Introdução ao Livro de Deuteronômio
1) Definição
O livro de Deuteronômio é o quinto livro escrito por Moisés, o último do Pentateuco (ou Torá para os judeus). Seu nome, na teologia judaica, recebe o título de Devarim (Palavras) ou Hadevarim (As Palavras), seguindo o início do livro no seu primeiro versículo: “Estas são as palavras que Moisés falou a todo Israel além do Jordão”. Na tradição cristã, o livro recebeu o título Deuteronômio pela Septuaginta, derivado da palavra grega Δευτερονόμιον (Deuteronómion), que significa literalmente Segunda Lei. Contudo, é importante salientar que Deus não entregou uma segunda lei. Na verdade, após quarenta anos da lei registrada em Êxodo e Levítico, grande parte daquela geração havia sucumbido no deserto. Agora, era necessário repetir a lei e exortar a nova geração ao caminho certo, para que não cometesse o erro de seus antecedentes. Por isso, o entendimento prático sobre o título Deuteronômio é Repetição ou Recapitulação da Lei.
2) Autoria
Sobre a autoria do livro, há uma discussão moderna sobre a possibilidade de Moisés não ser o autor do Pentateuco. De acordo com o pastor e teólogo Osiel Gomes, não havia questionamento quanto a Moisés ser o autor do Pentateuco até o século XVII. Atualmente, os que levantam tal hipótese são os teólogos liberais da alta crítica. Particularmente, desprezo boa parte do trabalho dos teólogos liberais por entender que boa parte de sua teologia se trata de uma teologia da destruição, isto é, uma teologia que não constrói nada, apenas busca destruir e desestruturar aquilo que a igreja construiu ao longo dos séculos, além de, na maioria de suas manifestações, não aproximar ninguém de Deus ou de sua Palavra com a honra que ambos merecem. Preciso registrar que o desprezo pela teologia liberal é um sentimento pessoal, deixando todo e qualquer leitor livre para analisar e chegar às próprias conclusões. Essa posição relacionada aos teólogos liberais pode não ser considerada elegante, acadêmica e politicamente aceitável, mas eu realmente não me importo.
Mesmo tendo convicção da autoria de Moisés, deixarei registrado aquilo que o pastor e teólogo estadunidense Finnis Jennings Dake chamou de 16 provas de que Moisés escreveu o Pentateuco:
1. Deus ordenou que Moisés escrevesse em um livro (Êx 17:14; 34:27)
2. Moisés escreveu as palavras do SENHOR (Êx 24:4-7; Nm 33:2; Dt 31:9,24)
3. Esse escrito é chamado de “livro da aliança” (Êx 24:7) e “livro da lei” (Dt 28:58,61; 29:21; 30:10; 31:24-26)
4. O rei deveria fazer para si uma cópia dessa lei (Dt 17:18-20)
5.A lei dada por Moisés deveria reger a conduta de Josué e do povo (Js 1:7-8; 8:31-35)
6. Josué agiu conforme a lei de Moisés e também escreveu palavras no livro da lei de Deus (Dt 27:1-8; Js 8:30-35; 24:26)
7. Josué ordenou a Israel que obedecesse ao livro da lei de Moisés (Js 23:6)
8. No período dos reis, essa lei continuou sendo reconhecida (1Cr 16:40; 1Rs 2:3; 2Rs 22:8–23:25; 2Cr 17:7-9; 23:18; 25:4; 29:25; 31:3)
9. Os profetas se referem à lei de Moisés (Dn 9:11,13; Ml 4:4)
10. Esdras e Neemias também atribuem a lei a Moisés (Ed 3:2; 6:18; 7:6; Ne 8:1,14; 10:29; 13:1)
11. Cristo atribuiu autoridade mosaica à Lei e citou tanto partes narrativas quanto legais do Pentateuco como pertencentes a Moisés ou à Lei de Moisés (Lc 24:27,44; Mc 7:10; 12:26; Jo 5:46-47)
12. Os apóstolos e a igreja apostólica referem-se repetidamente à “lei de Moisés” e a “Moisés” como autoridade textual e normativa (At 13:39; 15:1,5,21; 26:22; 28:23)
13. A tradição judaica majoritária, por muitos séculos, atribuiu a Torá a Moisés, embora houvesse discussões sobre detalhes, como os últimos versículos de Deuteronômio.
14. Diversos autores não judeus da Antiguidade reconheciam Moisés como legislador e figura fundadora da tradição judaica.
15. Outras tradições religiosas posteriores, como o Islã, também associam a Torá a Moisés.
16. Evidências internas favorecem forte unidade e sustentam a participação de Moisés:
a) O Pentateuco reflete um ponto de vista israelita/hebraico, compatível com tradição originada no próprio povo de Israel.
b) O texto contém elementos que sugerem familiaridade com o Egito e com o ambiente do deserto, algo compatível com a tradição mosaica, embora não exclusivo dela.
c) A interligação entre narrativas, leis e instituições sugere coerência interna e unidade de tradição.
d)Apesar da diversidade de gêneros, muitos veem nos cinco livros padrões temáticos e literários que favorecem alguma forma de unidade composicional.
e) O próprio texto atribui a Moisés a escrita de porções substanciais da lei e de registros importantes da história de Israel (Êx 24:4; Nm 33:2; Dt 31:9,22,24).
Mesmo com toda simplicidade no trato, essa lista sugerida por Dake me basta com relação à autoria de Moisés em relação ao Pentateuco.
3) Divisão do Livro
O livro de Deuteronômio é dividido pela Bíblia de Estudo Pentecostal da (CPAD) em três grandes discursos de Moisés:
- Retrospectiva histórica – capítulos 1 ao 4.43
- Renovação da Lei – capítulos 4.4 ao 26.19
- Bençãos, advertências e despedida final – capítulos 27 ao 30
Além dos três discursos, Deuteronômio também conta com os atos finais de Moisés, que estão registrados do capítulo 31 ao 34. A Torá publicada pela editora judaica Sêfer também segue uma divisão semelhante, repartindo o livro de Deuteronômio em quatro partes.
4) Contexto Histórico
Deuteronômio é um livro escrito no final da vida de Moisés, cerca de quarenta anos após a libertação dos hebreus da servidão no Egito. Grande parte da população que saiu do Egito rumo à terra prometida pereceu no deserto por causa da falta de fé e desobediência a Deus. Agora, diante do rio Jordão, próximo ao mar Morto, defronte de Jericó, a nova geração precisava ser instruída pelos princípios do Senhor, principalmente naquilo em que seus pais falharam. A aliança de Deus com Israel se assemelha a um modelo antigo de pacto entre suserano e vassalo.
O pacto de suserano e vassalo era um tipo de tratado do mundo antigo em que um rei mais poderoso (suserano) estabelecia uma aliança com um rei ou povo subordinado (vassalo), oferecendo proteção, estabilidade e reconhecimento, enquanto o vassalo devia lealdade exclusiva, obediência, tributo e fidelidade aos termos do acordo; esse tipo de pacto normalmente incluía a identificação do grande rei, a lembrança do que ele já havia feito pelo vassalo, as obrigações exigidas e as bênçãos pela obediência e maldições pela quebra da aliança.
A Bíblia de Estudo Pentecostal sugere que podemos entender o livro de Deuteronômio a partir de três verbos centrais que estabelecem os três grandes discursos do livro: recordar (caps. 1–4.43), obedecer (caps. 4.44–26.19) e vigiar (caps. 27–30). Recordar, porque o livro preserva a memória da Lei. Obedecer, porque exorta o povo a viver segundo os mandamentos ao entrar na Terra Prometida. Vigiar, porque apresenta bênçãos para a obediência e maldições para a desobediência.
Há também um cuidado especial e um tom pastoral no livro de Deuteronômio. Mesmo sabendo que estava impedido de entrar em Canaã, Moisés foi servo fiel até o fim; aos aproximados 120 anos de idade, dedicou seus últimos atos a fim de preparar a nova geração para servir a Deus e possuir a Terra Prometida. Deuteronômio marca a transição de liderança de Moisés para Josué. Essa transição é compreensível até mesmo quando não levamos em consideração a soberania de Deus, pois, dali para frente, o povo precisaria de uma liderança forte, fiel e guerreira. A grosso modo, vemos o bastão ser passado do servo intelectualmente capacitado, Moisés, para o fiel homem de batalha, Josué.
5) Geografia
O livro de Deuteronômio se desenvolve principalmente nas campinas de Moabe, a leste do rio Jordão, onde Israel estava acampado antes de entrar na Terra Prometida. Conforme o relato bíblico, depois de passar pelos montes de Abarim, Israel chegou às campinas de Moabe, que ficavam junto ao Jordão, defronte de Jericó (Nm 33.47-49). Ao norte dessa região encontrava-se a área montanhosa de Abarim, dentro da qual estava o monte Nebo; no monte Nebo encontrava-se o cume de Pisga, mencionado como o lugar de onde Moisés contemplou a terra que Deus havia prometido a Israel (Dt 3.27; 32.49; 34.1). Assim, o mapa representa a relação geográfica de forma progressiva: Abarim → monte Nebo → cume de Pisga, sem tratar Nebo e Pisga como dois montes independentes. A oeste do Jordão estava Canaã, a Terra Prometida, tendo Jericó como uma das primeiras cidades importantes diante dos israelitas, enquanto a leste encontravam-se Moabe e suas campinas, região na qual Moisés proferiu seus discursos finais, relembrou a história de Israel, renovou a aliança e preparou o povo para a entrada em Canaã. Do alto do Nebo, especificamente do cume de Pisga, Moisés recebeu a oportunidade de contemplar a Terra Prometida antes de sua morte, encerrando assim a narrativa de sua liderança e preparando a transição para Josué (Dt 34.1-5).

6) Resumo
Em conclusão, Deuteronômio é o discurso final de Moisés à nova geração de Israel antes da entrada em Canaã. Mais do que repetir mandamentos, o livro relembra a fidelidade de Deus, corrige os erros do passado e exorta o povo à obediência e vigilância diante da aliança. Nas campinas de Moabe, às portas da Terra Prometida, Moisés encerra seu ministério preparando Israel para viver uma nova fase de sua história. Por isso, Deuteronômio é um livro de transição, instrução e advertência, mostrando que a permanência do povo na bênção de Deus dependia de sua fidelidade ao Senhor.
Referências
Revista Lições Bíblicas












