Categoria: Estudos

  • MERGULHADO EM ÓLEO FERVENTE – A ORIGEM DA HISTÓRIA


    Hoje, eu estava escrevendo um comentário sobre Apocalipse 1.9 e lembrei de uma história sobre o apóstolo João que ouvi no seminário de teologia. A história, lenda ou tradição, fala de um momento em que o apóstolo João foi condenado a ser mergulhado em um caldeirão de óleo fervente e, por milagre, retirado ileso.

    O contexto histórico diz que João foi convocado a Roma para ser julgado devido à Palavra de Deus. Na época, o governador de Roma era Tito Flávio Domiciano. Diante das autoridades e falsas testemunhas que contavam mentiras acerca da vida e doutrina cristã, João foi condenado à morte. Um agravante da situação é que Roma era um império politeísta e o governador Domiciano se autodenominava “Dominus ac Deus” (Senhor e Deus em latim). Logo, a condenação do apóstolo João era certa, pois, assim como os cristãos de hoje, ele professava sua fé e adoração ao único e verdadeiro Deus.

    Após refletir pela milésima vez sobre essa emocionante história, questionei qual era a fonte escrita mais antiga que a corrobora. Uma pesquisa superficial nas ferramentas de pesquisa disponíveis, como Google e Bing, não encontra uma resposta para a pergunta. Aparentemente, no conteúdo de estudiosos de língua portuguesa que aparecem nas primeiras páginas de pesquisa, não existe tal informação. Então pesquisei em inglês. Graças a Deus, encontrei um tesouro escrito entre o segundo e terceiro século por Tertuliano chamado “The Prescription Against Heretics” (A Prescrição Contra os Hereges). Tertuliano cita o episódio da condenação de João de maneira singela neste livro. Agora, não é necessário mais dizer que a história é apenas uma tradição oral, mas também escrita.

    Segue o trecho do livro de Tertuliano que menciona a história da condenação de João:

    Capítulo 36. As Igrejas Apostólicas a Voz dos Apóstolos. Que os hereges examinem suas reivindicações apostólicas, em cada caso, indiscutíveis. A Igreja de Roma é duplamente apostólica; sua primitiva eminência e excelência. A heresia, como uma perversão da verdade, está ligada a ela.

    Vinde agora, vós que quereis satisfazer uma curiosidade melhor, se quiserdes aplicá-la ao negócio da vossa salvação, percorrei as igrejas apostólicas, nas quais os próprios tronos dos apóstolos ainda são preeminentes nos seus lugares, nos quais os seus próprios escritos autênticos são lidos, pronunciando a voz e representando o rosto de cada um deles separadamente. Muito perto de ti está a Acaia, na qual se encontra Corinto. Como não estás longe da Macedónia, tens Filipos; (e aí também) tens os Tessalonicenses. Como podes passar para a Ásia, tens Éfeso. Além disso, como estais perto da Itália, tendes Roma, de onde vem até mesmo para as nossas mãos a própria autoridade (dos próprios apóstolos). Como é feliz a sua igreja, sobre a qual os apóstolos derramaram toda a sua doutrina com o seu sangue! Onde Pedro suporta uma paixão como a do seu Senhor! Onde Paulo ganha a sua coroa numa morte como a de João [Batista], onde o apóstolo João foi primeiro mergulhado, ileso, em óleo a ferver, e daí remetido para a sua ilha-exílio! Vejam o que ela aprendeu, o que ensinou, a comunhão que teve até com as (nossas) igrejas em África! Ela reconhece um só Senhor Deus, Criador do universo, e Cristo Jesus (nascido) da Virgem Maria, o Filho de Deus Criador; e a Ressurreição da carne; a lei e os profetas ela reúne num só volume com os escritos dos evangelistas e apóstolos, dos quais bebe na sua fé. Isto ela sela com a água (do batismo), reveste com o Espírito Santo, alimenta com a Eucaristia, anima com o martírio, e contra uma disciplina assim (mantida) ela não admite quem a contradiga. Esta é a disciplina que eu já não digo que predisse que as heresias viriam, mas da qual elas procederam. Contudo, não eram dela, porque se opunham a ela. Até mesmo a tosca azeitona selvagem surge do germe da frutífera, rica e genuína azeitona; também da semente da mais suave e doce figueira nasce a vazia e inútil figueira selvagem. Da mesma forma, as heresias também vêm de nossa planta, embora não sejam de nossa espécie; (elas vêm) do grão da verdade, mas, devido à sua falsidade, elas têm apenas folhas selvagens para mostrar.”



    Referências

    TERTULIANO. As obras completas de Tertuliano (33 livros): Com links cruzados para a Bíblia. Edição do Kindle. Amazon.com.

  • DEPRESSÃO: CAUSA, SINTOMAS E ESPERANÇA


    “Não estejais inquietos por coisa alguma; antes as vossas petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus pela oração e súplica, com ação de graças. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus.” – Filipenses 4.6-7, ACF


    Depressão e Suicídio: entender, superar e ajudar. Este é o tema da breve palestra que foi ministrada aos jovens e adolescentes da Igreja Assembleia de Deus de Maruípe no dia 18 de setembro de 2020. Grande parte do conteúdo foi retirado do livro de Zack Eswine, intitulado “A Depressão de Spurgeon”, lançado em 2015 pela editora Fiel.

    O QUE É DEPRESSÃO?

    Segundo a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), a depressão é “um transtorno mental caracterizado por tristeza persistente e pela perda de interesse em atividades que normalmente são prazerosas, acompanhadas da incapacidade de realizar atividades diárias […]”. Conforme a OPAS, as pessoas com depressão podem apresentar vários sintomas como perda de energia, mudanças no apetite, aumento ou redução do sono, ansiedade, perda de concentração, indecisão, inquietação, sensação de que não valem nada, culpa ou desesperança, e pensamentos de suicídio ou de causar danos a si mesmas. É importante destacar que a organização afirma que a depressão pode afetar qualquer pessoa, e isto não se trata de um sinal de fraqueza ou, popularmente, de “frescura”.

    A depressão também pode ser ilustrada de forma simplista com as placas de “depressão na pista”. Essas placas ilustram bem como funciona a depressão na vida de alguém, pois, quando estamos dirigindo um veículo e nos deparamos com o alerta de “depressão na pista”, sabemos que haverá um desnível para baixo na estrada. Assim é na vida de quem sofre de depressão: em determinado momento, há um desnível para baixo.



    UM DADO INTERESSANTE SOBRE A DEPRESSÃO

    Um dado interessante é que a depressão só foi reconhecida como doença em meados do século XIX. De acordo com uma matéria publicada no Jornal da USP, somente em 1952 foi lançado o primeiro Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), elaborado pela Associação Americana de Psiquiatria. Porém, este mal assola o ser humano há muito mais tempo do que possamos imaginar.


    QUAIS SÃO AS CAUSAS DA DEPRESSÃO?

    De acordo com o livro de Zack Eswine, a depressão pode surgir na vida de uma pessoa através de três fatores: biológico, circunstancial e espiritual.

    Fator Biológico – Conforme o site do Ministério da Saúde, as causas da depressão podem ser eventos vitais, genéticas e bioquímicas. O pastor Charles Spurgeon também reconhecia que a depressão, em alguns casos, é causada pelo fator biológico, afirmando que “algumas pessoas são constitucionalmente tristes. Às vezes somos marcados pela melancolia desde o momento de nosso nascimento”. Por este motivo, é necessário que nós, cristãos, tenhamos a consciência de que nem tudo na vida se trata de algo espiritual; pode ser doença. A OPAS afirma que a depressão é um transtorno tratável por meio de psicoterapia, medicamentos antidepressivos ou a combinação de ambos.

    Fator Circunstancial – Como foi citado acima, o Ministério da Saúde afirma que a depressão pode ser causada por eventos vitais, ou como preferimos abordar nesta palestra, causas circunstanciais. O fator circunstancial indica que uma pessoa acometida de depressão não chega a esta situação devido a sua natureza ou temperamento melancólico, eventos como a perda de um familiar, demissão, problemas financeiros, traição de um cônjuge, problemas familiares, descontentamento com o próprio corpo, sonhos frustrados dentre várias outras circunstâncias podem causar depressão. Este mal surge até mesmo após um momento lindo como o nascimento de uma criança, conhecida como depressão pós-parto. Sobre isto, Eswine diz que o fator circunstancial nos ensina que: 1) a fé na terra não é nem escapismo, nem paraíso, 2) não equiparamos benção espirituais com comodidade circunstancial e 3) nós que não sofremos depressão circunstancial devemos aprender o cuidado pastoral para com aqueles que sofrem.

    Fator Espiritual – Eswine descreve que “essa forma de depressão aflige pessoas, a qualquer momento, com terrores conscientes e irreversíveis acerca do desagrado de Deus. Ou ainda, aqueles que, sofrendo esse tipo de depressão, usam atos extremos de devoção religiosa a ponto de machucarem a si próprio e a outros”. Para a pessoa com este tipo de depressão, Deus tem amor, paz e graça para os outros, menos para ela. Também acredita que devido a algum pecado ou qualquer outro motivo, Deus não a ama mais, está desamparada, esquecida, etc. Segundo Eswine, alguns pregadores acabam piorando a situação do deprimido, presumindo que toda depressão se trata de um pecado. Em alguns casos, o pregador peca por associar a prosperidade financeira e a saúde com sua fidelidade a Jesus. Por vezes, um servo ou uma serva do Senhor que passa por problemas circunstanciais, se vê de frente a uma mensagem que afirma que se formos fiéis a Jesus, seremos abundantemente ricos e saudáveis. Por essas e outras, o servo de Jesus que passa por problemas na área da saúde ou financeiro, acaba acreditando que Deus o abandonou em seus infortúnios, e isso não é verdade! Sobre isto, escreveu o Pregador de Eclesiastes: “Tudo sucede igualmente a todos; o mesmo sucede ao justo e ao ímpio, ao bom e ao puro, como ao impuro; assim ao que sacrifica como ao que não sacrifica; assim ao bom como ao pecador; ao que jura como ao que teme o juramento”. O autor de Eclesiastes estava falando sobre o que chamamos de “graça comum”, ou seja, a graça que Deus disponibiliza a todos! De forma simples, o Pregador estava dizendo que o mesmo sol que brilha sobre a igreja, brilha sobre um presídio; e a mesma chuva que cai sobre uma casa de família também cai sobre um bar. É preciso ser cauteloso com o uso da língua, até mesmo na hora de testemunhar as bençãos de Deus em nossas vidas. Dentro do fator espiritual, também existe a possibilidade de uma influência maligna, e segundo Eswine, “quando nos deparamos com este antigo inimigo, o diabo, resta apenas uma coisa que podemos e devemos fazer: lutar!”. Usando a armadura espiritual descrita em Efésio capítulo 6 podemos vencer! Eswine diz que “nosso jeito de lutar é nos escondermos atrás de Jesus que luta por nós. Nossa esperança não é a ausência de nosso pesar, ou sofrimento, ou dúvida, ou lamento, mas a presença de Jesus”.


    COMPORTAMENTOS QUE ATRAPALHAM

    Existem alguns comportamentos que, mesmo com a melhor das intenções, podem piorar a situação de quem sofre com depressão. Frases como “pare de bobagem, a vida é bela, sacode a poeira e recupera-se!” e “para de frescura!”, são como empurrões que lançam o sofredor ainda mais fundo no mar da angústia. Textos bíblicos dispensados de qualquer maneira também não servem de ajuda para o aflito, às vezes pode até piorar a situação, fazendo-o acreditar que se não está sentindo nada lendo trechos da Palavra, Deus o abandonou. O desprezo e a indiferença também são comportamentos que atrapalham, geralmente, amigos e familiares acabam desprezando a dor do deprimido dizendo coisas como: “seu problema nem é tão grave assim, para mim você está sofrendo à toa”, ou pensando: “daqui a pouco passa, para que vou me preocupar?”. É preciso termos cautela e amor para com os aflitos e evitar tais julgamentos para não sermos as mãos que jogam gasolina em cima do fogo da melancolia tentando apagá-lo.


    SEGUINDO O EXEMPLO DE DEUS

    O primeiro livro dos Reis, capítulo 19, nos mostra uma boa forma de tratar alguém que sofre neste pântano sombrio. O texto descreve o momento em que o profeta Elias sofre uma profunda depressão. Mesmo Deus tendo realizado diversos milagres e maravilhas na vida deste homem, ao ser ameaçado de morte por Jezabel, esposa do rei, ele fugiu temendo pela sua vida e clamou a Deus pela sua morte quando suas forças acabaram, mas, o Senhor não o abandonou.

    Finalizo este esboço mostrando a você, caro leitor, como é importante aprendermos com Deus a maneira correta de lidar com pessoas depressivas:

    • Elias fugiu para o deserto, se abrigou debaixo de um zimbro, pediu a morte e adormeceu. Isso nos mostra, em primeiro lugar, que o aflito precisa de descanso.
    • Em seguida, um anjo o alimentou com pão e água e ele dormiu de novo. Este gesto nos ensina que nosso tratamento para com os angustiados demanda tempo, amor e cuidado. É preciso ter paciência para alimentá-los com amor.
    • Após descansar mais um pouco, o anjo repetiu todo o gesto de amor, e isso renovou as forças do profeta para continuar na caminhada.

    Amor, paciência e cuidado são palavras-chave no cuidado de Deus para com Elias, e é assim que devemos tratar os que sofrem com a depressão. Que Deus nos abençoe e nos dê estratégias para ajudar a quem precisa. E se você que está lendo sofre deste mal, procure ajuda médica, converse com um amigo de confiança e, acima de tudo, confie em Deus. Você não está sozinho(a) nessa!



    Este texto foi escrito originalmente 16 de setembro de 2020

  • ESTENDER O CULTO: QUANDO É APROPRIADO?


    Pela graça e misericórdia do Senhor Jesus Cristo, tive a oportunidade de pregar sua palavra em diversas ocasiões. Alguns irmãos brincavam comigo, dizendo que eu demorava demais para terminar a oração, então nunca me pediam para orar antes das refeições.

    Brincadeiras à parte, sempre tive a preocupação de cumprir o horário das reuniões eclesiásticas, pois a igreja congrega pessoas de diferentes profissões e afazeres. Por exemplo, um casal de feirantes que acorda às três da madrugada de domingo para preparar sua barraca de legumes na avenida central. Com muito zelo, passam o dia trabalhando sob o calor e correm para a igreja com seus filhos ao anoitecer. Ao lado do casal de feirantes, há um jovem solteiro que mora sozinho e trabalha em escala 12×36; ele foi o pregador escalado para a noite. Ao lado do jovem pregador, há uma mãe solteira que, após um dia de trabalho, deixou seus filhos com um parente, prometendo voltar para buscá-los em duas horas, pois precisava buscar uma bênção na casa do Pai. Para surpresa de todos, na hora da Palavra, o jovem pregador descansado decidiu seguir o exemplo de Esdras e Paulo naquela noite. Explico:

    Um dia, um escriba chamado Esdras leu os cinco primeiros livros da Bíblia em praça pública desde o amanhecer até meio-dia (Ne 8.3). Dias depois, ele participou de um culto que teve seis horas de leitura da Palavra seguidas de seis horas de adoração, totalizando doze horas de culto (Ne 9.3)!

    Outro dia, o apóstolo Paulo pregou tanto que um jovem sentado na janela cochilou, caiu e morreu (era meia-noite). Graças a Deus, a história não teve um final triste, pois o Espírito Santo ressuscitou o jovem pela fé de Paulo. Após o ocorrido, Paulo continuou pregando até o amanhecer (At 20.7-11).

    Diante dos exemplos de Esdras e Paulo, posso dizer que é válido estender um culto por tempo indeterminado? Creio que este comportamento não deve se tornar um costume por quatro motivos:

    1. No tempo de Esdras e Paulo, ou começaram o culto com um horário determinado para terminar, ou não prometeram hora alguma. Certamente, os irmãos presentes sabiam de antemão se o culto tinha hora marcada para acabar.
    2. Quando falamos de Esdras (458 a.C.) e Paulo (10 d.C.), estamos falando de cenários com mais de dois mil anos. A organização das reuniões e as ocupações das pessoas eram completamente diferentes das de hoje. Um trabalhador assalariado com pais doentes em casa e filhos pequenos não poderia participar de cultos de doze horas como o de Esdras, nem ouvir uma pregação que começou num dia e terminou no outro, como a de Paulo.
    3. Quando estabelecemos um horário para o culto, isto se torna um compromisso com os membros e visitantes. Se convidarmos parentes e amigos para um culto que deveria terminar às 21:30, mas se estende até a meia-noite, não estamos cumprindo nossa palavra e violamos o princípio da ordem (1Co 14.40).
    4. Por uma questão de empatia pelo próximo. Às vezes, sou um jovem solteiro que acorda ao meio-dia no domingo, mas meu irmão é um feirante que acorda de madrugada para trabalhar. Ninguém tem a mesma vida que eu, e não sei quais são as tarefas e dificuldades dos meus ouvintes no culto. Praticar empatia pode ser uma forma de amar o próximo (Mt 22.39).

    Resumindo, há algum problema em cultos sem hora para acabar? Nenhum! Desde que os convidados saibam que naquela igreja é assim que acontece. Caso contrário, acredito que devemos cumprir o princípio da ordem (1Co 14.40).


    Este texto foi publicado originalmente em juliocelestino.com em 08 de fevereiro de 2024

  • Eu, A Raiz Exposta do Pecado – Steve Gallagher


    No livro A Raiz Exposta do Pecado, Steve Gallagher se aprofunda no tema intrínseco do ser humano, e talvez, o principal dos pecados: o ego. No livro Amantes de si mesmos, Dave Hunt declara acertadamente que a ideia moderna de que devemos “nos amar mais” não é amparada pela bíblia. Na verdade, não há nenhum mandamento bíblico dizendo que devemos nos amar. O mandamento bíblico basilar sobre o amor está situado no evangelho segundo Mateus 22.37-39 que diz: “(…) Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Após uma atenciosa leitura da palavra de Deus, constatamos que não há mandamento para se amar, isso se dá pelo fato de que o ser humano naturalmente se ama. Até mesmo aqueles que intentaram contra a própria vida se amam, pois, a frustração de não ter a vida que gostariam os fazem desistir de viver.     

    Partindo deste pressuposto, o livro de Gallagher é dividido em três sessões: 1) O grande reino do Eu; 2) Os tipos de orgulho e 3) O reino da humildade. O objetivo da obra é expor o pecado que está enraizado na natureza de todo filho de Adão; pecado este que começou no céu com o querubim ungido e se propaga na terra como uma pandemia destruidora: o orgulho. De acordo com Steve Gallagher quase tudo em nossa cultura agrada ao ego ou o incita: entretenimento, propaganda, mídia, meio acadêmico, negócios e a vida em casa. Nestes tempos, tudo tem como foco a imagem e as realizações pessoais. Isso, por sua vez, gera uma pressão esmagadora para superarmos o nosso próximo – sendo mais inteligente, mais forte, mais capaz, mais atraente e mais rico. Em um ambiente que exalta e glorifica os feitos, a força e a beleza, as crianças aprendem rapidamente o quanto é bom ser enaltecido, assim como machuca ser criticado ou não notado. Elas são ensinadas a serem orgulhosas de si mesmas e de suas habilidades. Essa mentalidade é reforçada a cada estágio do desenvolvimento até a vida adulta. 

    “Quando uma pessoa se rende a determinado hábito pecaminoso, uma contaminação espiritual trabalha em sua constituição” – Gallagher


    Portanto, na sessão do grande reino do Eu, Gallagher expõe biblicamente como o mundo é dominado pelo orgulho excessivo e como isso tem destruído anjos, pessoas, ministérios e famílias inteiras. Na segunda sessão é mostrado vários tipos de orgulho que provavelmente, durante a leitura, nos identificamos com alguns deles. Eu, por exemplo, me identifiquei numa área defeituosa que nunca havia percebido antes, no momento que Gallagher fala sobre o orgulho inacessível, ou seja, pessoas que tem o coração inacessível: “não se trata de temperamento, mas, sim, do estado do coração. Em suma, esse indivíduo odeia ser corrigido de qualquer modo. Ele fica notavelmente tenso quando é alertado sobre áreas de sua vida que precisam de mudança. Esse indivíduo se isola tanto de relacionamentos quanto de situações em que possa receber críticas ou aconselhamentos. Ele geralmente o faz com sutileza, muitas vezes por meio de atitudes desagradáveis, voltadas para afastar os outros em primeiro lugar. Ele controla rigidamente o quanto outros podem se aproximar dele, bem como os assuntos da conversa”. Já na terceira sessão, Gallagher nos apresenta o reino da humildade, atributo gracioso que agrada a Deus. Com conselhos e dicas práticas, o livro nos ensina como vencer o pecado do orgulho que existe em nosso coração e buscar a excelência através da humildade de espírito e dependência total de Deus. Algo que muito tocou meu coração foi no tópico “servindo a si” quando ele conta a história de um homem que entrou no Pure Life Ministries (Ministérios Vida Pura) para o tratamento de seu pecado sexual, porém, mesmo depois de algum tempo e já ministrando a palavra de Deus, ele não conseguia abandonar o pecado sexual. Após uma conversa pessoal com Gallagher, o rapaz decidiu sair do Ministérios Vida Pura para “crescer sozinho” e alimentar seu ego; sem sucesso, infelizmente (ou felizmente).

    Então, citando Whatman Nee, Gallagher tocou meu coração ao reproduzir que ninguém está apto para trabalhar apenas porque aprendeu alguns ensinamentos. A questão básica permanece: que tipo de pessoa é esse homem? Pode aquele cujos mecanismos internos são errados, mas cujo ensinamento é correto, atender à demanda da igreja? A lição básica que devemos aprender é ser transformado em um vaso perfeito para o uso do Mestre. Isso só pode ser feito por meio do quebrantamento. Ler esse trecho do livro, além de me advertir profundamente, lembrei-me do que escreveu A. -D. Sertillanges em seu livro “A Vida Intelectual”, ao advertir o leitor sobre a necessidade de ser uma pessoa com moral trabalhada em virtudes, ou, no popular: viver o que se prega. De acordo com ele, não haveria coisa mais chocante em ver uma descoberta feita por um canalha? A candura de um homem simples ficaria ofendida com isso. Escandalizamo-nos com uma dissociação que ofende a harmonia humana. Não acreditamos nesses joalheiros que vendem pérolas e não as usam. Viver junto da fonte sublime sem participar de sua natureza moral soa como um paradoxo. Isso é uma clara demonstração de ortodoxia e ortopraxia, ou seja, doutrina e prática devem andar juntas.     

    Eu, como consumidor dos livros do pastor Steve, posso afirmar que o livro é uma ótima ferramenta auxiliar na luta contra o pecado do orgulho e do egoísmo. Em alguns momentos pode ser cansativo ler quase trezentas páginas tratando do mesmo assunto, porém, creio ser necessário conhecer aquilo que combatemos. Eu recomendo com entusiasmo o livro: Eu; A Raiz Exposta do Pecado de Steve Gallagher.


    Este texto foi publicado originalmente em juliocelestino.com em 04 de dezembro de 2023

  • OS PROFETAS DA VAIDADE


    Um culto pentecostal está acontecendo, louvores são entoados, a mensagem é pregada, e um “profeta” se dirige a uma mulher que está chorando copiosamente e entrega a seguinte profecia: “Deus está mandando eu te dizer que seu casamento não tem mais jeito! Ele está preparando algo melhor para você”. Ainda chorosa, a mulher recebe a mensagem, volta para casa, e só Deus sabe o desfecho desta história.

    O relato acima não é uma história inventada. Trata-se de um relato real contado pelo próprio “profeta”, destacando como o culto de domingo foi abençoado em sua congregação. Perplexo, perguntei-lhe se conhecia aquela mulher, qual era o tipo de relacionamento abusivo que ela estava sofrendo com o marido, se ele a agredia fisicamente ou se a traía com outras mulheres. O “profeta”, presbítero, afirmou que a conhecia, e que o marido não batia nela, também afirmou que não havia conhecimento de adultério, mas que o problema residia no fato de que os dois eram incompatíveis, estavam cansados do casamento, não se entendiam e etc.

    Eu não sei que deus falou pela boca deste presbítero, mas posso afirmar que não foi o Deus de Israel! O Deus da Bíblia nos ensina que o casamento é para sempre (Mt 19.6), sendo permitido o divórcio apenas em três ocasiões: morte (Rm 7.2), adultério (Mt 19.9) e abandono da parte descrente (1Co 7.15). Alguns irmãos discordam das duas últimas permissões bíblicas para o divórcio, mas o fato é que de um jeito ou de outro a posição divina é clara: Deus odeia o divórcio! (Ml 2.16)

    O teste da Palavra de Deus reprovou a profecia deste presbítero, deixando claro que ele é um profeta da vaidade. É uma pena constatar que homens e mulheres de Deus têm se deixado levar pelo desejo de estar em evidência numa congregação. O desejo de se mostrarem “cheios de poder” os faz se comportar de forma vergonhosa, como no exemplo acima. Seja pelo sucesso ou pelo status de “super-crentes”, tais pessoas acabam saindo do centro da vontade de Deus e se colocam numa posição de inimigos do Senhor. A internet também está cheia de profetas da vaidade. A cada dia surge uma nova “profecia” na internet que deixa os menos íntimos da Palavra desesperados, ansiosos e até depressivos.

    Há um autointitulado “profeta” famoso no Brasil que, em um de seus cultos transmitidos pela TV, profetizou para uma mãe que estava com seu filho acometido de câncer que ele estava sendo curado ali e que Deus estava mandando dizer que aquele jovem teria um futuro brilhante como jogador de futebol. Meses depois, aquele jovem morreu e a profecia não foi cumprida, deixando claro que o tempo é um dos maiores inimigos de um falso profeta (Dt 18.20-22). Esses tipos de profecias são fruto de uma mente fértil ou simplesmente maldosa, que não passam na peneira da Bíblia Sagrada. O livro de Ezequiel nos mostra como é a indignação de Deus com relação a tais profetas que não veem nem ouvem nada, e mesmo assim saem distribuindo profecias e revelações sem pé nem cabeça entre as congregações e pela internet:

    “Assim diz o Senhor DEUS: Ai dos profetas loucos, que seguem o seu próprio espírito e que nada viram!” – Ezequiel 13.3 

    Viram vaidade e adivinhação mentirosa os que dizem: O SENHOR disse; quando o SENHOR não os enviou; e fazem que se espere o cumprimento da palavra. Porventura não tivestes visão de vaidade, e não falastes adivinhação mentirosa, quando dissestes: O SENHOR diz, sendo que eu tal não falei? Portanto assim diz o Senhor DEUS: Como tendes falado vaidade, e visto a mentira, portanto eis que eu sou contra vós, diz o Senhor DEUS.” – Ezequiel 13.6-8

    Não deixe que a tentação do status de evidência faça você se tornar uma pessoa mentirosa que transmite profecias, revelações e sonhos inventados em nome do Senhor. Deus não se agrada de tal soberba e presunção! Além disso, entregar uma profecia falsa para alguém gera uma expectativa de cumprimento em quem a recebe, e todos nós sabemos que tais coisas não irão se cumprir, certo? Ao esperar aquilo que não virá, a pessoa passa do estado de uma alma esperançosa e cheia de fé para o estado de uma alma frustrada com Deus. Tudo isso por causa de um ou uma profeta que, por pura soberba e vaidade, inventou revelações e profecias de sua própria mente para se exibir como uma pessoa cheia do poder de Deus diante da congregação. Será que o gostinho de ser admirado por alguém vale uma alma frustrada com Deus? É claro que não!

    Os tempos são trabalhosos! Há muitos amantes de si mesmos com aparência de piedade em busca de prestígio e status vãos, capazes até de inventar profecias e revelações. Sobre isso, registra o apóstolo Paulo:

    “E até importa que haja entre vós heresias, para que os que são sinceros se manifestem entre vós.” – 1ª Coríntios 11.19

    Que Deus tenha misericórdia desses falsos profetas, e que eles encontrem o caminho da verdade para que suas almas sejam salvas no último dia. Amém.

    Este texto foi publicado originalmente em juliocelestino.com em 10 de abril de 2020

  • A TRISTE ALEGRIA DE PECAR

    “Nada é errado se te faz feliz”

    Algumas páginas da internet atribuem a autoria dessa frase ao ilustre Bob Marley, que no passado protagonizou uma carreira artística de enorme sucesso. O fato é que a alegria proveniente do pecado realmente existe e é prazerosa para a carne; porém, seu resultado desastroso é tão certo quanto aquela ressaca que desperta com você pela manhã dizendo: “é hora de trabalhar.”

    Nas festas de réveillon do estado do Espírito Santo, por exemplo, é comum ver jovens e adultos reunidos com amigos, festejando e se embriagando pelas ruas ou em eventos particulares. Os momentos — eu sei — são alegres e prazerosos, porque as obras da carne seguem a todo vapor nesses ambientes.

    E o apóstolo Paulo descreve claramente algumas delas em Gálatas 5.19ss:

    Prostituição

    Ato ou efeito de prostituir-se; entregar-se à devassidão; desmoralizar; corromper. [1]

    A prostituição tornou-se uma cultura dominante não apenas no Espírito Santo, mas em todo o Brasil. O famoso “ficar” — relações sexuais sem qualquer compromisso conjugal — é incentivado por músicas de funk, axé, pagode, sertanejo e outros ritmos populares que tocam no rádio para crianças, jovens e adultos.

    Com a tecnologia, tudo isso avançou ainda mais: aplicativos de relacionamento funcionam como verdadeiros “menus” de homens e mulheres. Basta escolher, conversar, encontrar, relacionar-se… e repetir o ciclo no dia seguinte. O velho paradigma da pessoa sexualmente devassa tornou-se obsoleto. A liberdade sexual promovida pela mídia transformou o sexo sem compromisso em uma via de fácil acesso para todos.

    Impureza

    Qualidade do que é impuro; aquilo que perturba a pureza; corrupção sexual. [2]

    Hoje, dizer que o ato sexual é reservado para marido e mulher tornou-se motivo de piada em uma mesa de bar. E afirmar que o sexo foi criado para o prazer mútuo entre homem e mulher, exclusivamente dentro do casamento, pode até ser considerado um “crime” (homofobia), segundo a visão distorcida da pós-modernidade.

    Casas de swing expõem a impureza conjugal às claras, com casais trocando parceiros como quem troca figurinhas.

    Além disso, a crescente pluralidade de identidades sexuais — crossdresser, drag queen, drag king, pansexual, transexual e tantas outras — reforça, de forma meticulosa, o sentido bíblico de impureza: alterar aquilo que Deus estabeleceu. Na sociedade atual, tudo isso é chamado de normal. Tudo é relativo.

    Lascívia

    Conduta vergonhosa, sensualidade, libertinagem, luxúria (Mc 7.22; Gl 5.19). [3]

    Assim como as obras citadas acima, a lascívia governa a nossa sociedade. Basta sair às ruas: o apelo sensual é gritante. Milhões de mulheres — de todas as idades — usam shorts, saias e vestidos curtíssimos, decotes profundos e todo tipo de vestimenta que exalta a sensualidade.

    As justificativas são conhecidas:

    “Uso porque me sinto bem.”
    “Uso porque é confortável.”

    Mas sabemos que, na maioria das vezes, essa não é a real motivação.

    Nas redes sociais, a sensualidade ganhou palco e iluminação. Buscando elogios, prestígio e status, muitas mulheres expõem seus corpos para acumular curtidas e visualizações. Talvez isso fosse apenas um problema moral, se não fosse o fato de muitas dessas mulheres serem menores de idade. Pense nisso.

    O pecado não dói na hora

    A história de Davi, em 2 Samuel 11, exemplifica isso perfeitamente.

    Num dia em que deveria estar em guerra, Davi ficou em casa. Do alto do palácio, viu Bate-Seba tomando banho. Mesmo sabendo que ela era esposa de Urias — seu servo leal — Davi enviou mensageiros, trouxe a mulher e adulterou com ela. Ele a engravidou. E, para encobrir o adultério, planejou a morte de Urias.

    Enquanto estavam juntos na cama, a alegria temporária estava presente. O prazer carnal foi intenso. Mas as consequências foram devastadoras.

    1. Vergonha – Deus revela o pecado

    Não há nada pior para um pecador do que ter seu pecado oculto exposto à luz. A vergonha pública é dolorosa. Deus não permite que pecados escondidos permaneçam ocultos para sempre.

    Davi também experimentou vergonha quando soube que seu filho Absalão se deitava com suas mulheres diante de todo o povo (2Sm 16.21–22).

    2. Desordem familiar — um abismo chama outro abismo

    A família de Davi mergulhou em tribulações:

    • seu filho com Bate-Seba morreu (2Sm 12.15–23);
    • Amnom violentou sua irmã Tamar (2Sm 13.1–14);
    • Absalão matou Amnom para vingar Tamar (2Sm 13.23–29).

    Como bem disse o comentarista:

    “Quando não vivemos uma vida digna do Deus a quem servimos, a primeira atingida é a nossa família… Seremos para nossos filhos exemplos para o bem ou para o mal.” [4]


    As consequências do prazer pecaminoso

    Uma pessoa não guiada pelo Espírito Santo é facilmente arrastada pelas obras da carne. As características deste fruto são:

    1. Casamentos desfeitos
    2. Famílias destruídas
    3. Adultério
    4. Suicídio
    5. Depressão
    6. Gravidez indesejada
    7. Homicídios
    8. Doenças sexualmente transmissíveis
    9. Traumas emocionais
    10. Morte espiritual


    Toda alegria do pecado termina em dor, vergonha e destruição.

    Por isso, clamo a Deus por um avivamento pessoal no Espírito Santo — começando por mim. Se eu realmente tivesse o “livre-arbítrio” que muitos defendem, eu escolheria jamais pecar e encorajaria meus entes queridos a serem “espertos” como eu. Mas toda honra e toda glória pertencem ao Senhor.

    Que sejamos lavados no sangue de Jesus, perdoados de nossas iniquidades e preservados do dia da ira. Que busquemos ao Senhor enquanto se pode achar e o invoquemos enquanto está perto, pois na sepultura não há esperança para os condenados.

    Uma antiga canção reflete a atual realidade

    “Eu comparo a vida do homem sem Deus
    Como uma folha seca caída no chão.

    Que vai para onde o vento levar,
    Tudo é tristeza, tudo é solidão.

    Seu viver é triste, tão cheio de dor,
    Seus dias turbados, sem consolação.

    Assim é a vida do homem sem Deus,
    É uma folha seca caída no chão.”
    — Jair Pires


    A folha seca é levada pelo vento, sem direção nem destino. Mas o crente em Cristo tem um alvo. E é para Ele que devemos caminhar — só assim encontraremos a plena, verdadeira e desejada felicidade.

    “Prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.”
    (Filipenses 3.14)




    Referências Bibliográficas

    [1] AURÉLIO, Antônio. Novo Dicionário Eletrônico Aurélio. v. 5.0. Windows: editora Aurélio, s.d.

    [2] SILVA, Claudemir Pedroso da. Dicionário e Estudos Bíblico. Vitória: Editora PAE, s.d.

    [3] Ibid.

    [4] IBVIR. As consequências do pecado de Davi. Disponível em: http://www.ibvir.com.br/sermoes/davi_consequencias_do_pecado_de.htm. Acesso em: 22 dez. 2025.

    Este texto foi publicado originalmente em juliocelestino.com em 08 de julho de 2017

  • PALAVRAS TAMBÉM MATAM

    JESUS E O ASSASSÍNIO


    “Aquele que lhe disser: tolo, será réu do fogo do inferno”
    Mateus 5.22


    No dia 20/02/2017, estudávamos o livro de Provérbios em um curso de teologia em uma igreja do bairro Resistência em Vitória/ES, e o tema central da exposição foi Provérbios 1.7, que afirma:

    “O temor do SENHOR é o princípio do conhecimento; os loucos desprezam a sabedoria e a instrução”.


    À primeira vista, surge uma aparente contradição quando comparamos esse texto com a declaração de Jesus em Mateus 5.22:

    “…e aquele que lhe disser: Tolo, será réu do fogo do inferno”.


    Diante disso, surge a dúvida: se uma pessoa chamar alguém de tolo, insensato ou louco, ela perderá a salvação?

    Essa linguagem não aparece apenas em Mateus 5.22, mas em diversas outras passagens do Novo Testamento. A seguir, alguns exemplos — observando que foram utilizados apenas textos em que aparece a palavra grega usada em Mateus 5.22 para “tolo”, a saber, morós ou moré:

    • Mateus 7.26 – “E aquele que ouve estas minhas palavras e não as cumpre compará-lo-ei ao homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia.”
    • Mateus 23.17 – “Insensatos e cegos! Pois qual é maior: o ouro ou o templo que santifica o ouro?”
    • Mateus 25.2 – “Cinco delas eram prudentes, e cinco loucas.”
    • 1 Coríntios 1.27 – “Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias…”
    • 2 Timóteo 2.23 – “E rejeita as questões loucas e sem instrução, sabendo que produzem contendas.”
    • Tito 3.9 – “Mas evita questões loucas, genealogias, contendas e debates acerca da lei…”



    Assassínio – A mensagem de Mateus 5.21–22

    “Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; mas qualquer que matar será réu de juízo.”


    Nesta passagem, Jesus ensina uma lição profunda acerca do sexto mandamento. Ele inicia dizendo “ouviste” porque a maioria das pessoas presentes no Sermão do Monte não sabia ler. Mesmo entre os que sabiam, as Escrituras não eram acessíveis ao povo comum. Assim, o conhecimento bíblico vinha principalmente pela leitura pública nas sinagogas e pela exposição dos escribas.

    Jesus prossegue dizendo:

    “Eu, porém, vos digo que qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão será réu de juízo; e qualquer que disser a seu irmão: Raca, será réu do Sinédrio; e qualquer que lhe disser: Louco, será réu do fogo do inferno.”


    A palavra “Raca” é um termo de desprezo, originado no orgulho. Salomão chama esse tipo de pessoa de zombador:

    “Zombador é o seu nome, o soberbo e presumido” (Pv 21.24).


    Trata-se de alguém que desdenha do irmão, equiparando-o a algo vil, indigno — quase como um cão.

    Já a palavra “louco” (aqui, moré, do grego μωρέ) expressa rancor e ódio. Não descreve apenas alguém comum ou ignorante, mas alguém considerado moralmente reprovável, indigno de amor e de honra — “homem iníquo, réprobo”.

    Matthew Henry observa corretamente que Jesus ensina que o uso de linguagem ultrajante contra o irmão constitui um assassinato pela língua. Quando tais palavras são usadas com moderação e boa intenção — para corrigir, advertir ou expor a vaidade e a tolice — não são pecaminosas. Por isso, Tiago diz:

    “Ó homem vão” (Tg 2.20),
    Paulo afirma:
    “Insensato!” (1Co 15.36),
    e o próprio Cristo declara:
    “Ó néscios e tardos de coração” (Lc 24.25).


    Entretanto, quando essa linguagem nasce da ira interior e da maldade do coração, ela se torna a fumaça do fogo que arde no inferno, enquadrando-se na mesma gravidade moral.

    Em suma, para Jesus, a atitude de ira contra o irmão é um pecado gravíssimo — tão sério que merece o mesmo juízo associado ao assassínio. As palavras amargas são como flechas que ferem mortalmente (Sl 64.3).

    Quem se encoleriza corre o risco do juízo; quem chama o irmão de “Raca” se expõe ao conselho; mas quem o chama de “louco”, no sentido de pessoa profana e condenável, coloca-se em perigo do fogo do inferno — o mesmo destino que deseja ao outro.

    Por isso, diante da ira, o caminho cristão é a reconciliação. O amor e a caridade são o ápice da vida daquele que está em Cristo. Jesus conclui dizendo:

    “Portanto, se trouxeres a tua oferta ao altar, e ali te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão; e depois vem e apresenta a tua oferta.”
    (Mateus 5.23–24)




    Referências bibliográficas (ABNT)

    BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Tradução João Ferreira de Almeida Fiel.
    Disponível em edições impressas diversas.

    STRONG, James. Dicionário Bíblico Strong.
    Rio de Janeiro: CPAD, s.d.

    HENRY, Matthew. Comentário Bíblico Matthew Henry.
    Vol. 1. Rio de Janeiro: CPAD, s.d., p. 52–53.

    CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento Interpretado.
    Vol. 1. São Paulo: Hagnos, s.d., p. 310–311.



    Este texto foi publicado originalmente em juliocelestino.com em 23 de fevereiro de 2017

  • O QUE ACONTECE APÓS A MORTE?


    Decidi colocar este diagrama em pauta por causa de um problema que vem crescendo entre ouvintes pentecostais e reformados de Vitória/ES, que passaram a acompanhar a rádio Novo Tempo (suspeito que por falta de opção). A emissora, como se sabe, é um órgão da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Diariamente, nesse meio de comunicação, ensina-se que nós somos uma alma e que, quando alguém morre, simplesmente “dorme”, entrando em um estado de inconsciência semelhante ao que existia antes do próprio nascimento.

    Segundo essa doutrina, a pessoa que dorme só despertará quando Jesus voltar. Depois disso, os salvos viverão eternamente, enquanto os condenados sofrerão por um determinado período de tempo (?) e, em seguida, deixarão de existir — desta vez, de forma definitiva e eterna.

    Concordo com a avaliação de R. C. Sproul ao afirmar que a doutrina do sono da alma representa um afastamento do cristianismo histórico e ortodoxo. Embora essa posição ainda exista no meio cristão, ela sempre ocupou um lugar minoritário. A compreensão tradicional da Igreja, desde os primeiros séculos, é conhecida como estado intermediário. Segundo esse entendimento, no momento da morte a alma do crente é imediatamente conduzida à presença de Cristo, onde passa a experimentar uma existência pessoal, contínua e consciente, enquanto aguarda a ressurreição final do corpo.

    Esse ensino não é uma construção tardia, mas uma doutrina bíblica e histórica, sustentada pelos pais da Igreja e reafirmada pelos reformadores do século XVI.



    Este texto foi publicado originalmente em juliocelestino.com em 2 de fevereiro de 2017

  • DOCES DE COSME E DAMIÃO

    CONVÉM CONSUMIR?


    Muitas pessoas têm dúvidas se é pecado consumir alimentos oferecidos aos ídolos. Alguns utilizam Romanos 14.14 como base para defender essa prática, texto que diz: “Eu sei e estou persuadido, no Senhor Jesus, de que nenhuma coisa é de si mesma impura, a não ser para aquele que a considera impura; para esse é impura”. No entanto, ao meu ver, existem problemas claros em consumir alimentos que foram oferecidos a ídolos.

    Entendo que não é saudável participar desse tipo de prática por pelo menos duas razões. Primeiramente, os doces e alimentos oferecidos funcionam como um atrativo, um verdadeiro “cartão de visita” da idolatria, especialmente para crianças. Em segundo lugar, ao adquirir, consumir e ainda ensinar a outros irmãos que não há problema nisso, acaba-se contribuindo, ainda que indiretamente, para a manutenção e divulgação da idolatria que está por trás da prática, funcionando quase como uma forma de marketing religioso.

    Além disso, o apóstolo Paulo deixa claro que existe uma diferença entre não saber a procedência do alimento e saber. Se não houver conhecimento de que aquele alimento foi oferecido a ídolos, não há problema algum. Contudo, se a origem for conhecida, o mais prudente é buscar outra opção. Isso fica evidente em 1 Coríntios 10.27-28, quando Paulo diz: “E, se algum dos infiéis vos convidar e quiserdes ir, comei de tudo o que se puser diante de vós, sem nada perguntar, por causa da consciência. Mas, se alguém vos disser: Isto foi sacrificado aos ídolos, não comais, por causa daquele que vos advertiu e por causa da consciência; porque do Senhor é a terra e a sua plenitude”.

    Ainda que o texto não trate especificamente de doces distribuídos em determinadas práticas religiosas, há um princípio claro ali. Se eu consumir algo sem saber que foi oferecido a ídolos, não há culpa. Porém, sendo cristão e tendo conhecimento de que aquele alimento foi consagrado em um contexto idólatra, devo me abster, justamente por causa da consciência. Isso inclui também orientar outros irmãos, pois a omissão, quando se conhece a verdade, também se torna pecado.

    Soa estranho imaginar pais da igreja tentando economizar dinheiro e anunciando aos familiares que determinado centro espírita está distribuindo doces para as crianças, incentivando todos a irem buscá-los. Se tenho condições de comprar alimento, por que recorrer a algo que está diretamente ligado a uma prática idólatra? Muito menos faria sentido ensinar meus filhos que podem participar disso sem qualquer problema.

    A Escritura é clara quando afirma em 1 Coríntios 10.14: “Portanto, meus amados, fugi da idolatria”. No mesmo capítulo, nos versículos 18 a 20, Paulo declara: “Considerai Israel segundo a carne: os que comem dos sacrifícios não são, porventura, participantes do altar? Que digo, pois? Que o ídolo é alguma coisa? Ou que o que se sacrifica ao ídolo é alguma coisa? Antes digo que as coisas que os gentios sacrificam, sacrificam-nas aos demônios e não a Deus; e não quero que sejais participantes com os demônios”.

    Em Apocalipse 2.14, o próprio Jesus aponta como pecado o ato de comer dos sacrifícios da idolatria. Evidentemente, se um crente estiver em situação de necessidade extrema e não tiver o que comer, o mal que estava na intenção de quem ofereceu o alimento não lhe trará condenação, pois Deus conhece todas as coisas e sabe da condição do faminto. Contudo, se posso me alimentar longe da idolatria, por que buscaria alimento justamente nela?


    Este texto foi publicado originalmente em juliocelestino.com em 8 de setembro de 2015