a seu irmão: Raca, será réu do Sinédrio; e qualquer que lhe disser: Louco, será réu do fogo do inferno.”


    A palavra “Raca” é um termo de desprezo, originado no orgulho. Salomão chama esse tipo de pessoa de zombador:

    “Zombador é o seu nome, o soberbo e presumido” (Pv 21.24).


    Trata-se de alguém que desdenha do irmão, equiparando-o a algo vil, indigno — quase como um cão.

    Já a palavra “louco” (aqui, moré, do grego μωρέ) expressa rancor e ódio. Não descreve apenas alguém comum ou ignorante, mas alguém considerado moralmente reprovável, indigno de amor e de honra — “homem iníquo, réprobo”.

    Matthew Henry observa corretamente que Jesus ensina que o uso de linguagem ultrajante contra o irmão constitui um assassinato pela língua. Quando tais palavras são usadas com moderação e boa intenção — para corrigir, advertir ou expor a vaidade e a tolice — não são pecaminosas. Por isso, Tiago diz:

    “Ó homem vão” (Tg 2.20),
    Paulo afirma:
    “Insensato!” (1Co 15.36),
    e o próprio Cristo declara:
    “Ó néscios e tardos de coração” (Lc 24.25).


    Entretanto, quando essa linguagem nasce da ira interior e da maldade do coração, ela se torna a fumaça do fogo que arde no inferno, enquadrando-se na mesma gravidade moral.

    Em suma, para Jesus, a atitude de ira contra o irmão é um pecado gravíssimo — tão sério que merece o mesmo juízo associado ao assassínio. As palavras amargas são como flechas que ferem mortalmente (Sl 64.3).

    Quem se encoleriza corre o risco do juízo; quem chama o irmão de “Raca” se expõe ao conselho; mas quem o chama de “louco”, no sentido de pessoa profana e condenável, coloca-se em perigo do fogo do inferno — o mesmo destino que deseja ao outro.

    Por isso, diante da ira, o caminho cristão é a reconciliação. O amor e a caridade são o ápice da vida daquele que está em Cristo. Jesus conclui dizendo:

    “Portanto, se trouxeres a tua oferta ao altar, e ali te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão; e depois vem e apresenta a tua oferta.”
    (Mateus 5.23–24)




    Referências bibliográficas (ABNT)

    BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Tradução João Ferreira de Almeida Fiel.
    Disponível em edições impressas diversas.

    STRONG, James. Dicionário Bíblico Strong.
    Rio de Janeiro: CPAD, s.d.

    HENRY, Matthew. Comentário Bíblico Matthew Henry.
    Vol. 1. Rio de Janeiro: CPAD, s.d., p. 52–53.

    CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento Interpretado.
    Vol. 1. São Paulo: Hagnos, s.d., p. 310–311.



    Este texto foi publicado originalmente em juliocelestino.com em 23 de fevereiro de 2017

  • O QUE ACONTECE APÓS A MORTE?


    Decidi colocar este diagrama em pauta por causa de um problema que vem crescendo entre ouvintes pentecostais e reformados de Vitória/ES, que passaram a acompanhar a rádio Novo Tempo (suspeito que por falta de opção). A emissora, como se sabe, é um órgão da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Diariamente, nesse meio de comunicação, ensina-se que nós somos uma alma e que, quando alguém morre, simplesmente “dorme”, entrando em um estado de inconsciência semelhante ao que existia antes do próprio nascimento.

    Segundo essa doutrina, a pessoa que dorme só despertará quando Jesus voltar. Depois disso, os salvos viverão eternamente, enquanto os condenados sofrerão por um determinado período de tempo (?) e, em seguida, deixarão de existir — desta vez, de forma definitiva e eterna.

    Concordo com a avaliação de R. C. Sproul ao afirmar que a doutrina do sono da alma representa um afastamento do cristianismo histórico e ortodoxo. Embora essa posição ainda exista no meio cristão, ela sempre ocupou um lugar minoritário. A compreensão tradicional da Igreja, desde os primeiros séculos, é conhecida como estado intermediário. Segundo esse entendimento, no momento da morte a alma do crente é imediatamente conduzida à presença de Cristo, onde passa a experimentar uma existência pessoal, contínua e consciente, enquanto aguarda a ressurreição final do corpo.

    Esse ensino não é uma construção tardia, mas uma doutrina bíblica e histórica, sustentada pelos pais da Igreja e reafirmada pelos reformadores do século XVI.



    Este texto foi publicado originalmente em juliocelestino.com em 2 de fevereiro de 2017

  • DOCES DE COSME E DAMIÃO

    CONVÉM CONSUMIR?


    Muitas pessoas têm dúvidas se é pecado consumir alimentos oferecidos aos ídolos. Alguns utilizam Romanos 14.14 como base para defender essa prática, texto que diz: “Eu sei e estou persuadido, no Senhor Jesus, de que nenhuma coisa é de si mesma impura, a não ser para aquele que a considera impura; para esse é impura”. No entanto, ao meu ver, existem problemas claros em consumir alimentos que foram oferecidos a ídolos.

    Entendo que não é saudável participar desse tipo de prática por pelo menos duas razões. Primeiramente, os doces e alimentos oferecidos funcionam como um atrativo, um verdadeiro “cartão de visita” da idolatria, especialmente para crianças. Em segundo lugar, ao adquirir, consumir e ainda ensinar a outros irmãos que não há problema nisso, acaba-se contribuindo, ainda que indiretamente, para a manutenção e divulgação da idolatria que está por trás da prática, funcionando quase como uma forma de marketing religioso.

    Além disso, o apóstolo Paulo deixa claro que existe uma diferença entre não saber a procedência do alimento e saber. Se não houver conhecimento de que aquele alimento foi oferecido a ídolos, não há problema algum. Contudo, se a origem for conhecida, o mais prudente é buscar outra opção. Isso fica evidente em 1 Coríntios 10.27-28, quando Paulo diz: “E, se algum dos infiéis vos convidar e quiserdes ir, comei de tudo o que se puser diante de vós, sem nada perguntar, por causa da consciência. Mas, se alguém vos disser: Isto foi sacrificado aos ídolos, não comais, por causa daquele que vos advertiu e por causa da consciência; porque do Senhor é a terra e a sua plenitude”.

    Ainda que o texto não trate especificamente de doces distribuídos em determinadas práticas religiosas, há um princípio claro ali. Se eu consumir algo sem saber que foi oferecido a ídolos, não há culpa. Porém, sendo cristão e tendo conhecimento de que aquele alimento foi consagrado em um contexto idólatra, devo me abster, justamente por causa da consciência. Isso inclui também orientar outros irmãos, pois a omissão, quando se conhece a verdade, também se torna pecado.

    Soa estranho imaginar pais da igreja tentando economizar dinheiro e anunciando aos familiares que determinado centro espírita está distribuindo doces para as crianças, incentivando todos a irem buscá-los. Se tenho condições de comprar alimento, por que recorrer a algo que está diretamente ligado a uma prática idólatra? Muito menos faria sentido ensinar meus filhos que podem participar disso sem qualquer problema.

    A Escritura é clara quando afirma em 1 Coríntios 10.14: “Portanto, meus amados, fugi da idolatria”. No mesmo capítulo, nos versículos 18 a 20, Paulo declara: “Considerai Israel segundo a carne: os que comem dos sacrifícios não são, porventura, participantes do altar? Que digo, pois? Que o ídolo é alguma coisa? Ou que o que se sacrifica ao ídolo é alguma coisa? Antes digo que as coisas que os gentios sacrificam, sacrificam-nas aos demônios e não a Deus; e não quero que sejais participantes com os demônios”.

    Em Apocalipse 2.14, o próprio Jesus aponta como pecado o ato de comer dos sacrifícios da idolatria. Evidentemente, se um crente estiver em situação de necessidade extrema e não tiver o que comer, o mal que estava na intenção de quem ofereceu o alimento não lhe trará condenação, pois Deus conhece todas as coisas e sabe da condição do faminto. Contudo, se posso me alimentar longe da idolatria, por que buscaria alimento justamente nela?


    Este texto foi publicado originalmente em juliocelestino.com em 8 de setembro de 2015

  • ATÉ QUANDO, SENHOR?

    Habacuque 3.19

    Em meio às dificuldades da vida, o Senhor é o alívio para a nossa aflição:

    “O SENHOR Deus é a minha força, e fará os meus pés como os das cervas, e me fará andar sobre as minhas alturas.”


    Este livro registra, em grande parte, as queixas do profeta Habacuque, que viveu no sétimo século a.C., numa época em que os babilônios se tornavam o império mais poderoso daquela região. Habacuque não entendia como podia haver tanta maldade e injustiça em seu país. Ele também se perguntava por que Deus tolerava os babilônios, um povo cruel que ameaçava conquistar as terras de outros povos. Será que Deus não se importava com tudo isso?

    No entanto, há uma maravilhosa mensagem de Deus por trás deste texto. Habacuque usa a corça (cerva) para expressar a bênção que Deus poderia lhe proporcionar. Antes, precisamos entender a situação do profeta: Habacuque 1.2-3 revela sua aflição, mas ele sabia a quem recorrer nos momentos de amargura. Habacuque sabia que podia lançar sobre Deus suas ansiedades, pois Ele é o único que pode sondar os corações e mover o impossível.

    A corça era um animal típico da região, e inspirado pelo Espírito de Deus, o profeta a utiliza como símbolo. Aprendamos quatro características da corça para vivermos em comunhão com Deus.


    1 – A CORÇA NÃO VIVE EM CONFINAMENTO

    A primeira característica deste animal é que ele não vive confinado em um só lugar. Ela procura seu alimento nos lugares mais distantes que seu faro indica.

    Assim também devemos agir: por maiores que sejam nossos problemas, não devemos nos prender a eles 24 horas por dia. Não podemos nos limitar aos “pequenos reinos” que criamos — “meu casamento”, “meu trabalho”, “meu ministério”, “minha carreira”. Sem Deus, esses reinos podem se reduzir a pó rapidamente.

    Lancemos sobre Deus nossa ansiedade, pois Ele é a nossa força e pode nos tirar do confinamento das coisas deste mundo, direcionando nosso olhar para Aquele que levou sobre si nossas enfermidades. Os problemas diários surgirão, mas temos a quem recorrer e podemos continuar caminhando rumo à linda pátria celestial.


    2 – AGILIDADE PARA ESCAPAR DOS PREDADORES

    Outra característica da corça é sua velocidade. Ela é ágil e não pisa em falso, escapando facilmente de seus predadores.

    Quando depositamos nossa vida diante de Deus, Ele pode fazer nossos pés como os da corça, nos tornando confiantes de que, mesmo diante das investidas do inimigo, sempre haverá um escape providenciado pelo Senhor. Jesus disse:

    “Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” (Jo 16.33).


    Somente em nosso Salvador venceremos as adversidades, confiando e confessando. Sempre haverá um escape para aqueles que O amam.


    3 – A CORÇA É CAPAZ DE SENTIR O CHEIRO DE ÁGUA A QUILÔMETROS DE DISTÂNCIA

    A corça consegue sentir a água e a grama a quilômetros de distância. Ela pode até perceber a água que corre sob a areia do deserto e segui-la até encontrá-la. A corça sobe aos picos mais altos, onde o orvalho é mais forte, para saciar sua sede.

    Assim deve ser a vida do cristão: sempre necessitados e dependentes do Espírito Santo, buscando a água da vida, que jorra para a vida eterna. Deus pode tornar nossos sentidos sensíveis à Sua presença. Mesmo no deserto, Ele nos guiará para as fontes mais altas, saciando a sede da nossa alma através do poder do sangue de Jesus, entronizados diante do Pai.


    4 – E ME FARÁ ANDAR SOBRE AS MINHAS ALTURAS

    Existem pessoas que talvez queiram nos ver caídos. Algumas não se alegram com nossa felicidade, nosso sucesso ou nossas conquistas. Porém, com plena convicção de fé, sabemos que há alguém que deseja nos ver andando sobre nossas alturas: Jesus Cristo.

    Ele nos dará pés firmes, com Sua Palavra como lâmpada. Muito se fala no livre-arbítrio do homem, mas pouco se menciona o livre-arbítrio de Deus. Quando o livre-arbítrio do homem se choca com o de Deus, adivinhe quem prevalece? Deus escolheu nos abençoar e proteger, permitindo que andemos nas alturas de Seu descanso.

    A corça é um animal que, ao ser visto em um monte íngreme, parece prestes a cair. Talvez você esteja enfrentando aflições assim como Habacuque, ou passando por um deserto espiritual. Mas o que as pessoas não sabem é que você não pisa nas areias movediças deste mundo — você está com os pés firmes na Rocha que é Jesus Cristo.

    Lancemos nossas ansiedades sobre Deus, pois Ele cuida de nós. Ele fará nossos pés como os da corça e nos fará andar sobre nossas alturas. Amém.


    Publicado originalmente no blog juliocelestino.com em 27 de fevereiro de 2015